Enquanto permaneço em casa guardando ainda voluntariamente um tempo de confinamento e só saindo por absoluta necessidade, tenho lido muito e quase tudo que os sites e alguns livros me proporcionam.

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Recebo pelas redes sociais inúmeros conselhos, alertas, sugestões e críticas em texto, áudio e vídeo. Chego a outros conteúdos por entender que só assim, compreendendo o que está se passando conseguiremos nos colocarmos no lugar do outro, não só fisicamente, mas em alma e sentimento. Afinal, estamos vivendo mais do que nunca, um tempo de empatia.

Nessas “andanças” pela grande rede, cheguei a um site português chamado Observador.pt e dentre os inúmeros artigos que ele me proporcionou, um pequeno manual resumiu em dez tópicos, o que eu gostaria de ter escrito, dito ou dividido com vocês, meus leitores, ouvintes ou telespectadores nesse momento.

Ruth Manus
Ruth Manus (Foto: Observador.pt)

A autora é uma jovem chamada Ruth Manus. Nascida em São Paulo, é advogada, professora universitária e escritora. Casada com um português, vive em Lisboa desde 2015. Viveu em Paris e em Roma, onde cursou pós-graduação em Direito Sindical. Em Portugal, fez uma pós-graduação em Direito Europeu e agora é doutoranda em Direito Internacional, ambos na Clássica. Escreve artigos para o Estadão desde 2014 e para o Observador.pt desde 2016. Apaixonada por Portugal e pelo Brasil desde sempre, tem dois livros de crônicas já publicados no Brasil. Feito o registro com o devido e respeitoso crédito, divido com vocês o que a Ruth, sem saber, me deu de presente.

Pequeno manual para não ser um idiota em tempos de coronavírus

Pense que há pessoas colocando a vida em risco em nome do nosso bem-estar. E se você não for capaz de relativizar suas vontades mesmo assim, saiba que você é um raio de um egoísta.
Já não dá para negar. As coisas estão complicadas. Está difícil em Portugal e também está começando a complicar no Brasil. Surtar não adianta. Mas fingir que nada está acontecendo também não. Viver em sociedade nos traz muitos ganhos, mas, ao mesmo tempo, requer, por vezes, alguns sacrifícios.

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Por isso mesmo, talvez esse pequeno manual possa ser útil. Vamos lá.

1. Não seja um dos “machões do coronavírus”. Não diga que todo mundo está louco e que você é o grande sensato-corajoso-que-não-tem-medo-de-nada, que nunca usará máscaras e que, se pudesse, estaria agora em Milão comendo uma carbonara. Não minimize a gravidade de situação. Respeite esse momento delicado.

2. Não surte. Não se torne monotemático. Não passe horas e horas atrás de notícias, jornais, desgraças. Se mantenha informado na medida do necessário. Mas não se torture, não crie seu próprio pânico, nem crie pânico nos que te cercam.

3. Não seja egoísta. Não esvazie prateleiras de supermercado. Não ache que a sua família importa mais do que as outras. Pense que há mais crianças, mais idosos, mais pessoas doentes. Pare de olhar apenas para o seu próprio umbigo. Todos temos bom senso, mas nem todos fazem uso dele.

4. Não seja um fanfarrão. Se suas aulas ou trabalho foram suspensos, não encare isso como férias. Não lote praias, transportes, shopping centers, festas. Entenda que quando você se coloca em risco, você coloca todo mundo em risco.

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5. Aceite que vai ser uma fase difícil. Ninguém gosta de mudar os planos, de ficar fechado em casa, de cancelar viagens, de perder dias de sol na praia. Tem que ser uma fase de sacrifícios de todos em nome do bem coletivo. Nem sempre a vida é como a gente queria que fosse.

6. Não repasse informação questionável. Avalie os conteúdos. Quem escreveu aquilo? Tem certeza? É uma fonte segura? Não faz muito sentido acreditar que o chá de cidreira, erva doce ou menta resolve todo o problema. Basta pensar um pouquinho. Confie nas informações dos ministérios, das OMS, dos jornais sérios, não em qualquer bobagem que chega via Whatsapp.

7. Não crie pânico nas crianças. Elas são sensíveis e têm tanto medo quando a gente (ou mais). Diga as coisas de forma leve, porém eficaz. Ensine-os a lavarem bem as mãos e a se protegerem, mas não use o vírus como ameaça. Poupe os pequenos, sempre que possível.

8. Entenda que suas atitudes refletem na vida dos outros. No Direito, há um princípio chamado “supremacia do interesse público sobre o privado”. Nesse momento, o coletivo importa mais do que o individual. Suas vontades têm que estar em segundo plano. Se você ficar doente, você representará um custo ao Estado, você ocupará um leito de hospital, você poderá contaminar outras pessoas. Não se trata de “ah, se eu pegar a doença tudo bem, sou saudável, não devo morrer”. A coisa vai muito além de você.

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9. Pense nos médicos, nos enfermeiros, nos profissionais da área da saúde. Você não acha que eles preferiam estar em casa, em vez de se sujeitarem aos riscos de contaminação? Antes de decidir ir ao estádio, às discotecas, às igrejas ou a qualquer local de risco desnecessário, lembre-se deles. Pense que há pessoas colocando a vida em risco em nome do nosso bem-estar. E se você não for capaz de relativizar suas vontades mesmo assim, saiba que você é um raio de um egoísta.

10. Dê suporte aos outros. Ligue aos seus amigos. Pergunte se sua vizinha idosa precisa de algo. Sugira alterações nas rotinas dos seus pais e avós. Obedeça às diretrizes. Lave as mãos direito e com frequência. Cubra a boca para tossir. Evite aglomerações. Faça alguns sacrifícios. Demonstre seu afeto com a sua generosidade e não com seus beijos e abraços. Respeite o outro. Não pode ser tão difícil assim. Se não formos completos idiotas, talvez dê tudo certo.

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