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    História

    Os mistérios do nômade que espalhou relógios de sol por Santa Catarina

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    Por Evandro de Assis
    11/04/2021 - 07h00
    Félix Peyrallo Carbajal em 2004 na Furb, em Blumenau, onde construíu um quadrante solar
    Félix Peyrallo Carbajal em 2004 na Furb, em Blumenau, onde construíu um quadrante solar (Foto: Rogério Pires, Arquivo Furb)

    A história de um intelectual nômade que vagou por Santa Catarina construindo relógios de sol e alimentando a curiosidade geral por arte e conhecimento virou livro. Há 10 anos o historiador catarinense Ricardo Machado investiga os vestígios deixados por Félix Peyrallo Carbajal, uruguaio que se aproximou de alguns dos artistas latinos mais relevantes do século XX e cercou de mistérios a própria existência.

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    Carbajal morreu em 2005, em Blumenau, após perambular pelo mundo proferindo conferências sobre arte e poesia, mas também sobre matemática, astronomia e o que mais lhe pedissem para falar. Machado investigou a trajetória do misterioso personagem para o doutorado em História, concluído em 2016. Mas não parou de pesquisar desde então e, no dia 29 de abril, lançará “Félix: uma vida nômade poética pelas Américas”, pela Editora Humana, de Chapecó.

    O historiador, professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), mas que cresceu em Blumenau e chegou a cruzar com Carbajal na biblioteca da Furb, seguiu os passos do nômade por países da América do Sul, além de México e Cuba, juntando documentos e relatos esparsos, como cartas, certidões oficiais, publicações em jornais e até dossiês da ditadura militar brasileira sobre o sujeito estranho, suspeito de divulgar ideias subversivas. Descobriu crônicas de Manuel Bandeira e Eduardo Galeano sobre Carbajal, uma relação íntima com a poeta cubana Carilda Oliver Labra e uma amizade com o escritor espanhol Pedro Garfias. Em relatos, o uruguaio mencionou encontros com Frida Kahlo, Diego Rivera e Pablo Neruda, entre outros.

    — Parecia uma história surpreendente demais para ser verdadeira. Era como se a grandiosidade da vida dele estivesse associada a essas pessoas que se tornaram cânones nas artes em geral — recorda.

    Machado precisou desvendar incertezas até sobre dados biográficos elementares, como data de nascimento e o nome da mãe do intelectual. Não raro Carbajal misturava a própria história com a de escritores que lia.

    Embora originado na academia, o trabalho é acessível e interessante ao público em geral. Aborda as contradições de um intelectual que não deixou obra aparente, tangível, que abriu mão de uma vida confortável em nome da liberdade de viajar e estudar, que convivia com artistas e professores, mas também mendigava para sobreviver. 

    As marcas mais aparentes de suas passagens por Santa Catarina são quadrantes solares projetados por ele em municípios como Blumenau, Gaspar, Balneário Piçarras, Balneário Camboriú, Itajaí, Araranguá e Palhoça. Carbajal dizia ter deixado espalhados pela América quase duas centenas deles.

    Carbajal diante do quadrante solar que projetou em Palhoça
    Carbajal diante do quadrante solar que projetou em Palhoça
    (Foto: )

    — Mesmo os nômades deixam vestígios. No caso do Félix, são vestígios muito fragmentados e que se contradizem, inclusive. É difícil dizer exatamente o que ele foi — observa o autor.

    Félix Pellayo Carbajal viveu os últimos anos na Casa São Simeão, em Blumenau. Os restos mortais dele estão depositados em Lages, onde vivem amigos. O homem mudou de endereço até depois da última partida.

    Livro

    O livro "Félix: uma vida nômade poética pelas Américas" está disponível para pré-venda online a R$ 69,90.

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