Uma nova campanha do governo de Santa Catarina para o combate à violência doméstica inverte a lógica. Até então, as ações passavam por incentivar mulheres a denunciar. A nova visão do Estado é de a estratégia é necessária, mas carrega um efeito colateral conhecido: transfere para a vítima o peso de romper sozinha um ciclo de agressões. Por conta disso, a campanha lançada recentemente muda o formato. A nova estratégia mira diretamente quem comete a violência, o homem.
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O lançamento da campanha não foi por acaso. A ação foi exibida no intervalo do clássico entre Avaí e Criciúma, pelo Campeonato Catarinense, ocupando um dos espaços de maior audiência masculina no Estado. O apresentador Ricardinho Grippe trouxe um dado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os registros de lesão corporal contra mulheres aumentam em dias de jogos. A partir disso, veio o recado direto: “Perder o jogo não te dá o direito de machucar ninguém”.
Ao associar a frustração do futebol à violência doméstica, a campanha toca em um gatilho real e desmonta a velha justificativa do “sangue quente”. Para dialogar com homens que ainda associam masculinidade à imposição física, a campanha escalou um símbolo da força esportiva, Fabrício Werdum, multicampeão do MMA.
Outro acerto da estratégia foi abandonar o tom exclusivamente institucional. Influenciadores digitais foram incorporados à campanha para ampliar alcance e credibilidade, especialmente entre públicos mais jovens. Em um dos relatos, um influenciador conta que, no passado, ouviu brigas recorrentes de um casal e preferiu não se envolver. Depois, descobriu que a vizinha havia sido brutalmente espancada.
O depoimento confronta diretamente o ditado ainda popular de que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. A campanha deixa explícito que o silêncio do entorno protege o agressor. Também há um caráter educativo ao explicar os canais de denúncia. O 190 deve ser acionado em situações de emergência ou flagrante. Já o 181 permite denúncias anônimas, fundamentais para investigação e interrupção de ciclos contínuos de violência.
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