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    O que a demissão de Mandetta revela sobre o jeito Bolsonaro de (des)governar o Brasil

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    Dagmara
    Por Dagmara Spautz
    16/04/2020 - 18h35 - Atualizada em: 16/04/2020 - 20h00
    Presidente Jair Bolsonaro (foto: Sergio Lima, AFP)
    Presidente Jair Bolsonaro (foto: Sergio Lima, AFP)

    O presidente Jair Bolsonaro fez possivelmente a manobra mais arriscada de seu governo, até agora, ao trocar o comando do Ministério da Saúde em meio à grave pandemia do novo coronavírus. Forçar a transição em um momento de crise sanitária mundial é como mudar de motorista com o carro em alta velocidade.

    É fato que já não havia mais clima entre Bolsonaro e Mandetta. Como escrevi aqui ontem, as indiretas públicas ganharam contornos de folhetim, e tornaram a relação insustentável. Mas também é fato que a crise no governo, parafraseando o ex-ministro, tem “nome e sobrenome”: Jair Bolsonaro.

    O presidente tem um insuperável talento para criar problemas. Conseguiu fazer de uma boa gestão da pandemia pelo Ministério da Saúde, que poderia ter lhe rendido créditos políticos, mais uma crise. Deu de graça os holofotes a Mandetta e criou a bizarra figura de um “ministro de oposição”.

    O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, é médico como Mandetta e defende medidas de isolamento social como primeira forma de enfrentamento à pandemia. Aguentará calado a insistência do presidente em contrariar as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS)? Por quanto tempo? Se não aguentar, teremos outra substituição?

    Leia mais: Nelson Teich diz que há "alinhamento completo" com Bolsonaro

    No pronunciamento que fez esta tarde, para anunciar a troca, Jair Bolsonaro poderia ter se limitado ao desgaste no relacionamento com o ex-ministro para justificar a mudança. Mas o presidente voltou a falar em “histeria” e chegou a dizer que os pobres brasileiros não podem fazer isolamento social porque precisam trabalhar para comer. O Estado, a quem cabem as políticas públicas de amparo à população, “não tem como manter” auxílios financeiros por muito tempo, avisou o presidente.

    Upiara: Bolsonaro demite Mandetta porque pode. Se pudesse, demitia os governadores

    Bolsonaro encontrou espaço no pronunciamento para alimentar a insensata batalha com os governadores, numa tentativa de jogar a responsabilidade pela recessão que se abaterá sobre o mundo para os estados. Ao invés de procurar soluções conjuntas, o presidente da República se esforça em atiçar a fogueira com que espera queimar os inimigos políticos.

    A cereja do bolo foi a irresponsável insinuação de que as medidas de quarentena decretadas nos estados são ilegais, quando estão amparadas pela Constituição e foram reconhecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Uma mostra de que o presidente se esforça demais em descolar de si as responsabilidades no momento em que o país precisa de liderança, de governo.

    > Painel do Coronavírus: veja em mapas e gráficos a evolução dos casos em Santa Catarina

    Enquanto Bolsonaro formalizava a dança das cadeiras no Palácio do Planalto, o Brasil ultrapassava o número de 1,9 mil mortos por covid-19 e mais de 30 mil casos confirmados de coronavírus. Os especialistas alertam que a situação é preocupante, e que o momento mais crítico da pandemia ainda não chegou.

    Durante seu pronunciamento oficial, Bolsonaro disse que, como militar, prefere uma má decisão do que não tomar decisão alguma. O problema é que, agora, ele decide por 200 milhões de brasileiros.

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