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Entrevista

“Blumenau ainda não entendeu o Parque das Itoupavas”, diz arquiteto autor do projeto

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Por Evandro de Assis
22/04/2021 - 11h03 - Atualizada em: 25/04/2021 - 10h21
Krambeck diz que comunidade deve apropriar-se do espaço e decidir como ele deve ser usado
Krambeck diz que comunidade deve apropriar-se do espaço e decidir como ele deve ser usado (Foto: Patrick Rodrigues)

Um parque à beira de uma rodovia federal, complicado de acessar sem carro, situado numa área de Blumenau onde a água das enchentes chega primeiro. A obra, prevista para terminar em um ano, durou quase seis. O orçamento, de R$ 2,8 milhões, superou R$ 4 milhões. Desde a compra, por meio de permuta, do terreno que pertencia à família Kuhlmann até a inauguração em meio à pandemia de Covid-19, o Parque das Itoupavas nunca esteve livre de polêmicas. Criticar o espaço, o maior para lazer e esporte desde a reforma do Ramiro Ruediger, há 15 anos, virou mania local.

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No feriado de Tiradentes, porém, blumenauenses caminhavam e pedalavam no entorno da marquise de concreto que domina a paisagem alheios ao bate-boca. A cidade finalmente teria compreendido o Parque das Itoupavas?

— Acho que ainda não, é um processo. O parque inaugurou agora, faz uma semana. A principal forma de entender é usando. Quem vem aqui, traz seu filho, seu neto, vai querer voltar sempre — analisa o arquiteto Christian Krambeck.

Junto da sócia, Daniela Sarmento, e de quase uma dezena de profissionais, incluindo um escritório de Portugal, Krambeck é autor do projeto do parque. A equipe usou como referência estudo preliminar do celebrado arquiteto blumenauense Egon Belz. Desde a entrega do trabalho à prefeitura até a concretização da obra, Krambeck ouviu (e rebateu) críticas nas redes sociais. Na manhã de quarta (21), observou emocionado a população descobrindo as novidades da criação.

Marquise tem inspiração na estrutura projetada por Oscar Niemayer no Ibirapuera, em São Paulo
Marquise é inspirada na estrutura projetada por Oscar Niemayer em São Paulo
(Foto: )

A primeira e mais evidente diferença em relação ao Ramiro é a marquise elevada por pilares cilíndricos. Pensada para receber feirinhas e eventos culturais, a estrutura já é o ponto preferido do público, e o tempo instável do feriado ajudou a entender o porquê. Ao primeiro sinal de chuva, todo mundo correu para lá. Depois, a cobertura protegia do sol das onze horas. Os bancos convidam a observar o movimento, ler um livro ou simplesmente fazer nada.

Para o arquiteto, a marquise tem muito mais do que “função”. A ideia é que a comunidade aproprie-se dela.

— Não é tudo funcional na vida. Tem uma relação com a paisagem, com o ambiente. Como empoderar as pessoas e tirá-las um pouco do chão? Uma sociedade mais madura, com mais cultura, começa a criar atividades a partir do desenho do parque — deseja.

Inspirada na gigantesca marquise do Parque do Ibirapuera projetada por Oscar Niemayer, em São Paulo, a blumenauense tem um toque bem regional: a casinha enxaimel no patamar superior, que por enquanto abriga uma exposição simples sobre a nova área de lazer. O espaço foi pensado como café.

Outra característica do lugar é a relação com o verde. Passarelas e ciclovias passam à sombra da mata aos fundos, onde também existe uma cancha de bocha. Os jardins preenchem espaços entre o concreto que, vistos do alto da marquise, formam desenhos. É um cenário que provoca a curiosidade.

Jardins em linhas retas interagem com a marquise em curva
Jardins em linhas retas interagem com a marquise em curva
(Foto: )

Área alagável

Krambeck diz que, desde os estudos de Egon Belz, o desenho do parque considera a cota de enchente baixa. Quando o Itajaí-Açu subir o terreno será, sim, alagado, mas os danos previstos são mínimos dada a simplicidade das estruturas.

— Vários lugares do mundo trabalham parques urbanos nas áreas mais baixas. Quando alagar, dois ou três dias depois está lavado, não se perde nada, e as pessoas começam a usar de novo — garante.

Maior parte das estruturas resistirá a futuros alagamentos
Maior parte das estruturas resistirá a futuros alagamentos
(Foto: )

A proximidade com a BR-470 é um reconhecido fator limitador. O Parque das Itoupavas está rodeado por taludes gramados, que reduzem o campo de visão, e o acesso sem carro depende unicamente da Rua 1º de Janeiro. Não à toa, o estacionamento estava quase lotado.

Essa característica só será aliviada quando a prefeitura puser em prática o plano de ampliação do parque em direção ao Norte, que contempla pistas de skate, BMX e trilhas, entre outras atrações. Quando isso ocorrer, a área de lazer ficará maior que o Ramiro e haverá mais opções de acesso para pedestres e ciclistas. Por enquanto, o próximo passo previsto pelo município é o credenciamento de food trucks para atuar no local. O edital está disponível no site da prefeitura.

— Blumenau polemizou muito porque a gente tinha um parque urbano só, agora a gente tem o segundo. A Prainha está sendo reurbanizada, vão ter alguns outros espaços. O pessoal vai se acostumar que cada parque tem características diferentes, qualidades e defeitos — analisa o arquiteto.

Para quem gosta de parque, o Parque das Itoupavas é visita obrigatória. Para quem gosta de debate, lá tem muito assunto para iniciar novas conversas sobre a cidade.

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