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Superando a pandemia

Coisas ruins não são o que de pior pode nos acontecer

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Mário
Por Mário Motta
18/10/2020 - 14h13 - Atualizada em: 18/10/2020 - 18h02
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(Foto: dreamstime)

Volto das férias, segue a pandemia e com ela o isolamento.

Em casa, desde 20 de março, só saio por estrita necessidade, entendendo estar contribuindo para diminuir a possibilidade de transmissão e contágio, preservando a minha saúde e vida e a do próximo.

Confesso que, a cada minuto, busco encontrar novas razões e referências para continuar firme e esperançando (gerúndio do verbo esperançar).

Mas a cada dia, semana ou mês, está mais difícil.

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Tenho buscado reforço para meu alicerce nos livros.

Tenho lido muito e encontrado em histórias de vida, razões para tentar compreender o que levou a humanidade a vivenciar tal penitência de quase um ano. Conseguiremos encontrar razões para tal? Será que tudo isso vai nos ajudar a melhorar como seres humanos? São perguntas, cujas respostas só conseguiremos dar depois que a engrenagem social retomar seu giro sem obstáculos, como os que estamos enfrentando.

Senta que lá vem história: Passa Dunque...

Entre as várias histórias que tomei conhecimento, resgato parte dessa escrita por Dominique Nunes, que li na Pi – Primeira Impressão (Revista do curso de jornalismo da Unisinos do RS) e que me marcou profundamente:

O antônimo de Aparecida

Onde andará dona Beatriz?
Onde andará Dona Beatriz?
(Foto: )

Em 1950, ainda namorados, Delmar Winck e Beatriz Joanna Winck só saíam acompanhados da mãe da moça, mesmo que fosse apenas para ir ao cinema. Com o casamento, em maio de 1956, o casal ganhou a liberdade dos passeios que tanto desejava realizar junto. Em mais de 50 anos de união, saíram de Portão, Rio Grande do Sul, para visitar os mais variados locais, até que, em 21 de outubro de 2012, o roteiro de suas vidas mudou por completo.

“Essa data fatídica aí”, se refere o aposentado de 85 anos ao lembrar da viagem onde viu sua esposa desaparecer e não ser encontrada até hoje. A programação era simples: visitar algumas cidades pontuais, com destino final em Poços de Caldas, Minas Gerais. Entretanto, em uma das paradas, em Aparecida, cidade religiosa em São Paulo, Delmar perdeu Beatriz de vista por segundos suficientes para que o mistério de seu desaparecimento o envolvesse até hoje.

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Assistido com comoção e atenção por uma das filhas, Flávia Helena Winck, o senhor de olhos marejados por trás dos óculos lembra seus últimos momentos com Beatriz, em uma loja do Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. “A fila estava grande, tinha escolhido algumas coisas, quando ela me disse que esperaria eu pagar ali na porta. Aquilo lá está sempre lotado, a fila era enorme, então, quando chegou a minha vez, olhei e ainda a vi me esperando de braços cruzados. Fiz o pagamento com o meu cartão, peguei a sacola e, quando saí da fila, ela já não estava mais lá”, conta.

Com ar de inconformação, o aposentado ressalta que a esposa nem mesmo se dirijia ao banheiro sem o avisar, principalmente em viagens em grupos. “Eu fui onde ela deveria estar me esperando, mas não estava lá. Então fui ao hotel, ao santuário, ao nosso ônibus e no ponto de encontro procurá-la. Anunciaram no alto falante o nome dela duas ou três vezes e nada. Fiz correndo o trajeto pela cidade que chegou a me dar bolhas na sola dos pés”, descreve.

Delmar relembra o diálogo com os funcionários do hotel, ao afirmarem que a sua esposa não havia ido para o quarto. Segundo o aposentado, foi nesse momento em que de fato começou a se preocupar com o que teria ocorrido. A partir de então, as buscas por Beatriz nunca mais cessaram.

A filha, emocionada, diz: “Desculpa, mas agora eu vou ter que chorar. Quando o pai ligou pensei que a mãe tivesse falecido, mas quando a gente soube que ela tinha desaparecido, foi pior”, disse entre lágrimas.

Até hoje ela não foi localizada.

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Essa frase: “Quando o pai ligou pensei que a mãe tivesse falecido, mas quando a gente soube que ela tinha desaparecido, foi pior” confirma o título da coluna de hoje. Coisas ruins não são o que de pior pode nos acontecer. Nessa história verídica, em que Dona Beatriz desapareceu em 2012 e ainda não foi localizada, a pergunta que resta é: o que seria pior?

Coisas ruins são constantes em nossas vidas, mas desde outubro de 2012, sabe o que essa família vê acontecer em relação a mãe desaparecida?

Nada, absolutamente nada.

Amanhece, finda o dia e nada. Nenhuma informação. Onde andará Dona Beatriz? Ela já vinha sofrendo de episódios de perda da memória e pode ter entrado em um ônibus que a levou para outros pontos do país, quem sabe esteja na casa de alguma família bondosa que a acolheu, ou em algum asilo para onde fora encaminhada, ou esteja nas ruas de uma cidade grande... Mas, o que pode ser dito com segurança e certeza sobre ela? Nada.

A morte é uma certeza.

O desaparecimento é um “nada”.

E até que ele se transforme num reencontro, ou na confirmação da partida definitiva, o sofrimento do nada é muito pior do que o a certeza da morte.

Portanto, “Coisas ruins não são o que de pior pode nos acontecer... O que de pior pode nos acontecer em vida é... nada!”.

Mário Motta

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Informação de relevância e opinião sobre o que acontece na Grande Florianópolis com todo o carisma e credibilidade de Mário Motta.

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