Quem quiser ganhar mais terá de correr riscos, diz professor de finanças da FGV

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A redução da taxa básica de juros Selic para o menor patamar da história, 6,75% ao ano, abre caminho para ampliar investimentos no país, com geração de emprego e renda, mas também exige nova postura de quem aplica dinheiro no setor financeiro, exigindo maior risco. São essas as principais mudanças ao mercado após mais um corte dos juros pelo Banco Central, na avaliação do professor da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e da FGV, Andriei Beber. Doutor em Engenharia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Beber recebeu por quatro vezes o prêmio Mérito Docente na categoria Finanças e Métodos da FGV e, para as pessoas melhor administrarem suas finanças, ele criou o método dos 4Rs.  

A taxa básica de juros Selic foi reduzida para o mais baixo patamar da história, 6,75%. Que impactos isso deve provocar na economia?

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A política monetária conduzida pelo Banco Central tem como objetivo ancorar as expectativas do mercado em torno da inflação futura, orientando o processo de formação de preços da economia. Por meio da taxa básica de juros, o Banco Central regula a oferta de moeda e influencia a dinâmica do mercado. Diante de uma taxa básica de juros reduzida, os investidores são incentivados a aplicar seus recursos em uma atividade produtiva uma vez que os títulos do tesouro não oferecem mais os elevados ganhos de um passado recente. Como resultado, gera-se emprego e renda, oferecendo ao país uma oportunidade de crescimento. Todavia, o Banco Central deve permanecer vigilante pois, o incremento da atividade produtiva pode gerar inflação, demandando uma elevação nessa taxa.

Com a Selic baixa, a remuneração em aplicações em renda fixa cai. O que o senhor recomenda para quem precisa de uma gestão conservadora de dinheiro e a quem pode correr mais riscos?

Quem quiser ganhar mais terá de correr riscos e aplicar em ativos de renda variável e por prazos mais longos. Isso não significa que será preciso partir para o “tudo ou nada”, assumindo riscos desnecessários. Deve-se ter cautela com fórmulas mirabolantes que garantem elevados retornos. É fundamental conhecer a tolerância individual ao risco e entender seu perfil de investidor, geralmente classificado em conservador, moderado e agressivo. Com o auxílio de profissionais, é possível diversificar e dividir o dinheiro entre fundos conservadores, como o DI e a renda fixa; fundos moderados, como os multimercados; e ativos de maior risco, como as ações. Uma outra opção são os fundos de renda fixa que compram títulos mais longos que, além de maior lucratividade, em alguns casos apresentam isenções de imposto de renda.

Muitos investidores estão recorrendo à compra de ações, mas vemos turbulências nas bolsas mundiais. Mesmo assim essa opção é vantajosa? 

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Nunca é demais reforçar que o investimento em ações envolve risco e não há garantia de retorno futuro. A recente turbulência nas bolsas mundiais tem sido fortemente impactada pelo ajuste que vem passando a bolsa norte-americana. Trata-se de uma “correção”, uma vez que boa parte dos agentes de mercado entende que a bolsa norte-americana está “cara” ou seja, que boa parte das empresas está sobrevalorizada. Como resultado, aquele investidor que tem viés especulativo realiza os lucros vendendo suas ações, pressionando o desempenho da bolsa para baixo. Outro temor apontado por muitos é, ironicamente, o excelente desempenho da economia norte-americana que pode gerar mais inflação do que o esperado e obrigar uma elevação nas taxas de juros.

A caderneta de poupança também oferece remuneração menor com a Selic baixa. Mesmo assim, muitos poupadores optam por essa alternativa. Quais são os pontos positivos e negativos da poupança?

A caderneta de poupança é o investimento mais tradicional e popular do Brasil. Dentre suas virtudes, estão a isenção de imposto de renda, a proteção do FGC – Fundo Garantidor de Crédito e ausência de taxas administração. Investir em produtos de renda fixa menos populares, como as debêntures, pode ser uma alternativa. Mas isso exige reflexão e conhecimento.  A falta de conhecimento do universo financeiro faz com que grande parte dos poupadores negligencie a existência de outras alternativas que apresentam maior retorno para um mesmo grau de risco.

No Brasil, a taxa básica de juros cai, mas o cliente bancário segue pagando juros altos demais. Por que os juros não caem e o que o cliente bancário pode fazer para fugir das altas taxas?

A política monetária é uma das prerrogativas do Banco Central, que define a taxa básica de juros com o objetivo de influenciar a inflação. Trata-se de uma abordagem macroeconômica. Por outro lado, a microeconomia avalia o comportamento observado entre fornecedores e consumidores. Para os bancos, a receita de juros deve ser suficiente para cobrir as despesas operacionais, inflação, risco de inadimplência, além de proporcionar lucro, o famoso spread. Diversos especialistas têm se revezado ao afirmar que a falta de competição e a ausência de informações sobre os bons pagadores são fatores críticos que impedem uma redução nessas taxas. Como alternativa, vem se intensificando no Brasil os empréstimos peer-to-peer (P2P), também conhecidos como “financiamento coletivo” ou “comunidade de empréstimos”, que utilizam a tecnologia para simplificar os serviços bancários. Recentemente, o Banco Central realizou audiência pública sobre o tema com o intuito de regular esse mercado.

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O senhor tem uma carreira destacada como professor e conselheiro do setor privado, tendo sido eleito diversas vezes o melhor professor de finanças da FGV. Como é essa premiação?

A FGV tem o reconhecimento da sociedade brasileira pela qualidade e excelência na produção e difusão do conhecimento. E uma preocupação constante é a avaliação de seus docentes. A cada módulo ministrado, o professor é submetido a um criterioso processo de avaliação e aqueles com os maiores índices por área de conhecimento são homenageados. A FGV tem uma história de mais de 70 anos. Sinto-me orgulhoso ao fazer parte dessa história de modo tão destacado.

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Para ajudar as pessoas a administrar melhor as finanças, o senhor criou o método 4Rs. Que passos ele recomenda?

Muitas pessoas enfrentam dificuldades quando o assunto é gerenciar o próprio dinheiro. O método dos 4Rs é um modelo prático para ter uma vida financeira equilibrada.
1. Reconhecer a necessidade de assumir as rédeas das finanças pessoais e promover uma profunda reflexão sobre os objetivos financeiros individuais e familiares.
2. Registrar os gastos que estão sendo realizados e avaliar de forma palpável a entrada e saída de dinheiro.
3. Revisar seus hábitos de consumo e oportunidades para otimizar o uso dos recursos. 
4. Realizar seus sonhos.

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Quando a pessoa tem consciência de onde o seu dinheiro está sendo gasto, ela pode redefinir as prioridades e se dedicar a alcançá-las sem ficar endividado. Para isso, entretanto, é preciso disciplina e comprometimento com as metas estabelecidas.

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