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Entrevista

"Retirar incentivos à agricultura é um grave equívoco", diz agrônomo Glauco Olinger

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Moacir
Por Moacir Pereira
13/08/2019 - 21h50 - Atualizada em: 13/08/2019 - 23h10
Engenheiro agrônomo Glauco Olinger fala sobre a polêmica dos incentivos agrícolas (Foto: Divulgação)
Engenheiro agrônomo Glauco Olinger fala sobre a polêmica dos incentivos agrícolas (Foto: Divulgação)

Fundador da Associação de Crédito e Assistência Rural do Estado de Santa Catarina (Acaresc), em 1956, idealizador do vitorioso projeto Fruticultura de Clima Temperado em Santa Catarina, duas vezes Secretário da Agricultura, Secretário interino da Educação, presidente da Embrater e co-fundador da Embrapa, o engenheiro agrônomo Glauco Olinger é uma das maiores autoridades nacionais em questões agrícolas.

Aos 96 anos, com notável lucidez e memória impressionante, falou nesta terça-feira (13) sobre a polêmica dos incentivos agrícolas. 

Qual sua avaliação sobre a decisão do governador Moisés da Silva de cancelar os incentivos para a agricultura? 

O mundo inteiro subsidia a agricultura. Os Estados Unidos, que têm a maior agricultura do mundo, chegam a subsidiar, através de incentivos fiscais, até 35%. Os países nórdicos subsidiam mais de 50% os custos da produção agrícola. Na Europa, a média é também de 50%. Então, Santa Catarina e o Brasil precisam pensar em manter os estímulos.

Quando tiramos os subsídios para a agricultura estamos perdendo a capacidade de concorrer no mercado internacional. E temos concorrentes do nosso frango, como os franceses, com grandes subsídios. O nosso governador, que demonstra ter boa vontade em acertar na gestão catarinense, deve ouvir mais as entidades produtoras e menos os assessores políticos, os filosóficos. Deve falar mais com as cooperativas, os agricultores que contribuem para o PIB catarinense, e menos com os ideólogos.

E a polêmica sobre os defensivos agrícolas? 

Quando administramos a Secretaria da Agricultura demos início ao programa de subsídio do calcáreo para o setor agrícola. Somos inteiramente favoráveis aos defensivos para a agricultura. Retirar qualquer incentivo à agricultura é um grave equívoco administrativo do governo. E isto inclui os defensivos agrícolas que já existiam. Se existe algum incentivo errado ou injusto, que se corrija. A retirada simples é um erro governamental. 

É possível manter a atual produtividade sem uso de defensivos? 

A retirada dos defensivos agrícolas no mundo, no Brasil e em Santa Catarina, num só instante, em dois anos, iria matar de fome metade da população. A exclusão de defensivos ou fertilizantes, ambos combatidos por certas áreas ideológicas, seria mortal para a produção de alimentos. Este tema tem mais ideologia do que ciência. Enfatizo: onde existe ideologia na ciência, a ciência deixa de existir. Há uma incompatibilidade entre ideologia e ciência. E isto está ocorrendo agora em boa dose, ou seja, falta de ciência na abordagem do tema defensivos agrícolas. Há mais ideologia do que ciência. 

Como o senhor define os defensivos agrícolas? 

São produtos que se usa para o combate a doenças e pragas das plantas, doenças e parasitas dos animais. Estes produtos, ao longo da histórica, sempre foram chamados de defensivos. No próprio Ministério da Agricultura havia dois departamentos: de Defesa Sanitária Animal e de Defesa Sanitária Vegetal. Veio daí o termo defensivo. 

Entre os produtos de proteção agrícola, você tem inseticidas, que são químicos e não causam nenhum dano ao meio ambiente. Não trazem prejuízo aos animais de sangue quente e só atingem animais de sangue frio, ou seja, insetos, cobras, lagartos, peixes. Na hora do uso, o aplicador tem que ter cuidado, com roupa adequada, máscara. Pode prejudicar quando o agricultor fizer aplicação errada. Se for correta, não tem nenhum dano humano. Nem ao aplicador e nem ao consumidor.

Há outras opções de defensivos? 

Claro. O coeficiente ativo. Um produto que se usa para combater inseto, que é sistêmico. É usado no solo e a planta absorve até na formação do fruto. Precisa tomar cuidado. Se causasse dano jamais seria usado. Iria repercutir imediatamente entre os consumidores. Os produtos sistêmicos ficam fora dos agrotóxicos. No produto biológico é usado o inimigo natural para combater a praga. No café brasileiro, por exemplo, existia a “broca do café” , que ameaçava a economia cafeeira. Existia na África a “vespa de Uganda”, chamada “proropis nazuta”. Ela acabou com a broca, sem nenhum dano na aplicação. Não deixa de ser um defensivo. Na cana de açúcar também se usa o inimigo natural para combater a praga. Tenho visto muita gente falar sem nenhum conhecimento. É melhor que este pessoal, colocando opiniões errôneas sobre defensivos, agrotóxicos, inimigo biológico, que não combatesse o que desconhece.

A venda e uso dos defensivos em Santa Catarina tem controle? 

Sem a menor dúvida! E desde a criação da Acaresc, na década de 1950. Um dos objetivos dos técnicos da extensão rural, hoje na Epagri, e alguns na Cidasc, é justamente orientar o agricultor na forma de aplicação dos produtos de combate a doenças e pragas das plantas e dos animais, sem qualquer dano para os aplicadores e, sobretudo, para os consumidores. 

Faço uma pergunta: todo mundo está sabendo que a alimentação é vital na formação física de porco, galinha ou ser humano. Pensar que ser humano está ingerindo alimento envenenado ou prejudicial à saúde, é falta de inteligência. O homem hoje, em todas as olimpíadas e competições atléticas corre com maior velocidade, saltando cada vez mais alto, acrobacias incríveis, mais alto e, o mais importante, longevidade maior. Será que estamos ingerindo comida envenenada? Se for, é um fortificante. 

Há algum país do mundo com produtividade sem uso de defensivos? 

Não existe! Mas é preciso distinguir, pois há vários sistemas: o tradicional, com uso intensivo de fertilizantes e produtos químicos (adubo). Esta agricultura química é a responsável pela alta produtividade no mundo inteiro, mas junto com a engenharia genética dos pesquisadores. Mas maior influência na produtividade é da engenharia genética, produzindo novas variedades de plantas, novas linhagens de animais. Ali estão os altos aumentos de produtividade. 

Na década de 40, uma galinha caipira aqui em Santa Catarina colocava 30 a 50 ovos e hoje produz mais de 350 ovos por ano. Isto é fruto da engenharia genética. Outro exemplo é o porco. Na década de 40 levava mais de um ano para criar no que hoje em menos 4 meses. Gastava 8 a 10 quilos de ração para um quilo de carne suína e hoje é menos de 3 quilos. Uma vaca dava 3 litros de leite/dia e hoje tem vaca que produz 30 litros de leite/dia. Saltos fantásticos de produtividade. Tudo fruto da ração balanceada e dos defensivos, mas também da engenharia genética. 

Qual a intensidade de uso de defensivos agrícolas em Santa Catarina? 

É incomparavelmente menor do que outros países do mundo, no Japão, na Europa ou Estados Unidos. Não há termos de comparação. Temos uma agricultura muito menos danosa. Há esforço para redução do número de produtos químicos, usando sistema intermediário. Na fruticultura, usamos inimigos naturais para combater pragas. 

E a agricultura orgânica? 

É a ideal, sustentável, biológica. Mas não tem hoje a menor condição de abastecer o mundo de alimentos.

Palavra final.

Quem queira falar sobre defensivos agrícolas para orientar o governador e falar na imprensa, que estude melhor o assunto sob o ponto de vista científico e não do ponto de vista ideológico. 

Moacir Pereira

Colunista

Moacir Pereira

Principal nome do jornalismo político catarinense, é respeitado pela classe assim como nos campos empresarial e jurídico. A exclusividade de suas notícias se reflete na sua credibilidade.

siga Moacir Pereira

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