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    A política catarinense após a hemorragia

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    Por Renato Igor
    23/01/2021 - 05h56
    O futuro da política catarinense
    O futuro da política catarinense (Foto: Bruno Collaço / Agência AL)

    A Operação Hemorragia, que sacudiu o Estado no início dessa semana, deve cravar um divisor de águas na estrutura da política catarinense. Isso porque, nos últimos 15 anos, Julio Garcia esteve sempre no mais alto nível da pirâmide do poder, participando das principais jogadas do xadrez político estadual.

    Desde o PFL, passando por DEM e PSD, Julio esteve sempre próximo ao MDB, e, no Governo Luiz Henrique da Silveira, alcançou um grau de influência política e institucional poucas vezes visto no Estado.

    De habilidade incomum, em 2005 foi o primeiro deputado a se eleger presidente da ALESC por unanimidade, encerrando uma história de eleições acirradas a cada biênio. Repetiu o feito em 2007, e nos quatro anos ininterruptos de comando do parlamento estadual construiu um poder político ímpar. Não são poucos os que afirmam que, após a redemocratização, nenhum outro político teve tamanha e abrangente influência nas instituições públicas do Estado. Não uma força eleitoral, essa nunca teve e nem se tem notícia de que tenha buscado. Mas, de absoluta força na condução dos bastidores e no exercício da influência no poder constituído.

    Assim como o ex-governador Luiz Henrique, Julio tem no cumprimento da palavra a sua principal característica política. Costuma-se dizer que, acordo político com ele não precisa ser assinado. Foi o principal aliado de LHS na construção da tríplice aliança, que isolou a família Amin e levou à reeleição do joinvilense, e depois as duas vitórias de Raimundo Colombo para Governador.

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    Mesmo após oito anos de conselheiro do Tribunal de Contas (TCE), retornou com a mesma força  à política, sobreviveu à onda 17, elegendo-se deputado estadual e emplacando novamente a Presidência da Alesc por unanimidade.

    Desde o início do atual Governo, firmou contraponto ao discurso “antipolítica” do governador Carlos Moisés. Tal posição, aliada à desarticulação do Governo, fortaleceram ainda mais sua liderança no parlamento. Avesso a enfrentamentos, partiu para o ataque contra o governador, autorizando a abertura de dois processos de impeachment - juridicamente duvidosos -  em plena pandemia e contra a vice também, o que lhe faria governador do Estado. E, mais uma vez obteve esmagadora vitória política na Alesc, tendo seu projeto barrado apenas no Tribunal Misto, pela firmeza técnica dos desembargadores do TJ/SC e o inesperado voto do deputado estadual Sargento Lima, no primeiro processo - o segundo ainda está pendente de julgamento.

    Não conseguiu derrubar o Governador, mas quebrou o bloqueio que este tinha da chamada política tradicional, avalizando a coalizão para governabilidade dos próximos 2 anos, com a abertura de espaços na administração.

    Porém, o processo custou caro. Há quem deposite nesta vitrine a ofensiva da Polícia e Ministério Público federais. As duas pesadas denúncias de corrupção no ano passado tiveram repercussão nacional e forte desgaste do parlamentar. E, nessa semana, o duro golpe da prisão preventiva.

    Portanto, o inevitável abalo na força de Júlio Garcia abre um horizonte de novas possibilidades nas articulações mais altas da política barriga-verde, isso porque se perde muita força daquele capaz de costurar grandes junções políticas.

    Quanto ao futuro, dois aspectos: Júlio não será abandonado. Quem observou e acompanhou a liderança que ele construiu e ainda teve nos últimos 2 anos, sabe que terá muito respeito e solidariedade dos deputados e correligionários. A própria votação na Alesc sobre a prisão preventiva pode dar uma demonstração disso. Mas o arrefecimento do poder é natural, e aí vem o segundo ponto: não há perspectiva de surgimento de uma liderança tão forte de bastidores. Sem desmerecer os principais nomes - dentro e fora da Alesc e muitos deles com capilaridade eleitoral muito superior à Júlio Garcia - nenhum possui a sua capacidade de articulação. Ao menos não demonstrou até hoje, e, possivelmente, nem o momento o permita mais.

    Nos próximos meses deve evoluir, inclusive na Alesc, uma fragmentação de grupos e forças políticas que refletirá nas composições visando o pleito de 2022. A situação de Júlio deve inviabilizar uma cabeça de chapa do PSD, jogando-o no colo de outro projeto. O MDB com seus possíveis candidatos, além de Gelson Merísio, Jorginho Mello e Espiridião Amin certamente tentarão aproveitar o vácuo e se fortalecer. Além do próprio governador Moisés, que mesmo com todas as dificuldades políticas, tem bons resultados na gestão e entrega de obras, o que tende a aumentar nos próximos 2 anos, com a pacificação das relações com o Palácio Barriga Verde.

    Enfim, abre-se um horizonte de possibilidades para 2022. A se observar o comportamento das lideranças nessa clara mudança de paradigma, resultante do enfraquecimento do grande alfaiate do poder catarinense nos últimos quinze anos.

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