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Segunda temporada

Carcereiros: a tensão dentro e fora das grades

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Por Diogo Vargas
11/10/2018 - 10h14 - Atualizada em: 11/10/2018 - 15h51

Riscos de morte, cabeças a prêmio por facções criminosas, ameaças, medo de ser surpreendido com planos de fugas, tiros nas unidades e até retaliação a familiares.

Cenas à tona em "Carcereiros", da Rede Globo, cuja segunda temporada começa hoje (11) à noite. Adriano, o protagonista vivido por Rodrigo Lombardi, está habituado a situações de alta tensão. Na realidade, elas também existem para anônimos agentes penitenciários.

É assim o cotidiano de boa parte dos 2.991 servidores da área prisional em Santa Catarina. São 2.332 homens e 659 mulheres no quadro. Vigiam 20,1 mil presidiários. Há lugares de superlotação como a penitenciária da Capital, em área residencial do bairro Agronômica.

Ali estão mais de dois mil presidiários. A cadeia tem 88 anos, histórias de rebeliões, bandidos perigosos, fugas e mortes.

Hoje, há interdições judiciais, problemas estruturais e o crime organizado que deixam o trabalho prisional ainda mais exposto ao perigo. Houve melhorias significativas, mas ainda faltam servidores e cerca de quatro mil vagas a detentos.

Entre as grades, a rotina é de suor frio, palavras, regras, deveres, conselhos. Qualquer vacilo, como um ato impensado de revide a uma agressão, verbal ou física, pode custar a vida ou desencadear violência do lado de fora.

"Conselheiros"

Atrás das muralhas, carcereiros ouvidos pela reportagem na condição de anonimato demonstraram coincidências com o protagonista Adriano.

– É bem assim mesmo. A gente é psicólogo, enfermeiro, conselheiro. Talvez fosse mais real ainda comparado com antigamente. Antes das facções havia respeito dos presos. Hoje acabou. O silêncio ali, no dia a dia, é quase certo que algo poderá acontecer – ilustra um dos servidores.

O dia a dia é recheado de dilemas. Os detentos fazem pedidos a todo instante. Na maioria das cadeias catarinenses, o agente tem contato físico com o preso e anda desarmado – em algumas mais seguras é apenas visual. O funcionário operacional faz turno de 24 horas e tem espaço para descansar nem que seja em uma antiga cela transformada em quarto.

– É como se a gente puxasse cadeia também. Não pode ter medo, mas é impossível não ter. Tem três coisas que eu sempre digo que você pode falar ao preso: sim, não e logo te dou a resposta – conta um agente.

"Rambo"

Com o passar do tempo houve mudanças. Servidores mais novos em alguns momentos são mais duros, “mais Rambo”, compara o agente.

– O perigo é diário. A velha guarda ainda tenta amenizar, dizer “não faz isso, pensa bem”. É um desafio direto, permanente. Se mentir ao preso é a pior coisa – conta outro agente.

Antidepressivos ou calmantes fazem parte da rotina. Práticas de segurança pessoal em horários de folga são constantes, especialmente para resguardar familiares. Em casa, evitam comentar sobre o trabalho.

– Tirei até a película do carro. Assim, nenhum integrante da minha família corre o risco de ser confundido comigo – previne-se o agente.

Grupo de intervenção

Em 2017, o Estado criou o Grupo Tático de Intervenção (GTI) com 20 integrantes para agir em motins e rebeliões. O comando entendeu pela necessidade de uma equipe de prontidão.

Considerado barril de pólvora, o sistema penitenciário tem papel importante no contexto da segurança pública. O motivo é a ação das facções dentro e fora das cadeias. Em Santa Catarina, são monitoradas atualmente dez quadrilhas. Duas delas exercem predomínio sobre a massa carcerária: a de Santa Catarina e a de São Paulo.

Mortes traumáticas de agentes aconteceram, nos últimos anos. A maioria alvo de facções. Também há assassinatos em brigas entre detentos.

Alegria e disciplina

Embora o pavor da violência, há momentos de alegria, trabalho em oficinas, evangelização, disciplina, estudo. Um dos agentes entrevistados revelou ter sido abordado e reconhecido na rua por um ex-presidiário:

– Vi que um senhor me abordou, não lembrei quem era na hora. Então me disse que eu o havia ajudado há dez anos. Na época, o encontrei chorando na cela, perguntei o que tinha e falou de um familiar que estava muito mal e sem notícias dele. Lembro que telefonei atrás dos parentes e o tranquilizei na prisão avisando como ele estava.

Situação melhorou, mas muito a fazer

Servidores, sindicalistas e o governo são unânimes em reconhecer melhorias no sistema penitenciário catarinense em relação ao passado e a outros Estados. Novas unidades, contratações, viaturas, equipamentos, questões salariais.

Mas há reivindicações: ampliação do efetivo, novas vagas, fortalecimento da ressocialização, mais mecanismos de segurança, inteligência e integração.

Hoje, dos 20,1 mil detentos recolhidos, 6,2 mil trabalham em oficinas – 31% dos encarcerados. O índice já foi de 57%. A queda é atribuída à crise econômica.

“Vida real”

Agente penitenciário com 30 anos de profissão, o secretário da Justiça e Cidadania, Leandro Lima, avalia que há em "Carcereiros" cenas muito próximas da realidade. Algumas de ficção, naturalmente.

O chamamento “ladrão” usado na série pelos agentes quando se dirigem a um preso, por exemplo, seria uma linguagem criada pela exibição. Lima destaca a nova realidade da categoria e a expectativa de melhorias com novas vagas.

A série

Jogar luz ao sistema prisional a partir da história do agente penitenciário Adriano Araújo (Rodrigo Lombardi) é um dos enfoques de "Carcereiros".

Inspirada na obra do médico e escritor Drauzio Varella, mostra a vida de tensão e dilemas éticos da profissão no dia a dia de uma penitenciária. A rotina de ameaças e o lado familiar também são abordados.

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