Frase do dia da Filosofia: ‘O homem comum preocupa-se em como passar o tempo; o homem talentoso em usá-lo’ – a reflexão de Schopenhauer sobre tédio e vida interior

A distinção que ele propõe não é entre quem trabalha mais e quem trabalha menos: é entre quem precisa que as horas passem depressa e quem quer que elas rendam alguma coisa

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Retrato ou daguerreótipo de Arthur Schopenhauer em fase madura.

Arthur Schopenhauer publicou os "Aforismos para a Sabedoria de Vida" em 1851, quando tinha 63 anos. (Foto: Reprodução)

Existe um teste que ninguém pediu para fazer e quase todo mundo já falhou. É o intervalo de dois minutos na fila do banco, os quinze minutos de espera numa sala vazia, a hora morta entre o almoço e o próximo compromisso. A mão vai ao bolso antes que a cabeça decida. E não é o conteúdo da tela que importa, porque quase nunca há um. O que importa é que o intervalo não seja atravessado sem companhia.

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Arthur Schopenhauer descreveu esse reflexo mais de um século antes do celular existir. Para ele, o modo como alguém reage ao tempo vazio não é um detalhe de comportamento, é uma informação sobre a pessoa. Quem precisa que as horas passem depressa está dizendo algo sobre o que encontra quando fica sozinho. Quem quer que elas rendam está dizendo outra coisa.

O homem comum preocupa-se em como passar o tempo; o homem talentoso em usá-lo.

A distinção continua legível em terreno atual. No fim de semana livre que termina sem que ninguém saiba onde as horas foram. Na aposentadoria que chega como alívio e vira peso em poucos meses. Na noite que se gasta pulando entre plataformas sem assistir nada até o fim. Em nenhum desses casos falta tempo. Sobra tempo, e é exatamente esse o desconforto.

A frase está nos “Aforismos para a Sabedoria de Vida“, publicados em 1851, e vem seguida de uma explicação. Schopenhauer sustenta ali que o tédio atinge mais duramente quem tem menos recurso interno, e que o ócio livre, para essa pessoa, se transforma primeiro em peso e depois em tormento. Vale registrar que ele escreve isso em tom bem menos generoso do que a frase isolada sugere: o filósofo pertencia a uma tradição do século 19 que tratava a capacidade intelectual como dote de nascimento e não como algo a desenvolver, e a leitura dele sobre a maioria das pessoas é francamente pessimista. Nada disso é obrigatório para aproveitar a observação, mas convém saber de onde ela vem.

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A frase também não é elogio à ocupação constante, e essa é a leitura mais frequente entre quem a compartilha em contexto de produtividade. Schopenhauer defendia o ócio como poucos, e considerava o tempo livre a colheita de uma existência que no resto é só esforço. Agenda cheia, para ele, não seria sinal de tempo bem usado, e sim outra forma de preenchimento. O que ele opõe não é descanso e trabalho. É a diferença entre atravessar o tempo e habitá-lo, e descansar de verdade pertence à segunda categoria, não à primeira.

Vale refazer o teste do começo com isso na cabeça. Da próxima vez que houver quinze minutos sem nada marcado, repare no que acontece antes de a mão ir ao bolso. Não é sobre o que você faria com o tempo. É sobre com quem você fica quando não faz nada.

Você pode gostar de ver também a frase de Byung-Chul Han: “A depressão é o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade. Reflete aquela humanidade que está em guerra consigo mesma” e frase do dia do Estoicismo: ‘A parte da vida que realmente vivemos é pequena. Pois todo o resto da existência não é vida, mas apenas tempo’ – a reflexão de Sêneca sobre o uso do tempo.