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    Pais e filhos

    Não acho graça de quem não quer educar os filhos

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    Marcos
    Por Marcos Piangers
    30/05/2020 - 07h00
    Foto: Pexels, banco de imagem
    Foto: Pexels, banco de imagem

    O áudio chega com um emoji de risada. “Mais um pai estressado”, alguém escreve. É mais um áudio de uma mãe, ou um pai, falando que não aguenta mais ter filho. “Não aguento mais aula online”, “não suporto mais brincar com meu filho”, “não quero mais estudar com criança!”, “não aturo mais dar comida pra criança”. 

    Lembro de um áudio de uma mãe que descobriu que os filhos comiam demais. “Eles parecem uma draga!”, ela diz. Outro da mãe que não suportava mais ouvir os filhos gritarem “mãe!”. Outro do pai que tinha rodado três vezes na quarta série: “Quando eu era criança odiava escola. Agora, tenho que estudar tudo de novo? Eu não! Já passei dessa fase”, diz o homem. Todos os áudios chegam com uma risada, as pessoas do grupo acham graça. 

    Eu, que acho graça de tanta coisa, não consigo rir. Amo vídeos fofos de crianças, bebês, filhos falando ou fazendo coisas bonitas e surpreendentes. Só não consigo achar graça de pai que sacaneia filho. Aqueles vídeos de pais que jogam o bolo de aniversário na cara da criança, sabe? Ou as mães xingando os filhos. Me dá uma dor quando vejo isso e não consigo achar graça. 

    Estou me abrindo aqui com você: é simplesmente o que eu sinto, não uma cobrança para que todo pai ame a paternidade o tempo todo. Acredito que ninguém está feliz o tempo todo com os filhos e que essa época de quarentena é ainda mais estressante. Contudo, acredito que nossos sentimentos são sinais de alerta para melhorar o que está quebrado. Acho que é papel dos pais respirar fundo, exercitar a calma, entender as crianças, formá-las. 

    Eu, que acho graça de tanta coisa, não consigo rir. Amo vídeos fofos de crianças, bebês, filhos falando ou fazendo coisas bonitas e surpreendentes. Só não consigo achar graça de pai que sacaneia filho.

    Entendo a necessidade de alivio cômico no dia a dia (adoro a fantástica capacidade do brasileiro de fazer graça nesse momento de caos na saúde e na economia), mas não acho graça de pai cansado de ser pai. De saco cheio de educar os filhos. Descobrindo que o filho é chato. Nesses momentos, é hora de conversar e acertar os ponteiros. Não gravar áudio pra mandar pros amigos.

    Talvez eu seja mesmo um chato e, para muita gente, esses desabafos aliviam o peso da vida em família no confinamento. Porém, esse tipo de declaração também legitima o descaso. Empodera o pai relapso. Incentiva outros pais a fazerem o mesmo. Valida a terceirização da educação (e coitadas das professoras). Se a gente não consegue educar nosso filho único, ou nossos dois ou três filhos, coitados dos professores que têm que educar trinta, quarenta alunos todos os dias. E com a cobrança dos diretores da escola e dos pais. Se o confinamento é mesmo essa tortura toda, imagine para os educadores que passam de segunda a sexta com nossos filhos. E para os que dizem “o problema é deles!”, eles que escolheram ser professores, penso em nós mesmos, que escolhemos ser pais. 

    Leia mais crônicas de Piangers.

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