Diante do comportamento alheio que não faz sentido, existem três reações automáticas e uma difícil. A primeira é achar graça, e transformar o outro em piada. A segunda é lamentar, e tratá-lo como coitado. A terceira é condenar, e encerrar o assunto com um veredicto moral. As três são rápidas, confortáveis e produzem a mesma coisa: a conversa acaba ali.
Baruch Spinoza, filósofo holandês do século 17, nomeou exatamente essas três saídas e anunciou que não usaria nenhuma delas. Fez isso na abertura do “Tratado Político”, publicado em 1677, logo após a morte dele, e não como declaração de princípios morais. Como declaração de método.
Não rir, não lamentar, não detestar, mas compreender.
O parágrafo inteiro explica por quê. Spinoza observa que os filósofos costumam tratar as paixões humanas como vícios em que as pessoas caem por culpa própria, e que por isso riem delas, choram por elas, as censuram ou, no caso dos que querem parecer mais santos, as detestam. Ele anuncia que vai fazer diferente: investigar a política com a mesma liberdade de espírito com que se investiga a matemática.
E descreve o que isso significa na prática. Amor, ódio, ira, inveja, vaidade, compaixão e as demais agitações da alma ele passa a considerar não como defeitos da natureza humana, mas como propriedades dela, que lhe pertencem do mesmo modo que o calor, o frio, a tempestade e o trovão pertencem à natureza do ar. São incômodas, mas necessárias, e têm causas determinadas.
A frase não é convite à neutralidade moral, e essa é a leitura que mais circula. Spinoza não está dizendo que tudo se equivale nem que não se deva agir contra o que é danoso. Está dizendo que a explicação vem antes do julgamento, e que quem começa pelo veredicto nunca chega à causa. Um tratado sobre como organizar um Estado, aliás, é um lugar improvável para defender indiferença.
Vale testar isso na próxima vez que alguém fizer algo que te pareça absurdo. Repare em qual das três reações aparece primeiro, e depois tente a quarta. Ela é mais lenta e quase sempre menos satisfatória no momento, e é a única que produz informação nova.
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