Gosto muito do fim do ano.

Embora sinta algo semelhante a uma melancolia relativamente inexplicável, reconheço o período natalino como um momento em que as pessoas deixam florescer a bondade, a solidariedade, quase sempre de mãos dadas com a esperança, abençoadas pelo nascimento do Menino Jesus e pela misteriosa renovação de nossa energia. Hora dos planos para o ano que está chegando.

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Segundo Roberto Pompeu de Toledo: “Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante tudo vai ser diferente”.

Gosto muito desse texto/poema e adiciono ao período, lembranças maravilhosas de episódios que vivenciei em minha vida profissional desde a infância no Circo de meus pais, passando por Tupã, no interior Paulista, até a chegada a Santa Catarina.

Em Florianópolis, em 1988 -e depois- em 1991, lembro-me das grandes Festas da chegada do Papai Noel que realizamos no Estádio Orlando Scarpelli, com Os Trapalhões (Didi, Dedé, Mussum e Zacarias, no auge de suas carreiras), Xuxa (Papai Noel chegando de helicóptero) e as Paquitas. Inesquecível aquela linda tarde de sol, música, com as arquibancadas completamente tomadas por crianças e seus familiares.

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Em 1994, transporto-me para a Praça Nereu Ramos, centro de Criciúma. Um enorme palco montado ao lado da porta lateral da Catedral São José, santuário que serviu de camarim para a troca de roupas das atrações da chegada do Papai Noel daquele ano. Ao meu lado Antônio Cabrera, diretor de Eventos e Marketing do então Grupo RBS em SC, e como atração principal a jovem cantora Patrícia Max. Como não havia outra festividade programada, foi como se toda a população de Criciúma e das cidades vizinhas (Içara, Cocal do Sul, Forquilhinha…) estivesse presente no centro da cidade, lotando as ruas que terminavam na Praça (Coronel Pedro Benedet, Rui Barbosa, Marcos Rovaris, Getúlio Vargas, e outras). O centro da cidade ficou superlotado e tivemos que suspender o show por algum tempo, para que a segurança garantisse a organização e pedir para que as pessoas se afastassem da frente do palco para evitar que as crianças fossem sufocadas junto ao alambrado. Sem exagero, mas uma catástrofe poderia ocorrer.

Já em 1996, tive o privilégio de apresentar pela primeira vez em SC, a Família Lima. Era o Natal das Luzes, na cidade de Lages. Uma festa maravilhosa, realizada em um palco montado na Praça Getúlio Vargas, no espaço existente entre a maravilhosa Catedral de pedra e a Prefeitura do município, um prédio igualmente histórico, que fica ao lado da porta principal da Igreja.

Próximo às 20 horas, a “Hora da Chegada do Papai Noel lageano”, os músicos preparavam o ambiente executando Carmina Burana, enquanto o apresentador (eu mesmo) buscava toda a inspiração do mundo para levar ao delírio crianças e adultos, clamando pela chegada do Velhinho de vermelho e seu saco de presentes, o querido Noel.

E de onde ele viria? Que surpresa estava reservada para esse ano? Em anos anteriores, chegou de charrete, num Carro de Boi, num velho pé-de-bode/, de calhambeque…mas em 96, seria diferente: ele surgiria dos céus e, voando, chegaria à varanda do andar superior da Prefeitura Municipal.

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Família Lima - um grupo musical quase catarinense.
Família Lima – um grupo musical quase catarinense. (Foto: Arquivo PML.)

De uma das torres da Catedral, foi afixado um cabo de aço até uma das janelas da varanda do andar superior da Prefeitura e por ali, no ápice da Festa, o Papai Noel deveria descer “flutuando” numa “engenhoca” que era composta por um peitoral de couro, apoiado num cinturão também de couro com uma argola fortemente costurada no meio das costas; presa ao cabo de aço com um mosquetão, daria a leveza suficiente para que o “bom velhinho” saísse da torre da Catedral e “deslizasse” até a varanda da Prefeitura. Daria…Tudo isso, montado sobre o Palco onde se apresentava a Família Lima.

Portanto, todas as luzes voltadas para o alto da torre direita da Catedral Diocesana de Lages. Carmina Burana dando o clima musical, épico. Abre-se a pequena janela que daria passagem ao Bom Velhinho enquanto eu preparo a cena entusiasmado:

“Vamos lá criançada… Papaiiiii Noellllll…

Chamem o bom velhinho que ele vem…

Todo mundo, papai, mamãe e crianças…

Papaiiiiii Noellllll… onde está você…”

Esse seria o caminho para o Bom Velhinho...
Esse seria o caminho para o Bom Velhinho… (Foto: Arquivo)

Até hoje, o que me causa espécie, é que eu não conseguia enxergar a torre do local em que eu estava animando a festa. Um tablado coberto pela lona e que tirava a minha visão. Então, do palco, eu me guiava pela feição emocionada de todos na praça olhando para o alto da Catedral e, no momento em que Papai Noel surgisse, certamente eu saberia pela vibração de todos.

Mas, passa o tempo e nada…

E eu gritando…

Passa o tempo e nada…

E eu animando já quase rouco…

Até que alguém chega no fundo do palco e avisa: “Mário, O Papai Noel não consegue passar pela Janelinha da Torre”… Surpreso, respondi: “Mas, como? Não ensaiaram; não foi testada a resistência do cabo de aço para que ele pudesse deslizar?”…”Sim, foi! mas não com esse papai Noel, Mário”. Incrível, mas um funcionário da equipe de eventos fez o teste no final da manhã e tudo estava perfeito. Estaria, se o Papai Noel original não fosse muito maior do que o funcionário do teste. E com os enchimentos, então, o “velhinho” ficaria entalado na janelinha da torre. “Retirem os enchimentos e vamos lá…o povo está gritando!”… “Não dá… é tudo costurado, vai rasgar todo o Papai Noel…”.

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Para disfarçar, a Família Lima aumenta o som de Carmina Burana, eu encho os pulmões e continuo inventando alguma história para dizer que “o pneu do trenó furou na estrada de São Joaquim e por isso, Papai Noel está demorando”… e… o tempo passando… Até que – na torre da catedral, para rápida alegria de todos, surge o Papai Noel (magrinho) e sem o Saco de Brinquedos às costas, deslizando numa velocidade estonteante quase se esborrachando de encontro à janela da varanda da Prefeitura. Uaaaaaauuuuuu vibram todos… Recolhido rapidamente para o interior da Prefeitura, eis que sai do térreo do prédio o “verdadeiro” Papai Noel, que do espaço da varanda no andar superior até o térreo, deve ter engordado milagrosamente uns 100 quilos. Milagres do peru de Natal.

Para as crianças, isso foi o de menos. Festa cristã da família e do renascimento do Menino Jesus.

A alegria de receber o Bom Velhinho em “carne e osso”, diga-se, muito mais carne ao chegar, do que ao se lançar, deslizando pelo cabo de aço até os braços do povo lageano. Valeu tudo. Até mesmo o atraso em sua chegada. Jamais esqueci a melodia de carmina Burana e cultivo grande amizade pela Família Lima até hoje.

Esse Natal, com certeza, a Família Lima nunca mais esqueceu…

Eu também não!

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