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Crônica

Manhã de domingo

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Marcos
Por Marcos Piangers
03/11/2019 - 08h00 - Atualizada em: 03/11/2019 - 09h05
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Domingo de manhã a gente acorda com os passarinhos e o cheiro de folha molhada. A janela ficou aberta pra entrar um ventinho. Eu acordo primeiro. Meu movimento desperta minhas filhas. A mais velha quer tomar café comigo. A mais nova quer dormir um pouco mais. Quero saber se existem palavras para definir as coisas bonitas que a gente vive. Uma palavra para definir a sensação de acordar com os filhos depois de alguns dias de saudade. Uma palavra que resuma o sol que acorda gentilmente. Uma palavra pra explicar a conversa dos pássaros no domingo de manhã.

Os japoneses têm uma palavra para definir a luz do sol filtrada pelas folhas das árvores: Komorebi. Coloco pães na chapa, minha filha mais velha ainda está sonolenta. O cheiro de café pela manhã, preciso de uma palavra que o defina. Comemos frutas e planejamos um domingo cheio de nada, cheio de calma, cheio de tempo. Ailyak, do búlgaro, é a arte de fazer tudo lentamente e sem pressa, aproveitando o processo e a vida em geral. A mais nova acorda, senta no meu colo enquanto como. Farelos de pão caem em nossos pijamas. Uma palavra que explique a alegria de tomar café da manhã com os filhos.

A ideia era andar de bicicleta, mas choveu. Deitamos no sofá, lendo livros. Quando a chuva parou sentimos o “petrichor” – do grego, o aroma agradável e terroso que acompanha a primeira chuva após um longo período de seca. Saudade, dizem, só existe em português. Acho que “dengo” também. Faço um brasileiríssimo “cafuné” nas minhas filhas. Acaricio com a ponta dos dedos seus cocurutos. Almoçamos a janta de ontem, esquentada no microondas. Uma palavra que explique quando a comida requentada fica mais gostosa do que quando acabou de ser feita.

Os japoneses chamam a busca pela beleza nas imperfeições da vida e na aceitação pacífica do ciclo natural de crescimento e declínio de Wabi Sabi. A vida não é perfeita, mas quase. Quase perfeita quando estamos juntos de quem realmente amamos. Quase perfeita em domingos calmos em que nada pode nos tirar o sossego. Uma palavra que explique não ter nada para fazer. Uma palavra para o preenchimento de satisfação do primeiro abraço do dia, ainda sonolento. Uma palavra que defina a alegria de estar vendo lentamente as filhas crescendo felizes. Inventem uma palavra. Enquanto não inventam, chamo de amor.

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