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    Viajando com as palavras

    Senta que lá vem história: profissão mascate

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    Mário
    Por Mário Motta
    02/08/2020 - 08h35 - Atualizada em: 02/08/2020 - 16h01
    Quando as palavras nos levam longe... (Reprodução)
    Quando as palavras nos levam longe... (Reprodução)

    Muitas histórias estão passeando em minha mente durante esse período de isolamento e me permitindo passear por elas voltando no tempo e no espaço como poucas vezes me pareceu possível.

    A história de hoje pode até parecer ficção, mas meus pais juram que aconteceu mesmo. Com outros nomes e certamente em outros locais. O fato é que, por mais engraçada que possa parecer, essa história é muito verosímil...

    PROFISSÃO MASCATE

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    (Foto: )

    Assim ele criou oito filhos e conheceu pelo menos cinco estados brasileiros.

    Hoje, Salim talvez viesse a ser chamado de Representante Comercial e até quem sabe Microempresário Individual. Mas naquela época sem estradas, sem internet com sites de venda em “delivery”, com dificuldades de locomoção, era “mascate” mesmo.

    E o chamavam sem nenhum tom pejorativo (diferente da mesma alcunha dada por brasileiros que habitavam Olinda, aos portugueses do Recife em 1710 e que motivou a Guerra dos Mascates entre as duas facções).

    E quase tudo o que o mascate Salim vendia era à “pronta entrega”.

    Chegava cansado da viagem, mas sorridente.

    Mostrava, vendia, entregava, recebia e partia com a mesma alegria da chegada, prometendo voltar no mês seguinte. Trazia sempre as últimas novidades da cidade grande. Os últimos lançamentos em tecidos, sapatos e os primeiros eletrodomésticos que os homens estavam inventando lá pelos “States”.

    Porém, a energia elétrica ainda não havia chegado na maior parte da zona rural por onde ele andava; as lamparinas (aqui chamamos “pombocas”) quebravam a escuridão e por ali só o “cricrilar” dos grilos e o “coaxar” dos sapos lembravam a todos que a noite chegara.

    ***

    E lá se vai o Salim pelas estradas do interior desse mundão de meu Deus.

    Na bagagem a novidade eletrônica do momento, um tal de rádio.

    O invento - uma grande caixa falante – veio dentro de outra caixa enorme e deu muito trabalho ao Salim.

    Mas como era uma encomenda especial, não podia deixar de trazê-la.

    O autor do pedido - Coronel Cipriano - era homem de não regatear preço. Quis porque quis o tal de Rádio. Afinal, se o Coronel Bentão já tinha um na fazenda vizinha, ele não podia ficar para trás.

    Novidade entregue, baterias conectadas, rádio ligado para o espanto de todos (“Tem alguém aí dentro?), dinheiro na mão, lá se vai o mascate Salim rumo ao início de uma estrada quase sem fim.

    ***

    Cai a tarde e uma festa sonora em torno da janela do casarão da Fazenda do Coronel Cipriano. E foi ali que ele acostumou colocar o aparelho prá todo mundo ouvir as notícias do Repórter Esso, as chorosas novelas oferecidas pelo Creme Rugol e principalmente os programas sertanejos das Rádios Nacional, Bandeirantes, Tupi, Pan-americana e Mayrink Veiga.

    No fim da tarde, os peões terminavam a lida, vinham para a frente do casarão e à luz do luar o som dos cantores e cantoras do rádio emocionavam os velhos e os jovens.

    O rádio era ligado naquelas “pilhas” grandes, quadradas e amarelas com os fios conectados em duas borboletas metálicas afixadas na parte superior da pilha, tal qual conectamos hoje os cabos das baterias em nossos carros. E assim foi um mês e meio de festa, sonoridade e alegria, mas é evidente que um dia as baterias precisaram ser recarregadas.

    E o Salim tão logo chegou, recebeu a incumbência da recarga diretamente da boca do próprio Coronel Cipriano, que aliou seriedade com ignorância:

    :- Escuita aqui mascate Salim: vou te dar uma boa gorjeta, mas quero que “ocê” capriche na recarga das bateria do rádio. Eu e principalmente meus peões queremos que “ocê” recarregue com bastante moda de viola. Principalmente do Tonico e Tinoco, “tá bão”?

    ????!!!!!???!!

    Então tá...

    Assim, guardando o riso e devidamente “instruído” sobre “como e com o quê recarregar as baterias”, lá se vai o mascate Salim rumo ao início de uma estrada quase sem fim... ..............

    Mascate: S.m. Bras. 1. Mercador ambulante que percorre as ruas e estradas a vender objetos manufaturados, tecidos, jóias, rádios, etc. (e é óbvio: baterias de rádio, “carregadinhas com modas de viola”, também). Origem :- “Mascate”, cidade da Arábia de onde vieram comerciantes Árabes para o Brasil no século XVII. Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa Folha/Aurélio. Pag. 420. Editora Nova Fronteira, RJ.

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