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    “Foi estranho comer a geleia de morango nos dias seguintes ao velório de vovó”

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    Marcos
    Por Marcos Piangers
    03/07/2020 - 17h38 - Atualizada em: 04/07/2020 - 15h42
    Sinto que, de alguma forma, este era o nosso doce, uma pequena declaração de amor dela por mim.
    Sinto que, de alguma forma, este era o nosso doce, uma pequena declaração de amor dela por mim. (Foto: Pexels, banco de imagens)

    No dia em que minha avó morreu, tinha me dado uma geléia de morango logo cedo. Eu não gostava dos outros doces que a minha vó fazia, por causa das raspas de limão. Odeio limão. Odeio chocolate com menta. É como pegar a melhor coisa do mundo, chocolate, e colocar pasta de dente. Menta estraga tudo. Assim como raspas de casca de limão.

    Em todos as tortas e bolos, e em alguns mouses que minha vó fazia em feriados especiais, ela colocava raspas de casca de limão. Meus primos adoravam e provavelmente nem sentiam o limão, dada a rapidez com que enfiavam os pedaços do doce na boca. Eu apenas observava. 

    Odeio que minha avó tenha, por tantos anos, colocado raspas de limão em todos seus potencialmente deliciosos doces, mas agradeço que ela tenha me dado um pote de geléia de morango no seu último dia de vida. Era o único doce que ela fazia que agradava meu paladar. Sinto que, de alguma forma, este era o nosso doce, uma pequena declaração de amor dela por mim. Um doce sem raspas de limão.

    Foi estranho comer a geléia de morango nos dias seguintes ao velório de vovó. Fomos ao velório e ao enterro, e na mesma noite abri a geladeira. Ali estava o pote que ela tinha me dado, cheio de geléia de morango, feita um dia antes na panela amassada que ela usava para fazer geléia. Um dia antes, ela havia enchido aquele pote com a gosma vermelha e cheirosa. Um dia depois, puf. Morta.

     Era o único doce que ela fazia que agradava meu paladar.

    A geléia de morango que minha vó me deu no seu último dia de vida ficou alguns dias descansando na geladeira. Tratei-a como se fosse um fantasma. Abria a geladeira e encarava-a, como se ela fosse me falar algo. “Já pro banho!” ou “Come mais macarrão!” ou qualquer das frases que a minha avó falava. “Não pise nas minhas plantas!” ou “Você que vai limpar essa parede!”.

    Foi pelo terceiro dia, depois da morte da vovó, que eu estava sentado na mesa da cozinha e minha mãe abriu a geladeira e pegou a geléia. Catou uma colher na gaveta e pimba, colocou uma colherada pra dentro. “Hum, essa tá boa”, ela disse. Eu a olhei aflito. Primeiro, fiquei assustado, achando que ela poderia cair ali mesmo, morta na minha frente, por comer comida de morto. Depois, me deu uma raiva. “Displicente!”, pensei. Fiquei com raiva da minha mãe por uma semana. Durante aquela semana ele comeu quase toda a geléia.

    Lá pelo sexto dia, quando percebi que minha mãe iria devorar todo o último presente da minha vó, decidi que eu mesmo iria roubar o pote, levar pro meu quarto e comer as últimas colheradas do doce. Coloquei a vovó em cima da bancada. Agradeci solenemente o presente que ela tinha me dado. Agradeci por ela ter me ensinado a mexer com as árvores do quintal. Por ela ter me mostrado os álbuns do casamento dela e do vovô. Por ela ter cuidado de mim quando meus pais tinham que ficar trabalhando até tarde. Por ela ter me levado pra passear de ônibus pela primeira vez. Por ela ter me ensinado a fazer pipoca. “Obrigado, vovó”, eu disse. “Amo você”.

    Fiquei com raiva da minha mãe por uma semana. Durante aquela semana ele comeu quase toda a geléia.

    E enchi a boca com a última colherada da deliciosa geléia de morango da vovó. Era suave e viscosa, doce na medida certa. E o quarto se encheu do cheiro de morango. E nenhum cheiro de limão.

    Leia mais crônicas de Marcos Piangers.

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