Toda criança que brinca de esconde-esconde conhece um detalhe que ninguém explica. A graça está em ficar escondido, em ouvir os passos passando perto, em segurar o riso. Mas existe um ponto em que a brincadeira vira outra coisa: quando o tempo passa demais, quando os passos se afastam, quando fica claro que ninguém está mais procurando. A alegria some de uma vez, e o que sobra é desamparo.
Donald Woods Winnicott, pediatra e psicanalista inglês que atendeu crianças por mais de quatro décadas, tirou dessa brincadeira uma das formulações mais citadas da psicanálise do século 20. Para ele, o que acontece ali não é exclusivo da infância. É o desenho em miniatura de algo que continua acontecendo a vida inteira.
É uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser encontrado.
O contexto da frase, no texto original, é preciso. Winnicott está descrevendo uma criança que constitui um eu privado, que não se comunica, e que ao mesmo tempo quer se comunicar e ser encontrada. Ele chama isso de jogo sofisticado de esconde-esconde. As duas coisas acontecem juntas, e não em sequência: a mesma pessoa está escondendo e esperando.
Isso contraria a leitura mais comum sobre quem se guarda. Ter uma parte reservada, inacessível a todos, não é defeito de vínculo na teoria dele. É condição para que exista alguém ali para se vincular. Winnicott trabalhava com a ideia de que o núcleo mais íntimo de uma pessoa precisa permanecer incomunicável, protegido, e que a saúde está em manter esse núcleo e, ainda assim, continuar em relação com os outros.
O desastre, portanto, não é o esconderijo. É a ausência de procura. A frase não acusa quem se guarda, e é por isso que ela funciona tão bem com adultos que ninguém diria serem fechados. A pessoa que mantém a aparência em ordem, responde bem a todo mundo e nunca é perguntada de verdade está no segundo caso, não no primeiro.
Vale usar isso em duas direções, e a segunda é a que costuma ser esquecida. A primeira é perguntar quem ainda procura você. A segunda, mais útil, é perguntar de quem você parou de procurar: alguém que anda bem escondido, educado, funcional, e de quem ninguém na mesa pergunta nada há algum tempo. Quando o esconderijo se torna isolamento e começa a pesar, quem ajuda é um profissional de saúde mental.
*Conteúdo gerado com ajuda da Inteligência Artificial e revisado por Jornalistas.
