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    História de um casamento

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    Martha
    Por Martha Medeiros
    04/01/2020 - 08h00
    Netflix/Divulgação
    Netflix/Divulgação

    Era dezembro de 2005. Um casal de amigos que mora em São Paulo estava em Porto Alegre para as festas de fim de ano e veio nos visitar. Ao chegarem, nos abraçamos e fomos para a sacada do edifício, a noite estava inspiradora. Botamos música, abrimos um espumante e então eles perguntaram: “E aí, quais as novidades?”. Meu marido me abraçou, sorrimos  um para o outro e comunicamos: “Vamos nos separar”.

    O casal ficou uns 10 minutos com o queixo no pé, só podia ser piada. Mas não. Havíamos decidido encerrar o casamento um mês antes e só estávamos esperando passar os festejos para colocar o novo acordo em prática. Avisamos as crianças no início de janeiro (a parte mais difícil), e assim que a ideia foi assimilada, saímos todos juntos em busca de um apê para o papai. Em fevereiro a nova vida começou. Contratamos a mesma advogada quando efetivamos o divórcio. Até hoje meu ex almoça aqui em casa de vez em quando.

    Claro que houve sofrimento até a tomada da decisão, mas, uma vez decidido, o processo foi tão tranquilo que parecia ficção. Bem diferente do filme “História de um casamento”, que neste domingo deverá levar alguns prêmios na entrega do Globo de Ouro, e que dói de tão real. Ali estão as cenas comuns à maioria dos desenlaces conjugais. Se um rompimento já é doloroso por si só, torna-se trágico quando há disputa de bens ou filhos – ou ambos, para a desgraça ser completa. No filme, a questão envolve dois domicílios em cidades longínquas e uma única criança: como repartir a guarda de forma justa? Não havendo consenso, a guerra começa, e ela é sempre suja.

    Scarlett Johansson e Adam Driver formam um casal verossímil: trabalham juntos, são boa gente e amam o filho Henry. Ao decidirem pela separação, acreditam que irão resolver as pendências de forma amigável, mas aos poucos as mágoas vão saindo por olhos e bocas. Reaquecem-se antigas queixas e desejos sublimados – é a hora da verdade. As concessões feitas durante a relação aparecem para o confronto. Para decretar quem tem razão (e nesses casos, todos têm e ninguém têm, não de forma absoluta), contratam-se advogados que precisam ser inescrupulosos se quiserem ganhar a causa para o cliente. Vira um festival de golpes baixos, acusações exageradas, intimidade invadida. É constrangedor ver a pessoa que você amou ser humilhada em frente a um juiz, sendo acusada por erros que eram humanos, faziam parte da história. Mas, num litígio, não existe condescendência: todas as lanças estão envenenadas.

    Uma separação civilizada e, se possível, afetiva: nossos filhos merecem essa delicadeza de nossa parte. Um final feliz, por que não? Nem sempre o amor precisa terminar em drama.

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