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Cação

Você já comeu tubarão – e pode ter consumido metais pesados junto com ele

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Dagmara
Por Dagmara Spautz
14/10/2019 - 12h44 - Atualizada em: 15/10/2019 - 07h29
Tubarão anequim
Tubarão anequim (Foto: Reprodução)

Eis uma verdade inconveniente: aquela posta de cação à mostra na peixaria, sem espinhas e de carne tenra, é um tubarão. Ou uma raia. São os elasmobrânquios, peixes cartilaginosos, que desde a década de 1990 estão entre os pescados mais consumidos do Brasil. Ainda que muita gente não saiba exatamente o que está comendo.

Há duas hipóteses para a popularização do nome cação: as peixarias podem ter adotado a nomenclatura “genérica”, que era usada para designar a carne de tubarão em algumas comunidades pesqueiras. Ou então, uma estratégia intuitiva de marketing para tornar o tubarão mais palatável, numa época em que o terror causado pela visão hollywoodiana do grande predador poderia causar rejeição à carne.

Tubarões analisados na pesquisa
Tubarões analisados na pesquisa
(Foto: )

O fato é que, hoje, produzimos mais de 20 mil toneladas de cação ao ano – e importamos outras 23 mil. São animais de diversas espécies, algumas delas, ameaçadas de extinção.

O alto consumo acendeu o alerta no Centro de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Marinha do Sudeste e Sul (Cepsul), que busca reduzir a demanda de cação no Brasil por meio da conscientização. Uma das frentes é uma pesquisa, feita em parceria com a Univali, em Itajaí, que acaba de ter os resultados divulgados. A análise foi feita para comprovar uma suspeita que ronda os tubarões: a de que a carne contém metais pesados.

Raias analisadas na pesquisa
Raias analisadas na pesquisa
(Foto: )

O levantamento ficou sob responsabilidade das pesquisadoras Julia Morete Canario e Victoria Carinhena, sob orientação da professora Kátia Naomi Kuroshima, oceanógrafa, e coorientação de Fernando Fiedler, do Cepsul. Eles analisaram diversas amostras de cação, de três espécies diferentes de tubarões, e três espécies de raias. Os resultados comprovaram a presença de metais em níveis acima dos parâmetros tolerados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Na análise de cádmio, por exemplo, amostras de tubarão-azul e de raia-santa tiveram níveis acima do limite. Na avaliação da presença de chumbo, as três espécies de raia (raia-santa, raia-pintada e raia-carimbada) ultrapassaram o limite da agência nacional. Se considerados, no entanto, os parâmetros da FAO – órgão das nações unidas para alimentação e agricultura – todas as amostras de tubarões também estão acima dos limites.

- Comparamos nossos limites da Anvisa com os da FAO e os da comunidade europeia. Para alguns metais a nossa legislação é mais restritiva, para outros não – explica a pesquisadora.

Cádmio
Cádmio
(Foto: )

Segundo ela, embora os índices estejam acima dos limites estabelecidos pelos órgãos reguladores, não chegam a indicar toxicidade. O nível de contaminação de quem consome o pescado vai depender do restante da alimentação. Mas faltam índices de tolerância para a população brasileira – a pesquisa teve que usar dados da população norte-americana.

Chumbo
Chumbo
(Foto: )

A longo prazo, a contaminação por metais pela alimentação traz risco de problemas cardiovasculares e hepáticos. O cádmio, que estava acima dos limites em duas amostras, é apontado como causador de câncer e problemas ósseos.

O cobre não tem limite de consumo estabelecido
O cobre não tem limite de consumo estabelecido
(Foto: )

Predadores expostos

A exposição dos elasmobrânquios aos metais pesados é uma consequência de seu reinado soberano – especialmente dos tubarões - no topo da cadeia alimentar. Os metais que vão parar no mar são, em grande parte, resquícios da atividade industrial em terra firme. Entram na cadeia alimentar por meio de pequenos animais filtradores, como os moluscos, e passam de espécie em espécie.

- Os tubarões são grandes acumuladores, os metais permanecem muito tempo no organismo. Os tubarões e raias que comem mais fungos, organismos de fundo, têm mais metais que os de meia-água – explica Kátia.

Demonstrar que o cação não é a opção mais saudável entre o pescado que se encontra nas peixarias é uma maneira de garantir a conservação de tubarões e raias. Das 169 espécies de elasmobrânquios presentes no Brasil, 58 estão ameaçadas de extinção. E por dois motivos: a destruição dos berçários, consequência da ocupação desordenada da orla, e a pesca excessiva.

Tubarão-mangona
Tubarão-mangona
(Foto: )

Baixo preço incentiva consumo

O cação passou a ser consumido no Brasil quando se proibiu o finning, que consiste no corte das barbatanas para exportação, sem aproveitamento da carne. O corpo do animal, sem condições de nadar, era devolvido vivo ao mar para morrer. Na mesma época, a carne de tubarões e raias passou a entrar no Brasil como commodity, integrando negociações de comércio exterior.

Sem espinhas, o peixe logo caiu no gosto do brasileiro e tornou-se uma opção acessível inclusive para a merenda escolar. O quilo chega a custar 60% menos do que o do atum, por exemplo.

Os peixes cartilaginosos são sensíveis à extinção porque, embora sejam grandes predadores, têm baixa fecundidade e maturação tardia. Isso significa que demoram muito para crescer e se desenvolver. Quando retirados em excesso do mar, em idade jovem, as populações não conseguem repor os estoques o suficiente para garantir a sobrevivência da espécie.

O Brasil é hoje um dos maiores consumidores de carne de cação no mundo.

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Dagmara Spautz

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O que acontece de mais relevante em boa parte do litoral catarinense, especialmente Itajaí e Balneário Camboriú. Fontes exclusivas e informações de credibilidade nas áreas de política, economia, cotidiano e segurança.

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