O mistério dos 33 corpos de bruços que enganou a arqueologia por décadas

Encontrados nos anos 1970 em El Salvador, os restos mortais eram vistos como prova de sacrifícios rituais, até a arqueologia moderna olhar de perto para a terra

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Vista panorâmica da pirâmide de Tazumal

Achado novo pode trazer nova luz sobre hipótese antiga (Foto: Jose Huwaidi / Wikimedia Commons / Imagem Ilustrativa)

Primeiro apareceu um osso sob a terra escura. Depois outro, seguido por corpos de bruços, braços recolhidos e cabeças faltando. Entre 1977 e 1978, a escavação em Chalchuapa parecia revelar uma cena enterrada de terror.

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Quando o trabalho terminou, pesquisadores haviam identificado restos de 33 pessoas dentro da estrutura E3-7, no sítio El Trapiche. As posições dos corpos e a ausência de partes deles indicavam uma hipótese macabra: sacrifício humano. O caso se soma a outros túmulos antigos com rituais funerários.

Casos de potenciais sacrifícios na Mesoamérica

Quando a terra começou a devolver os mortos

Os eventos que ocorreram nos anos de 1970 se deram em uma escavação de salvamento em Chalchuapa, uma antiga área urbana. Os trabalhadores investigavam a área para ampliar uma construção moderna quando encontraram os registros do passado.

Sob a terra escura e dentro das estruturas antigas foram encontrados 26 esqueletos completos, mas também outros quatro com partes faltando e três cabeças soltas. A maioria deles de bruços, indicando que seus pés e mãos estavam amarrados na hora da morte.

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Entre os corpos, algo chamava a atenção: a falta de membros ou cabeças, o que, naquelas terras do passado, poderia revelar mutilações e decapitações. Além disso, a grande quantidade de cadáveres indicava um local com longo histórico de violência ritual.

Em 1984, o arqueólogo William R. Fowler Jr. reuniu os dados em um estudo publicado na revista científica American Antiquity. Para ele, a estrutura funcionou como um túmulo construído em várias etapas.

Fowler propôs que os mortos seriam cativos de guerra, possivelmente vindos de fora de Chalchuapa. O sacrifício dessas pessoas ajudaria a demonstrar a força política de uma comunidade que ampliava sua influência na região.

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A interpretação transformou o local em uma possível referência para a história do sacrifício humano na Mesoamérica. Porém, a arqueologia mudou desde então, sobretudo na forma de analisar o que acontece com um corpo após o enterro.

Hipótese que exige cautela

Uma análise publicada em 2023 por Shintaro Suzuki, Héctor Mejía e T. Douglas Price mostrou por que a conclusão exige cautela. O trabalho estudou sepultamentos na Guatemala, mas revisou diretamente os critérios usados em Chalchuapa.

Os autores explicam que enterrar alguém de bruços não é uma prova isolada de execução ritual. Há outros sepultamentos mesoamericanos nessa posição, ligados a práticas funerárias que não apresentam evidência direta de violência.

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As supostas amarras também podem enganar. Durante a decomposição, o peso do sedimento pode empurrar os antebraços para dentro do espaço antes ocupado pelo corpo, criando uma postura parecida com a de mãos presas.

Suzuki não examinou diretamente as ossadas de Chalchuapa, portanto sua revisão não elimina a hipótese de sacrifício. Ela mostra, porém, que posições incomuns e partes ausentes precisam ser acompanhadas por marcas ósseas, contexto rigoroso e análises laboratoriais.

Nos conjuntos guatemaltecos avaliados pelos autores, não foram detectadas marcas de corte que confirmassem algumas mutilações imaginadas durante a retirada dos corpos.

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Esqueleto de quase 3 mil anos surge sob as cinzas

Em 2 de julho de 2026, arqueólogos localizaram outro corpo de bruços no sítio Pasaje 4, em Antiguo Cuscatlán, na região metropolitana de San Salvador. A retirada ocorreu no dia 21 e pode contradizer diretamente a hipótese de Fowler.

Segundo o Ministério da Cultura de El Salvador, o sepultamento pode ser de aproximadamente 850 a.C.

Ao lado da ossada estava uma pequena vasilha de cerâmica do estilo Usulután, moldada como uma tartaruga marinha. A equipe também encontrou sulcos de cultivo de mandioca preservados sob cinzas de erupções ocorridas em épocas diferentes.

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O governo salvadorenho considera possível que outros sepultamentos estejam escondidos na área.

Autor: Luiz Dias