O programa Conversas Cruzadas desta terça-feira (17) reuniu especialistas em marketing político e gestão de crise para analisar os efeitos do desfile da Acadêmicos de Niterói em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
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Para Maria Eduarda Bernardo, a iniciativa acabou facilitando a narrativa da oposição. Na avaliação dela, o governo não conseguiu extrair dividendos políticos relevantes do episódio, enquanto adversários transformaram o desfile em combustível para ataques nas redes sociais, com alcance e engajamento superiores.
O consultor e estrategista Maurício Locks citou os números como indicativo desse movimento. Publicação crítica do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, sobre o desfile ultrapassou 20 milhões de visualizações no Instagram. Já o conteúdo divulgado pelo presidente Lula sobre o mesmo tema ficou na casa dos 4 milhões. “No ambiente digital, o episódio acabou funcionando como um tiro no pé”, resumiu.
No centro da discussão está o ambiente eleitoral antecipado que já marca o cenário político nacional. Em ano de disputa, qualquer gesto simbólico ganha contornos estratégicos. Para os analistas, não se trata apenas da intenção da homenagem, mas da capacidade de controle da narrativa. Em um ambiente altamente polarizado e orientado por algoritmos, o impacto político não depende do fato em si, mas de quem consegue transformar o episódio em vantagem.
O debate jurídico
O debate também entrou no campo jurídico-eleitoral. O advogado Gabriel Kazapi observou que não houve pedido explícito de votos — elemento que tradicionalmente pesa na caracterização de propaganda eleitoral antecipada. Já o especialista em Direito Eleitoral Luis Bessa Neto ponderou que a utilização de recursos públicos em ano eleitoral pode gerar questionamentos. Ele lembrou que decisões do Tribunal Superior Eleitoral indicam que não é apenas o pedido expresso de voto que caracteriza irregularidade; o contexto do ato pode ser considerado, citando como exemplo a motociata do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022.
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Kazapi destacou que o Tribunal de Contas da União rejeitou representações sobre o caso, entendendo que os repasses por meio de políticas públicas de incentivo à cultura seguiram critérios regulares, sem diferença em relação a anos anteriores e sem tratamento diferenciado às escolas. Ele também ressaltou que o TSE negou, por unanimidade, pedido liminar para suspender o desfile e que o Ministério Público Federal arquivou as representações apresentadas.
Bessa, por sua vez, avaliou que o tema ainda pode voltar ao debate judicial. Segundo ele, o TSE não costuma atuar de forma preventiva para censurar eventos, mas analisa os fatos após sua realização. Em ano eleitoral, afirmou, situações dessa natureza tendem a ser examinadas com lupa.
Para os participantes, o episódio deixa um recado estratégico: em cenário polarizado, movimentos simbólicos podem ser rapidamente apropriados pelo adversário e amplificados nas redes, exigindo cálculo político mais preciso das campanhas.

