Um grupo de magistradas brasileiras enviou uma carta e 12 buquês de flores à ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia, nesta quarta-feira (16). O gesto de apoio surgiu após a posição da ministra na sessão do STF desta terça-feira, que decidiria sobre a abertura de investigação contra Alexandre de Moraes no caso Master. Entre os grupos de juízas que assinam a carta para Cármen Lúcia está o Coletivo Catarina, que reúne desembargadoras de Santa Catarina.
O coletivo catarinense foi criado em 20 de agosto deste ano, a partir dos diálogos do I Encontro de Juízas, no próprio STF. Na ocasião, as desembargadoras do TJ-SC Haidée Denise Grin e Érica Lourenço de Lima Ferreira e a desembargadora federal Ana Cristina Ferro Blasi decidiram criar um grupo permanente de mulheres da magistratura.
Na carta a Cármen Lúcia, também assinada por outros 11 coletivos de mulheres do Judiciário, as magistradas escreveram: “Receba estas flores como aquilo que elas pretendem ser: presença. E receba, junto delas, o carinho e o abraço de mulheres que, de diferentes lugares do Brasil, quiseram chegar um pouco mais perto da senhora hoje”.
Leia a carta na íntegra
“Hoje, estas flores chegam de diferentes Tribunais, trazidas por mulheres que quiseram lhe dizer uma coisa muito simples: a senhora não está sozinha.
Ouvimos ontem sua voz, sua tristeza, sua consternação. E ouvimos quando a senhora buscou em Clarice Lispector as palavras para traduzir um sentimento que talvez já não coubesse inteiramente nas palavras.
Foi à Clarice de Mineirinho que a senhora recorreu — justamente a Clarice que se inquieta diante da Justiça e que, ao olhar para a dor do outro, também olha para dentro de si:
‘Eu não me perdi, mas experimentei a perdição.’
Talvez tenha sido justamente nesse instante, quando a Ministra recorreu à literatura para conseguir falar, que muitas de nós enxergamos mais claramente a mulher.
A mulher que existe antes da toga e para além dela.
A menina de Minas que cresceu ouvindo da mãe que, para chegar ao mesmo lugar que os homens, as mulheres precisariam trabalhar mais.
A filha que aprendeu com o pai o tamanho do compromisso de ser juíza.
A mulher que trabalhou, estudou, persistiu e chegou a um lugar que, antes dela, pouquíssimas mulheres haviam alcançado.
E talvez por conhecermos um pouco dessa história tenha nos tocado tanto ouvi-la pedir desculpas.
A senhora se perguntou se poderia ter feito mais. Se poderia ter ajudado mais. Se poderia ter contribuído para devolver serenidade a um momento tão difícil.
E foi então que sentimos vontade de lhe responder.
Há uma diferença imensa entre sentir responsabilidade e transformar esse sentimento em culpa.
Talvez nós, mulheres, conheçamos particularmente bem esse lugar: o de, diante de uma ruptura que não produzimos sozinhas, procurarmos primeiro dentro de nós aquilo que poderíamos ter feito diferente. O de nos perguntarmos se faltou alguma palavra, algum gesto, alguma tentativa a mais.
Por isso, ministra, estas flores não chegam para lhe pedir explicações ou respostas.
Chegam para lhe dizer, com carinho: não transforme em culpa pessoal a tristeza de quem ainda se importa profundamente.
Ontem, a senhora nos levou a Clarice.
E nós voltamos a ela procurando alguma coisa que pudéssemos lhe devolver.
Encontramos, em ‘A Paixão Segundo G.H’:
‘Estou tão assustada que só poderei aceitar que me perdi se imaginar que alguém me está dando a mão.’
Talvez estas flores sejam exatamente isso.
Uma mão.
Na verdade, muitas.
Mãos de mulheres que também vestem toga.
Não nos cabe, nesta carta, falar de processos, votos ou divergências. Cabe-nos falar da mulher que, em meio a tudo isso, ainda se permitiu sentir.
Mulheres de diferentes cidades, diferentes tribunais, diferentes histórias, que reconheceram ontem não apenas a Ministra do Supremo Tribunal Federal, mas uma mulher profundamente tocada pelo peso do lugar que ocupa.
Mulheres que conhecem, cada uma à sua maneira, o peso de decidir. Que sabem o que é entrar em espaços onde, durante tanto tempo, quase todas as cadeiras foram ocupadas por homens. Que conhecem a cobrança de acertar, de resistir, de manter a serenidade e, tantas vezes, de parecer mais fortes do que realmente se sentem.
Hoje, porém, não queremos lhe pedir força.
A senhora já precisou ser forte muitas vezes.
Não queremos que procure mais uma vez dentro de si aquilo que poderia ter feito.
Talvez, por algumas horas, a senhora possa simplesmente deixar de ser a Ministra que precisa encontrar a palavra certa, a juíza que precisa solucionar, a mulher que sente que deveria ter conseguido fazer mais.
Pode simplesmente ser Cármen.
A filha de Anésia e Florival.
A menina de Minas.
A mulher que chegou tão longe e que, depois de tantos anos, ainda conserva algo que nenhuma toga deveria nos retirar: a capacidade de se importar, de se entristecer e de se comover.
Talvez tenha sido exatamente isso que vimos ontem.
Não uma confissão de culpa.
Humanidade.
E foi a essa humanidade que quisemos responder.
Clarice precisou imaginar que alguém lhe dava a mão para conseguir atravessar a experiência que narrava.
A senhora, ministra, não precisa imaginar.
Estamos aqui.
Por trás de cada uma destas flores existe uma mulher estendendo a mão.
E, se ontem a senhora experimentou a perdição, hoje queremos apenas lhe lembrar que não precisa atravessá-la em solidão.
Receba estas flores como aquilo que elas pretendem ser: presença.
E receba, junto delas, o carinho e o abraço de mulheres que, de diferentes lugares do Brasil, quiseram chegar um pouco mais perto da senhora hoje.
Com carinho, respeito e gratidão”
