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    Tempos de sinais trocados

    Na crise do coronavírus, quem culpa a população quer responsabilizar ninguém

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    Evandro
    Por Evandro de Assis
    25/06/2020 - 15h41 - Atualizada em: 25/06/2020 - 16h16
    Foto: Evandro de Assis
    Foto: Evandro de Assis

    Apontar culpados no meio de uma crise não costuma ser bom caminho a quem está interessado em encontrar soluções. Comportamento ainda menos produtivo é tentar diluir responsabilidades num coletivo intangível, como fazem autoridades municipais e estaduais após 100 dias de convivência dos catarinenses com o novo coronavírus.

    Se o mau comportamento da "população", ainda que suavizado quando reduzido a "uma minoria", acelerou a transmissão de Covid-19, nada se pode fazer. Afinal, ninguém seria capaz de mudar em meses o falho senso de comunidade constituído durante décadas. Assim, quem culpa todo mundo pela crise, no fundo, quer responsabilizar ninguém.

    À época em que ainda participava diariamente das lives sobre a pandemia, Carlos Moisés dizia, em tom solene, que cabia a "este governador" a responsabilidade de dosar o isolamento social. Dois meses e um escândalo dos respiradores depois, delegou-a aos prefeitos, mais suscetíveis a pressões locais.

    "Estes prefeitos", em sintonia com a reabertura iniciada pelo Estado, terminaram de dar ares de normalidade à vida cotidiana. Transmitiram orientações dúbias ao cidadão que já não suportava ouvir falar do corona. Como pregam até manuais de autoajuda, liderança se exerce com atitudes, e não palavras.

    Em tempos de sinais trocados, se shoppings recebem clientes, por que amigas afastadas há semanas não teriam o direito de se reunir para um café? Com ônibus circulando entre os municípios, quem teria receio de pegar o carro e dar um pulo na praia? Um churrasco com amigos no domingo não poderia ser mais perigoso que um templo cheio de fiéis. 

    O prefeito de Blumenau sofre exposição negativa nacional pelo impacto midiático da imagem deprimente do saxofonista no shopping, episódio em que nem sequer envolveu-se. Não foi Mário Hildebrandt quem liberou o shopping, muito menos quem contratou o músico. Agora, decisões da alçada dele também transmitem mensagens ambíguas sobre a pandemia.

    Quando limita o número de pessoas da mesma família no supermercado e proíbe idosos nos ônibus, a liderança municipal indica que a coisa é séria. Ao permitir a circulação de pessoas em ambientes fechados e incluir num pacote de restrições a ordem de encerrar o expediente de pizzarias às 23h, sinaliza que nem tanto.

    Mas quando faz reiterados apelos de ajuda à população, depois de 100 dias, soa como professor que perdeu o controle da turma indisciplinada.

    Responsabilizar o comportamento de cidadãos pela circulação acelerada do vírus equivale a dizer que pessoas morrem na BR-470 porque são imprudentes. Pode até ser verdade, mas pistas duplicadas com divisória entre os sentidos ajudam um bocado a resolver o problema.

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