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Cabeça de Político #44

Gelson Merisio: "Governo Moisés é preguiçoso"

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Por Upiara Boschi
16/09/2019 - 15h00 - Atualizada em: 26/09/2019 - 17h49
Cabeça de Político #44

Gelson Merisio (sem partido)

Derrotado no segundo turno das eleições para governador pelo praticamente desconhecido Carlos Moisés da Silva (PSL), o ex-deputado estadual Gelson Merisio evitou declarações públicas nos primeiros meses do novo governo. De volta à cena, ele faz fortes críticas à gestão do pesselista - diz que o governo é "preguiçoso", "não conversa com as pessoas" e "comete erros que não deveria cometer".

No Cabeça de Político desta semana, Merisio diz o que priorizaria se tivesse sido eleito governador e explica dois movimentos que fez depois das eleições do ano passado: a saída do PSD e a mudança para Joinville.

Veja o Cabeça de Político com o governador Carlos Moisés (PSL)

Veja as 44 entrevistas do Cabeça de Político

Leia a íntegra da entrevista desta semana:

Ano passado o senhor enfrentou a Onda 17 e perdeu a eleição para o governo. Como vê o governo Carlos Moisés (PSL), fruto dessa onda em Santa Catarina?

Primeiro que eu não estava contra a onda, tanto que no primeiro turno também votei em Jair Bolsonaro (PSL). Nós tivemos no segundo turno um processo de verticalização que eu respeito. Agora, estamos com quase um ano e de mandato e o que se observa é aquilo que eu falava durante a campanha: um governo de improviso, sem experiência e com pouca capacidade para o trabalho. Um governo que vai enfrentar problemas maiores do que os que já existem. É assim que vejo o governo. Um governo preguiçoso, que vai pouco para a rua conversar com as pessoas e que por isso comete erros que não deveria cometer. O principal deles é agora, quando pretendeu elevar de zero para 17% o imposto sobre o defensivo agrícola, indo contra todo um segmento, a agroindústria e o agricultor. E esses erros ocorrem por falta de diálogo, por falta de estar presente, por falta de trabalho.

O senhor como conduziria essa questão da revisão dos incentivos fiscais?

Isso é um equívoco que durante a campanha foi muito debatido. Santa Catarina tinha uma estrutura tributária que era única no Brasil. Tanto é que tivemos no primeiro semestre deste ano 17% de aumento da receito. Temos estruturas fiscais muito sólidas e construídas no tempo por todos os governadores que passaram. Se nós olharmos para trás, o Rio Grande do Sul e o Paraná começaram a ir mal lá no tempo do Olívio Dutra (PT-RS) e do Roberto Requião (MDB-PR) quando começaram a fazer legislação tributária por decreto, alterar protocolos e desrespeitar direito adquirido nos contratos assinados. Santa Catarina fez o contrário ao longo do tempo. Respeitou contratos, fez o processo tributário de uma forma firme e serena. O que nos trouxe até aqui. Esses movimentos que o governo faz são muito ruins para a credibilidade do Estado porque passam uma imagem de que não temos segurança jurídica. No longo prazo isso é extremamente ruim para os novos investimentos no Estado. O que precisamos ter e eu teria é um compromisso em não aumentar impostos. Quando se reduz benefício, você está aumentando o imposto direto para o consumidor. Você pode e deve revê-los (os benefícios) periodicamente, migrá-los de um campo para outro, mas jamais alterar para aumentar receita através dos subsídios.

Santa Catarina não oferece benefícios demais? É 25% da arrecadação.

Se ela concedesse (demais), ela não teria os melhores números de arrecadação de receita do Brasil. Não teria um acréscimo de receita de 17% no primeiro semestre. O que Santa Catarina sempre usou é essa política agressiva de incentivo fiscal para atrair investimento, aumentar sua economia e gerar emprego. Segurança jurídica, visão de longo prazo e, acima de tudo, uma previsibilidade do que vai acontecer, foi o que nos deu essa condição. Quando você começa por decretos malucos como foram feitos pelo governo a mexer em carga tributária futura, alterar políticas públicas consolidadas ao longo do tempo e a questão do agrotóxico, é um erro.

E quais as consequências?

O inverso do que aconteceu até agora. O Paraná reduzindo os tributos da cesta básica e nós aumentando. O Rio Grande do Sul com muita agilidade, trabalho e presença. O que ocorre na economia regional? O refluxo do que fizemos. Os investimentos irem para Paraná e Rio Grande do Sul, gerando desemprego em Santa Catarina. Esse alerta que eu faço não é para criticar o governo. O governo é inexperiente. Ineficaz nas práticas porque não as conhecia. Isso se corrige. Agora, trabalho, presença, ouvir com humildade para corrigir os erros é fundamental. Não torço contra o Estado para dizer que eu tinha razão. Agora, quase um ano de governo em que as escolhas foram equivocadas. Confronto com produtor, com agricultor, com quem gera emprego e renda.

O que o senhor teria priorizado em um primeiro ano de governo?

Primeiro, fazer uma reforma administrativa efetiva. O que foi apresentado na Assembleia Legislativa foi uma enganação. Ou foi enganado o servidor, porque estavam todos lá aplaudindo a reforma, ou foi enganado o eleitor. As duas coisas não fecham. Reforma administrativa é para reduzir custo e isso não aconteceu. Segundo, nós temos uma política que precisa ser tratada de forma muito séria em relação ao servidor público, que está com seu salário achatado desde 2013. Tínhamos que tratar isso antes que as pressões de movimentos de categorias acontecessem. Professor, policial, agentes penitenciários. Nisso o governo está errando, está armando uma bomba logo para frente. Então, fazer uma reforma efetiva que reduzisse o custo do Estado. Eu disse na campanha que não teria mais do que 200 cargos comissionados. Com absoluta certeza o atual governo tem próximo de 1 mil (segundo o Portal da Transparência, eram 562 na folha de julho). Eram 1,4 mil ano passado (pela mesma fonte, eram 1,2 mil em janeiro de 2018, final do governo Raimundo Colombo, do PSD, e 1.038 em dezembro, ao fim da gestão Eduardo Pinho Moreira, do MDB). Foi muito pequena a alteração feita, eu teria feito muito mais profundamente para ter gordura quando vierem as pressões das categorias o governo ter margem de manobra para remunerar melhor professores e policiais.

Um ponto que une seu discurso e o do governador Carlos Moisés é a redução dos repasses para os poderes. Ele tentou agora, como o senhor tinha tentado como presidente da Assembleia em 2015. O governador agiu corretamente na forma como levantou essa questão?

O Moisés errou tanto quanto eu errei lá atrás. Na época eu era legislativo, fiz uma emenda e tinha maioria no parlamento para aprovar. Não tive na época o apoio do governo (Colombo). Agora, houve o inverso. O governo fez a proposta e não teve maioria para aprová-la. Na prática, os dois movimentos foram equivocados porque não deram resultado. Uma discussão mais ampla e mais aberta, que eu não fiz lá atrás e o governo não fez agora, precisa ser feita para o futuro.

Falta uma verdadeira oposição ao governo Moisés?

Eu fiquei praticamente um ano sem falar para não passar a impressão de que eu estava torcendo para dar errado para dizer que eu tinha razão. Agora, passado quase um ano, é o momento de dizer o que penso. Vejo um governo preguiçoso, pouco presente. Para mim, governar é muito mais do que um processo administrativo, é ser um catalisador das forças vivas do Estado. É estar presente para motivar a economia, o desenvolvimento, incentivar as boas práticas. Isso requer trabalho. Nunca trabalhei nos últimos anos menos de 15 horas por dia. Não vejo o governo com essa disposição de estar na rua, as comunidades, em Blumenau, Chapecó, Criciúma, sendo um catalisador. Como era o Luiz Henrique, como era o Esperidião Amin, homens de trabalho e presença. Esse manto do governador é único. O Poder Executivo pode ser ocupado por pessoas técnicas e trabalhadoras, mas o governador ungido pelas urnas é um só, ele precisa ser onipresente. Isso requer desprendimento, força e acima de tudo disposição para o trabalho, o que me parece que está faltando agora.

O senhor vive uma situação inusitada. Foi candidato a governador pelo PSD, chegou ao segundo turno, teve mais de 1 milhão de votos, e deixou o partido. O senhor perdeu o PSD?

Não, eu teria toda a condição de disputar a convenção (para buscar a reeleição como presidente estadual). Tenho no PSD uma relação de muita amizade com os prefeitos, com os vereadores, com a base do partido. Em 2018, em março, tive um processo de intervenção do diretório nacional que eu enfrentei naquele momento e tive êxito naquele momento, conseguindo minha candidatura (a governador). Passada a eleição, eu não via a necessidade de ter uma espada na minha cabeça pelos próximos quatro anos. Lá em 2022 eu não sei se serei candidato, isso o tempo vai dizer se eu terei viabilidade, se estarei vivo, enfim. Mas o que não quero ter de novo lideranças nacionais e estaduais que me deixem desconfortável. Como os partidos, não só o PSD, tem hoje muito menos importância na vida do cidadão, preferi sair para sem nenhuma amarra poder olhar o cenário com liberdade e poder ser útil àqueles que me ajudaram e a Santa Catarina.

O senhor já tem destino partidário definido?

Não tenho e não tenho pressa.

Não tem prazo para se filiar, então?

Não, porque não vou disputar a eleição municipal.

É uma decisão tomada não disputar a eleição municipal?

Não tenho essa pretensão. Dizer que não vai é ir contra um dogma da democracia. Não tenho essa disposição, não é para isso que vou trabalhar, não é para isso que estou me movimentando. O que quero a partir de agora é fazer um contraponto saudável. Não pessoal ao governador ou a governo. Não torço contra, mas vejo erros que estão sendo cometidos.

O que significa sua mudança de domicílio eleitoral para Joinville? Pode ser candidato lá?

Eu estou trabalhando em Joinville agora. Por uma questão legal, você mora ou trabalha onde tem seu domicílio eleitoral. Eu morava em Chapecó e trabalhava em Florianópolis, meu domicílio era em Chapecó. Agora eu trabalho em Joinville, tenho uma residência lá e outra em Florianópolis. Ou voto em Florianópolis ou voto em Joinville. A minha opção será por Joinville. A questão de disputar a eleição é absolutamente longe, não tenho nenhuma pretensão de trabalhar por isso. Agora, dizer que é impossível, não é. É o que eu desejo e é provável? Também não é. Mas é uma possibilidade.

Como o senhor participa da política de Joinville?

Procurando construir um processo que deixe claro aquilo que deveria ter sido feito pelo prefeito (Udo Döhler, do MDB) e não foi. A forma como o governo (estadual) deveria agir e não agiu. O Estado tem uma dívida com Joinville muito grande. Tanto que foi a única cidade em que assumi um compromisso direto, assinei uma carta, (prometendo) a estadualização do Hospital São José em condições de recuperar as finanças do município. Há um descompasso entre Florianópolis e Joinville que precisa ser corrigido. É justo que se faça isso e eu vou continuar vendendo essa tese. Faria isso como governador e quero continuar fazendo no debate com a cidade.

Observação: O governo estadual foi procurado para se manifestar sobre as críticas do ex-deputado estadual Gelson Merisio, mas preferiu não comentar a entrevista.

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Faz a leitura e a análise do contexto do cenário político de Santa Catarina, com informações de bastidores. Explica motivações e consequências das principais decisões tomadas nos poderes do Estado.

upiara.boschi@somosnsc.com.br

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