Ainda que lentamente, o Brasil começa a voltar aos trilhos. Com a desobstrução de rodovias, postos passaram a receber combustível, supermercados estão sendo novamente abastecidos, o transporte coletivo já opera em condições mínimas e escolas e universidades não precisarão mais suspender aulas. Eventos adiados por conta da paralisação dos caminhoneiros já foram remarcados e serviços públicos afetados retornam, dentro do possível, à normalidade.
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Para a economia, recuperar os prejuízos de pouco mais de uma semana de falta de transporte regular levará mais tempo. O comércio viu o fluxo das lojas minguar e as indústrias, sem matéria-prima, tiveram que dispensar os funcionários. Entregas deixaram de ser feitas, contratos foram descumpridos, a esperança de um mínimo de estabilidade institucional foi novamente para o ralo.
A dimensão das perdas ainda é incalculável. A gigantesca máquina que conduz a sociedade e o mercado teve a engrenagem subitamente interrompida. Mesmo consertada, levará algum tempo até que ela volte a operar a todo vapor. Muita serenidade será necessária.
O movimento dos caminhoneiros inspira reflexões sociais, políticas e econômicas. Revela, a exemplo das manifestações populares de 2013 (pela redução da tarifa do transporte coletivo) e de 2016 (impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff), um despertar do brasileiro para a absoluta condição de desgoverno de nossos representantes. Ao mesmo tempo, indica falta de organização e de foco dos movimentos dos descontentes.
O de agora iniciou com uma reivindicação justa da categoria, que pedia melhores condições de competitividade – a maioria delas atendidas. Mas ao ganhar corpo popular, descambou a exigir demandas de toda a sorte – do fim da corrupção à reforma tributária, passando por melhorias na saúde e na educação. Exceção feita à intervenção militar, todas essas causas são legítimas. Mas perdem força quando são jogadas no mesmo balaio. Quando se protesta por tudo, acaba não se protestando por nada.
Outra necessária ponderação: é inacreditável como um país de dimensões continentais como o Brasil ainda é economicamente extremamente dependente de uma mesma matriz energética e de um mesmo modal de transporte. Temos luz solar e vento abundantes, mas ainda estimulamos pouco a utilização de fontes de energia renováveis. Nosso litoral tem pouco mais de 7 mil quilômetros de extensão, mas quantos sabem o que é cabotagem, ou navegação entre portos? Isso sem falar em como sucessivos governos têm ignorado as ferrovias como alternativa de escoamento da produção.
No setor produtivo, dias seguidos sem faturamento podem comprometer até mesmo o pagamento dentro do prazo dos salários de maio, a serem depositados no quinto dia útil deste mês. Duramente atingido, o agronegócio é um dos setores com mais perdas. Não se surpreenda se tudo no supermercado ficar mais caro nos próximos dias. O preço dos alimentos deverá puxar a inflação para cima. Será um novo teste de nervos.
Perdas em números
Nova sondagem feita pela Fecomércio-SC estima um prejuízo de R$ 350 milhões para o setor de comércio, serviços e turismo em Santa Catarina em decorrência da paralisação dos caminhoneiros.
Nos shoppings do país, o fluxo de pessoas durante esse período caiu 15%, conforme levantamento feito pela associação nacional do setor (Abrasce).