“Comorbidade” virou sinônimo de passe livre para a morte

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Novo coronavírus abreviou a vida de milhares de brasileiros que, embora convivessem com um problema crônico de saúde, teriam pela frente uma vida plena e feliz

Comorbidade é uma palavra tão nova no vocabulário do brasileiro quanto coronavírus e pandemia. Mal usada e abusada, virou justificativa para os óbitos. “Morreu de covid. Mas tinha comorbidades”. Como se as pessoas que têm doenças preexistentes já tivessem um passe-livre para a morte.

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O substantivo tem sido usado com frequência por aqueles que desdenham da morte. Os que não acreditam na gravidade da pandemia, ou que se sentem ungidos pela imunidade.

Comorbidade também é um recurso narrativo fácil de ser usado pelos órgãos de governo, que têm a missão espinhosa de relatar o número de mortos, dia após dia. Os relatórios vêm assim: homem ou mulher, tantos anos, tinha comorbidades. As doenças preexistentes viraram a última fronteira no jogo de empurra-empurra das responsabilidades.

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No dicionário, comorbidade significa a associação entre duas ou mais doenças simultâneas. Como hipertensão e diabetes, por exemplo. Quantas pessoas você conhece nessa condição? E quantas estão nesse grupo, mas não sabem?

Vamos ficar nesses dois exemplos, porque eles estão entre as doenças mais comuns a facilitar quadros graves de covid-19. Pelos menos 12 milhões de brasileiros são diabéticos, segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes. Hipertensos somam 47 milhões, segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia. E quase 20% não estão diagnosticados.

Pense nas pessoas com quem você convive. Ou na sua condição de saúde, talvez. Ter doenças crônicas como essas não é uma sentença de morte. Pessoas vivem bem e em paz com as tais comorbidades. Criam os filhos, veem crescer os netos, realizam sonhos e projetos.

O novo coronavírus abreviou a vida de milhares de brasileiros que, embora convivessem com um problema crônico de saúde, teriam pela frente uma vida plena e feliz. Escorar-se nas comorbidades para justificar as mortes causadas pela covid-19 é como supor que elas não pudessem ser evitadas.

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Para cada vítima da pandemia, com ou sem comorbidades, há um rastro do egoísmo daqueles que não tomaram os cuidados necessários para evitar disseminar o coronavírus. Do negacionismo perverso, que expõe as pessoas aos riscos. Nossa doença crônica é a falta de empatia.

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