Todo 7 de Setembro produz o mesmo tipo de texto. Bandeira, hino, orgulho, e uma sensação vaga de que alguma coisa foi conquistada em 1822 e está guardada desde então. É um gênero confortável e quase sempre vazio, porque trata a independência como evento encerrado e não diz o que ela deveria ter produzido. A frase que Gilberto Gil publicou no bicentenário faz o oposto. Ela troca o verbo.
O tema é a diferença entre comemorar e continuar. Gil não nega a data nem a relativiza. Registra os duzentos anos e, na mesma sentença, afirma que a construção segue. Não é frase sobre o passado. É sobre uma obra inacabada, e a escolha das palavras com que ele descreve essa obra é o que merece atenção.
200 anos de independência do Brasil e seguimos na luta pela construção da nossa nação fraterna e solidária.
Vale registrar o momento. O 7 de Setembro de 2022 foi um bicentenário disputado. Em ano eleitoral, a data foi ocupada por manifestações políticas, e a publicação de Gil apareceu na cobertura de imprensa ao lado de outras vozes de artistas em posição crítica ao governo de então. Gil, que foi ministro da Cultura entre 2003 e 2008, é figura com trajetória política conhecida, e a frase circulou nesse enquadramento. Nada disso invalida o que ele escreveu. Mas explica por que a frase costuma ser lida como declaração de lado, quando o vocabulário dela aponta para outro lugar.
As duas palavras finais não são de Gil. “Fraterna” está no preâmbulo da Constituição de 1988, que anuncia a instituição de um Estado destinado a assegurar os valores de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos. “Solidária” está no artigo 3º, inciso I, que lista entre os objetivos fundamentais da República construir uma sociedade livre, justa e solidária. O verbo do artigo, aliás, é o mesmo da frase: construir. A Constituição não diz que a sociedade solidária existe. Diz que é objetivo.
Isso muda o que a frase afirma. Ela não propõe um projeto de um grupo, propõe o projeto escrito no texto que todos os grupos juram cumprir. E o “seguimos na luta” deixa de ser retórica de militância para ser constatação jurídica: o artigo 3º está em vigor há 38 anos e continua redigido no infinitivo, como tarefa, porque a tarefa não foi concluída. Quem discorda de Gil sobre qualquer outra coisa ainda tem esse texto para cumprir.
O que sobra, para o leitor que não quer disputa nenhuma no feriado, é uma pergunta melhor que a de costume. Não é se o Brasil é independente, porque isso a data já respondeu. É se a nação descrita no artigo 3º está mais perto ou mais longe do que estava no ano passado, e o que cada um fez com a parte que lhe cabe da construção.
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