Dois anos após ter registrado o pior verão de sua história, com 100% dos pontos considerados impróprios para banho por dois meses seguidos — o que a levou a vexatórias manchetes nacionais — a Praia Central de Balneário Camboriú parece ter dado a volta por cima. Os relatórios do Instituto do Meio Ambiente (IMA) apontam para uma recuperação consistente, resultado de investimentos em saneamento e de uma promessa: tornar a praia mais badalada de SC 100% limpa. Ela está quase toda limpa, o que não deixa de ser um grande avanço. 

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No relatório do IMA divulgado na última sexta-feira (30), dos dez pontos analisados na Praia Central, são nove próprios para banho e apenas um impróprio (Pontal Norte).

Fotos mostram obras de saneamento e a praia Central de BC:

O caso da Praia Central de BC chama atenção num momento em que destinos turísticos famosos no Estado, como Bombinhas, Itapema e Governador Celso Ramos, sofrem com baixos índices de balneabilidade.

Em Balneário Camboriú, a situação catastrófica que se estendeu do final de 2023 ao início de 2024 foi resultado de um colapso no sistema de tratamento de esgoto, que chegou a ficar com menos de 1% de eficiência. A cidade está entre as mais saneadas de Santa Catarina, com praticamente 100% de cobertura de rede – mas o problema estava no tratamento dos efluentes. O caso acabou em CPI, que segue com repercussões no Ministério Público e na Justiça.

A prefeita Juliana Pavan (PSD) diz que colocou a questão da balneabilidade como ponto central para uma virada de chave. À frente da Emasa, a Empresa Municipal de Água e Saneamento, o engenheiro Auri Pavoni recebeu carta branca – e um orçamento respeitável – para reverter o prejuízo.

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Uma sequência de obras foram iniciadas ou concluídas ao longo de 2025, como as melhorias no sistema preliminar de tratamento, obra avaliada em cerca de R$ 30 milhões, e a reforma e ativação de decantadores, inclusive com substituição das membranas da lagoa de aeração, que não eram apropriadas para o sistema e causavam perda de eficiência.

Mas o projeto mais ousado a ser colocado em prática foi o da revisão das galerias de descarte pluvial e cloacal, que recebeu o sugestivo nome de Praia 100% Limpa. O problema é recorrente em muitas cidades de SC: as galerias se misturam, e em dias de chuva o esgoto extravasa. O resultado é a praia imprópria para banho.

As obras para separar adequadamente os dois sistemas iniciaram em novembro, foram suspensas durante a temporada de verão e serão retomadas após o Carnaval. A empreitada inclui a abertura do asfalto nas duas principais avenidas da cidade, Avenida Atlântica e Avenida Brasil – um incômodo que os moradores têm aceitado em troca da expectativa de melhora permanente.

A próxima etapa de investimentos será na instalação de uma nova Estação de Tratamento de Esgoto, com um sistema mais moderno e compacto. O município conseguiu um financiamento de R$ 90 milhões do Novo PAC para uma ETE com capacidade de 300 litros por segundo. As obras, previstas para iniciar após licitação a partir de 2026, visam solucionar o histórico problema de poluição, melhorar a balneabilidade da Praia Central e acompanhar o crescimento urbano, substituindo o sistema atual por tanques metálicos. 

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Ainda há desafios pela frente, reconhecidos pela própria Emasa. Um deles é resolver a situação do descarte irregular e esgoto no Canal do Marambaia, que mancha de forma recorrente, há anos, a balneabilidade da região do Pontal Norte – ponto regularmente impróprio para banho.

Outro é a parceria com Camboriú para ampliar a rede de esgoto na cidade vizinha e reduzir a carga de efluentes no Rio Camboriú, que banha as duas cidades.

Mas o fato é que Balneário Camboriú decidiu reconhecer o problema e enfrentá-lo. No passado, a cidade chegou a exigir que o IMA fizesse mais coletas seguidas – o que resultou em mais de 100 análises em janeiro de 2024, todas impróprias. Houve ainda um movimento de análises paralelas, feitas em laboratório particular. Ou seja: a tentativa parecia ser de questionar o método ao invés de buscar uma solução. Isso mudou.

O exemplo de Balneário Camboriú mostra que, quando se estabelece o saneamento básico como prioridade, as soluções aparecem. São intervenções mais incômodas e menos chamativas do que as grandes obras de mobilidade, alargamentos de praia, e tantas outras de infraestrutura que muitos gestores miram para conquistar o eleitor. É preciso coragem e responsabilidade para olhar o saneamento com a importância que ele tem para a saúde e para a sobrevivência de um dos nossos pilares econômicos, que é o turismo.

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