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    Crônica

    Do que minhas filhas lembrarão?

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    Marcos
    Por Marcos Piangers
    10/04/2020 - 07h00 - Atualizada em: 10/04/2020 - 13h39
    Foto: Instagram, reprodução
    Foto: Instagram, reprodução

    Lembrarei destes dias como se fossem um sonho longo, como se a vida estivesse em suspenso por meses. Não há escola, nem barulho de avião, não há nenhum plano de aventuras em família. Nossa aventura é ir ao mercado. Os bares estão todos fechados e sinto falta dos amigos. Vou lembrar dessa época como se estivéssemos todos em um daqueles filmes de suspense, mas o suspense demora meses e compartilhamos um luto antecipado, uma espécie de medo de perder alguém, ou perder dinheiro ou o emprego, ou do caos e do desconhecido. Tenho um luto de algo que ainda não sei o que é, algo que perdemos ou esperamos perder em breve. Talvez, a vida como conhecíamos.

    Desses dias domiciliares, do que minhas filhas lembrarão? Aurora lembrará que disputava conosco quem acordava primeiro? Lembrará que gritava “Papai?” às 6h para ouvir de volta: “Oi, Aurora. Tá muito cedo. Dorme mais um pouco”? Lembrará que voltava a dormir e ficava chateada conosco se levantássemos às 8h sem avisá-la? Lembrará que todas as manhãs ela me pedia para levá-la nas costas até a cozinha, para o café da manhã? Lembrará que todos os dias comia dois pães, um com manteiga e outro com geleia? Que todos os dias pedia suco e todos os dias achava azedo? Terá algum conforto ao sentir o cheiro de café que eu e a mamãe tomamos? Sentirá falta de estar conosco todos os dias, o dia todo? Saberá que tínhamos sorte?

    Tenho um luto de algo que ainda não sei o que é, algo que perdemos ou esperamos perder em breve. Talvez, a vida como conhecíamos.

    Anita lembrará que fez 15 anos durante a quarentena? Que o encontro com as amigas foi cancelado? Lembrará que comprei no supermercado dois balões daqueles gigantes com o número 1 e o número 5 e que ela achou aquilo muito brega e pediu para tirar da parede, do contrário, não aceitaria o “Parabéns pra você”? Lembrará que, respeitando a adolescência dela, permitíamos que dormisse até perto do meio-dia? Que ela acordava de bom humor e nos abraçava demoradamente? Lembrará das espinhas que lhe apareceram pela primeira vez durante a reclusão? Lembrará dos cookies, que tem feito uma vez por semana, e das pequenas travessuras de me oferecer cookies salgados? Lembrará da risada que ela e a irmã deram ao ver meu semblante se desfigurar com o sabor inesperado? Lembrará que esta semana me deu um cookie recheado de wasabi e eu, novamente, caí na traquinagem?

    Do que lembrarão nossos filhos, quando recordarem desses meses presos em casa? Da nossa presença constante? De como nos reapaixonamos uns pelos outros? De como criamos novos rituais, nossas pequenas tradições? De como dormíamos juntos depois de um filme assustador. Das receitas que aprendemos a cozinhar juntos. De andar de skate no corredor do apartamento. Da cobrança constante de lavar as mãos. De como éramos sortudos de ter uns aos outros. E de como, unidos no aconchego da nossa casa que descobrimos amar, tínhamos a impressão de estar salvando o mundo.

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