A morte do cão Orelha, vítima de maus-tratos praticados por adolescentes na Praia Brava, no Norte da Ilha, em Florianópolis, no dia cinco de janeiro, é repugnante. Nada justifica a maldade contra qualquer ser vivo. Nada justifica que um cachorro comunitário, inofensivo, seja espancado a pauladas. Nada.

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O caso embrulha o estômago e ganha dimensão ainda maior por ter ocorrido em um balneário frequentado por famílias de alto poder aquisitivo da cidade. Espera-se, ainda assim, que a investigação tenha seguimento, com os devidos indiciamentos e, a partir daí, cumpra seu rito legal: apresentação de denúncia, garantia do direito à ampla defesa e, ao final, punição rigorosa, conforme prevê a lei. É isso que se espera. É isso que a legislação determina.

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Infelizmente, o que se tem visto é o oportunismo político e midiático em torno do episódio. Autoridades e políticos surfam a onda da “trend” do momento. O caso, grave como é, exige apuração completa e respostas institucionais. Por envolver adolescentes, a lei é clara: nomes e imagens não podem ser divulgados, conforme estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

As autoridades deveriam ter adotado a mesma discrição e competência observadas no também lamentável caso da torcedora do Avaí, na Ressacada, que proferiu ofensas racistas e xenofóbicas. Naquela situação, o trabalho foi silencioso, técnico e eficaz — sem o estardalhaço e a superexposição agora promovidos nas redes sociais.

Há uma clara espetacularização do caso, o que é perigoso. Perde-se a razão, esquece-se a lei e a comoção popular passa a se sobrepor aos princípios do Estado de Direito.

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Nas redes sociais, o roteiro é conhecido: multiplicam-se denúncias vazias, nomes e sobrenomes são expostos, impera a irresponsabilidade. Famílias vêm a público afirmar que nada têm a ver com os investigados; empresários e empresas passam a sofrer linchamentos virtuais e cancelamentos sem qualquer relação comprovada com os fatos. O caso da Escola Base, em São Paulo — que deveria ser lembrado como exemplo pedagógico dos riscos da histeria coletiva — parece ter sido esquecido em nome do engajamento fácil e dos likes.

Por fim, em entrevista coletiva realizada na manhã desta terça-feira (27), a Polícia informou que quatro adolescentes são investigados por atos infracionais análogos ao crime, e três adultos — dois pais e um tio — foram indiciados por coação a testemunha (um vigilante).

Os fatos precisam — e estão — sendo investigados. A gravíssima morte do cão Orelha exige punição rigorosa por parte da Justiça, dentro dos limites da lei. O que não se pode aceitar é o justiçamento.