Thomaz Pacheco construiu carreira na área financeira – foi vice-presidente do Itaú BBA –, mas desde o fim de 2017 se dedica a ser um dos porta-vozes do RenovaBR, movimento criado no ano passado pelo empresário Eduardo Mufarej. Trata-se de uma espécie de “fundo de investimento” alimentado por doações – nomes como Luciano Huck, Nizan Guanaes e Abílio Diniz apoiam a iniciativa – que custeiam cursos para formação de novas lideranças políticas, já mirando as eleições de 2018.
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Pacheco tem feito apresentações para falar do RenovaBR. Na segunda-feira, desembarcou em Blumenau, onde foi recepcionado no Centro Empresarial. Lá estavam as principais lideranças empresariais da cidade, acomodadas no auditório para ouvir o que o jovem de 31 anos tinha a dizer. Entre eles, o presidente do Conselho de Administração da Senior, Jorge Cenci, um dos 100 nomes escolhidos – gente de centro-esquerda, centro e centro-direita – dentre 4 mil inscritos em todo o país para participar da capacitação, que iniciou na reta final de janeiro.
Combate à corrupção, respeito às liberdades individuais, gestão fiscal responsável, uso racional de recursos naturais, diminuição da desigualdade e acesso a serviços públicos de qualidade são algumas das bandeiras defendidas pelo RenovaBR. Nesta entrevista exclusiva concedida ao blog, Pacheco garante que o movimento é multipartidário e defende o diálogo entre correntes sociais distintas como um dos caminhos para aperfeiçoar a atividade política.
Como surgiu e qual a proposta do RenovaBR?
O Eduardo Mufarej (fundador do movimento) é sócio da Tarpon, um fundo de investimentos em São Paulo, e até pouquíssimo tempo atrás era presidente da Somos Educação, maior grupo de ensino básico no país. Ele sempre teve interesse pelo assunto, uma visão crítica, não querendo ser candidato, mas de buscar de alguma maneira uma iniciativa que pudesse melhorar a situação do Brasil. O movimento foi lançado no dia 7 de outubro de 2017, exatamente um ano antes das eleições deste ano. A ideia é dar ao cidadão comum a possibilidade de concorrer, com solidez, em 2018. O Renova oferece formação para que eles (os bolsistas) possam compreender os principais desafios do país, aprendam como fazer uma campanha eficiente do ponto de vista de alocação de recursos, entendam o funcionamento do Legislativo e estejam efetivamente, se eleitos, preparados para a missão enxergada adiante. A gente se vê como uma aceleradora de talentos para o Congresso Nacional.
O foco maior do movimento é na formação para cargos no Legislativo. Qual deve ser o perfil desse parlamentar e como deve ser a atuação política dele?
A gente não tem pauta ideológica. Somos um movimento pluripartidário. Aceitamos bolsistas filiados a qualquer partido, desde que sejam capazes de conversar com quem pensa diferente deles. Não queremos pessoas com pensamentos extremistas. Não tem problema algum ela ter vivência na gestão pública. Isso é até bem visto, porque traz uma familiaridade com o assunto, mas é importante que ela não tenha ocupado nenhum cargo eletivo antes. Daí o nome Renova, de renovar, de ser um catalisador da renovação política brasileira.
Por que um cidadão descrente com a política deve acreditar no RenovaBR?
Ele deve acreditar porque nós, em pouquíssimo tempo, fomos capazes de juntar um primeiro grupo de gente muito bem-intencionada, preparada e disposta a encarar essa jornada, que não é fácil. Desde as manifestações de 2013, quando todo mundo foi para a rua, acho que acordamos e vimos que não dá mais para esperar. Vimos onde chegamos deixando esse tema de lado. Fomos capazes de juntar um grupo que tem essa visão, que acredita na capacidade de diálogo, que não visa à polarização e à posição extrema e que enxerga nessas eleições a possibilidade de criar um ponto de inflexão, de servir como um divisor de águas de maior engajamento e de efetivamente criar algo novo na política.
Você diz que o movimento não cobra pauta ideológica, tem caráter suprapartidário e está aberto a conversar com diferentes movimentos sociais e políticos.
Exato. Inclusive é importante colocar que muitos desses movimentos e novos partidos têm membros bolsistas do Renova. A gente de fato estende a mão para todos porque acreditamos que seja importante. Quanto mais gente envolvida e querendo promover a renovação na política, melhor. A gente só tem a ganhar.
É possível chegar a consensos diante de perfis de pessoas e grupos tão diferentes sob o mesmo guarda-chuva?
As duas primeiras semanas no módulo presencial em São Paulo foram bastante interessantes nesse sentido. Por mais que cada um tenha uma ideologia, um posicionamento, quando você tira de lado o discurso do ódio e da polarização as pautas não são tão distintas assim. Existe uma agenda comum de melhorar o país e mexer no sistema político atualmente vigente. A gente não busca ter um consenso, mas acredita, sim, que é possível pessoas com pensamentos diferentes serem capazes de dialogar e encontrar pontos de convergência. Não precisa todo mundo pensar igual, mas é importante ter a capacidade de escutar o outro, mesmo que ele pense diferente, e tentar encontrar, de alguma maneira, temas convergentes que denotem uma agenda comum.
O Renova é uma consequência do discurso extremista da política de hoje, uma tentativa de apaziguar os ânimos?
Eu não queria me colocar como crítico da polarização porque não é exatamente o que buscamos. Entendemos que há dificuldades em se obter frutos dessa polarização. O que a gente gostaria de trazer é uma nova solução. Vamos nos juntar, todos, ver o que temos em comum e tentar fomentar de alguma maneira essa capacidade de diálogo. Não acho que somos uma resposta à polarização ou que estamos criticando movimento A ou B. Não nos enxergamos dessa maneira. Queremos pegar pessoas bem-intencionadas, preparadas, que tenham o interesse em servir à sociedade e dar a possibilidade de elas chegarem ao Congresso. A verdade é que o sistema é muito fechado. Há uma “reserva de mercado” de quem já está lá, o que dificulta a renovação efetiva.
O movimento subsidia os cursos para a formação dessas lideranças.
É até importante falar sobre isso. A bolsa é para a subsistência do bolsista enquanto ele participar do programa.
Uma vez eleito, o bolsista vai sofrer algum tipo de cobrança de atuação parlamentar por parte do movimento?
Não. São três as contrapartidas exigidas: cumprimento integral do mandato, transparência total nas votações e adesão a um modelo enxuto de uso dos recursos públicos disponibilizados ao parlamentar. A ideia é que o parlamentar não se sirva do mandato, mas que use o seu mandato para servir a sociedade.
O RenovaBR prega diversidade, mas 75% dos bolsistas são homens e 68% são brancos, o que é um retrato do nosso cenário político hoje.
É verdade que não é tão diversificado quanto a gente gostaria. Mas quando você olha a representatividade étnica dos negros, pardos e indígenas, os 30 e poucos porcento que temos no Renova são mais do que o percentual do Congresso, que é de cerca de 10%. E é a mesma coisa com as mulheres. Na próxima turma a ideia é, sim, ampliar ainda mais a diversidade do grupo. É um foco e é algo importante, de alguma maneira, ampliarmos a representatividade dessas minorias. Temos que trabalhar mais nisso. Já temos um percentual muito importante se você considerar a realidade atual, mas não estamos plenamente satisfeitos.
Como evitar que o fisiologismo contamine essa proposta e que “políticos profissionais” se escorem no movimento sob a bandeira de renovação?
Fizemos uma seleção bastante criteriosa, que envolveu três fases no processo seletivo. Temos sim, na escolha dos candidatos, tentado evitar aqueles que de alguma maneira estejam viciados com as práticas antigas da política. Estamos aproveitando esses módulos presenciais do programa de formação para ter esse contato e poder ter um retorno. Se por acaso percebermos que erramos na seleção e que essas pessoas, por mais que tenhamos pensado inicialmente que trariam novas práticas, sejam na verdade adeptas de fisiologismo e de tudo que a gente gostaria que não se repetisse, vamos ter a humildade de reconhecer o erro e retirar o selo desses candidatos. A gente não tem nenhum tipo de recurso. A ajuda de custo é feita por meio de doação, não podemos reaver qualquer tipo de investimento feito em qualquer um deles. Mas acreditamos na força da marca Renova e vamos trabalhar muito para aumentá-la ainda mais. Tirar esse selo vai sim ter um peso grande, o suficiente para coibir essas práticas que a gente não quer que continuem acontecendo.
O movimento nasceu de uma mobilização de empresários, embora exista hoje uma proposta de financiamento coletivo. Ele vai representar de fato os anseios da sociedade ou a visão que ele propõe é da classe empresarial?
O lema do RenovaBR é “da sociedade para a sociedade”. O nosso compromisso é que todos se sintam representados. A ideia do financiamento coletivo passa por esse princípio também, para que todo mundo da sociedade participe do projeto e com a partir de R$ 10 se sinta dono e representado por ele. Não negamos a nossa gênese porque uma parte dos fundadores do projeto tem sim DNA empresarial, mas a gente nunca foi restritivo com a vinda de outros membros da sociedade civil. Inclusive olhamos com bons olhos a possibilidade de ampliar esse movimento, passando pelo aumento na base de apoiadores. Realmente gostaríamos de ver todos os grupos representados nessa frente.