A calçada feita por pedras portuguesas é o caminho do passeio. Ao redor, casas feitas milimetricamente nos padrões açorianos dão colorido à vista. Prédios públicos, igrejas, lojas, tudo no mesmo formato, tomado por cores diferentes. Os mais atentos ficam procurando uma diferença, uma falha, mas não há. O padrão açoriano domina com maestria.
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Alguém mais desatento poderia dizer que trata-se de um passeio por bairros de Florianópolis como Santo Antonio de Lisboa e Ribeirão da Ilha, ou São Francisco do Sul e Laguna, todas cidades do Litoral de Santa Catarina. Apesar do equívoco na conclusão, a descrição ajuda na confusão: o passeio é pela Ilha Terceira, uma das nove ilhas do arquipélago dos Açores, região autônoma que pertence a Portugal, local de onde saíram imigrantes, há mais de 270 anos, para colonizar cidades catarinenses.
Historicamente, a conexão entre as duas regiões é bastante conhecida. Um fato recente, porém, pode ser considerado um marco de reconexão entre o povo açoriano e regiões colonizadas em SC. Há um ano, Florianópolis passou a ter um voo direto para Lisboa com três frequências semanais operadas pela TAP Air Portugal. Da Capital portuguesa, há conexões diretas para as duas principais ilhas dos Açores. Na prática, é como se uma porta de relações históricas e culturais tivesse sido reaberta, uma oportunidade para que moradores de Santa Catarina, para além de fazerem turismo na Europa, possam conhecer as origens de cidades catarinenses.
Veja fotos da Ilha Terceira, nos Açores, em Portugal
Na Ilha Terceira, formada pelas cidades de Angra do Heroísmo e Lajes, também conhecida como Praia da Vitória, o sentimento de reconexão está bastante vivo. Marcos Couto, presidente da Câmara do Comércio de Angra do Heroísmo, afirma que há um programa chamado “Raízes”, onde o foco é a ligação com dois pontos importantes das relações açorianas. Um deles é a relação com os Estados Unidos, que são mais recentes e ganharam força com a instalação de uma base aérea americana na região. A outra é, justamente, a conexão com SC:
– Perdemos muito aquela ligação com Santa Catarina e Florianópolis. Sentimos que é preciso recuperar isso. Estes voos que passaram a acontecer são importantes, e queremos agarrar estas oportunidades para a Ilha Terceira e também para a Ilha de São Jorge – afirmou.
Couto afirma que ser terceirense é carregar uma identidade marcada por três pilares: história, cultura e gastronomia únicas.
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– A Ilha Terceira tem uma história singular dentro dos Açores, uma cultura própria e uma gastronomia que é parte essencial da nossa essência. Queremos dar a conhecer isso em um turismo cada vez mais competitivo – afirma.
Para Francisco Maduro Dias, antigo fundador e diretor do Gabinete da Zona Classificada como Patrimônio Mundial de Angra do Heroísmo, compreender a história da relação açoriana com as cidades catarinenses é essencial para valorizar a identidade comum entre os dois povos.
– É muito bonito ver como há gente que valoriza o arquipélago e a nossa identidade cultural, mesmo tão longe. Visitar os Açores é entender o movimento que justificou a ida dos açorianos ao Brasil e o modo como o português via o mundo: sempre através do mar, da comunicação marítima e do apoio em vários pontos do Atlântico – destaca.
Durante cinco dias, a reportagem esteve na Ilha Terceira e em Lisboa. A viagem também previa uma ida à Ilha de São Jorge, mas questões climáticas impediram a visita. Ao longo da reportagem, mostraremos destaques dos Açores e a relação do turismo de Lisboa com SC a partir da nova ligação a partir de Florianópolis, que recolocou os dois povos em contato direto.
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Como nasceu a relação
A vinda de imigrantes açorianos para o Brasil tem um contexto histórico comum com a formação de algumas regiões mais ao Sul da América do Sul: a disputa territorial entre Portugal e Espanha. O professor Francisco Maduro Dias lembra que a relação entre os Açores e SC nasceu de um movimento migratório planejado pela Coroa Portuguesa, que mobilizou milhares de jovens casais açorianos para povoar o Sul do Brasil no século XVIII.
– A Coroa precisava de gente de confiança para ocupar um território despovoado e disputado com a Espanha. Era uma questão de estratégia e soberania – explica.
Nos Açores, havia muitas famílias numerosas, mas nem todos os filhos herdavam terras:
– Três ou quatro podiam viver das propriedades dos pais, mas os outros precisavam buscar seu caminho. A migração ofereceu uma oportunidade de vida nova – conta Maduro Dias. Esses casais levaram consigo tradições, modos de vida e o espírito de quem sempre viveu em relação direta com o mar, um traço que ainda hoje une açorianos e catarinenses, conforme detalha o professor.
Economia açoriana em transição
A reconexão entre SC e os Açores tem um papel importante em um processo de transição vivido atualmente pela Ilha Terceira. Como a região está apostando no turismo nos últimos anos, a visita de catarinenses em busca de conhecer as raízes da própria história pode contribuir com este processo. O presidente da Câmara do Comércio de Angra do Heroísmo, Marcos Couto, confirma que os Açores vivem um período de transição econômica, em que o turismo já superou a agricultura tradicional.
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– Há um enorme desafio para fixar jovens e criar atividades que gerem mais riqueza. O turismo cresce, mas há forte importação de mão de obra e um processo de adaptação da sociedade açoriana – avalia Couto, ressaltando que a cooperação internacional e o reencontro com as origens podem ser caminhos para um desenvolvimento mais sustentável.
Segundo Lara Martinho, vice-presidente da Câmara do Comércio de Angra do Heroísmo, a última década, especialmente após a pandemia, trouxe mudanças significativas na forma como o arquipélago se posiciona como destino turístico.
– Temos buscado reforçar o desenvolvimento sustentável, com regras que evitam um crescimento desestruturado. Os Açores são hoje reconhecidos como um destino turístico sustentável, e acreditamos que é sempre possível aprender com a troca de experiências – ressalta Lara.
Ela destaca ainda o interesse em observar como Santa Catarina tem desenvolvido o turismo, atraindo tanto estrangeiros quanto brasileiros, como um exemplo para os açorianos.
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Como chegar às Ilhas dos Açores
Como as ilhas habitadas do arquipélagos dos Açores ficam a uma distância considerável da região continental de Portugal, a melhor opção para ida até a região é através de voos. A TAP Air Portugal oferece voos diretos para duas das principais ilhas do arquipélago: São Miguel e Terceira.
A rota para São Miguel, cuja capital é Ponta Delgada, conta com 28 frequências semanais, garantindo ampla flexibilidade de horários. Já os voos para a Ilha Terceira acontecem 14 vezes por semana, conectando a capital portuguesa à cidade de Lajes, conhecida também como Praia da Vitória.
Além disso, a TAP mantém sete ligações semanais entre Lisboa e Porto Santo, no arquipélago da Madeira, outra opção de destino insular português. Nos Açores, o deslocamento entre as ilhas é feito pela SATA Air Açores, companhia regional que opera voos curtos e frequentes.
*O jornalista viajou a convite da TAP Air Portugal e de setores de Turismo de Portugal























