Frase do dia da psicologia: “O curioso paradoxo é que, quando me aceito como sou, então posso mudar”, a reflexão de Carl Rogers sobre por que a cobrança não funciona

Rogers chegou à frase observando pacientes em consultório. O que ele descreve não é aceitação no sentido corrente, e a distinção muda o que a citação pede

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Gravura em preto e branco do psicólogo norte-americano Carl Rogers

Carl Rogers publicou "Tornar-se Pessoa" em 1961, reunindo textos escritos ao longo de uma década de trabalho clínico

Quase todo projeto de mudança pessoal começa com uma condenação. A pessoa lista o que há de errado consigo, decide que aquilo é inaceitável e monta um plano para corrigir. Funciona por algumas semanas, às vezes por meses. Depois desmonta, e a lista recomeça mais longa, agora com o fracasso do plano anterior incluído.

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O psicólogo norte-americano Carl Rogers (1902 a 1987) observou o inverso disso nos próprios pacientes:

O curioso paradoxo é que, quando me aceito como sou, então posso mudar.

Onde a frase foi escrita

A passagem está em “Tornar-se Pessoa”, livro que Rogers publicou em 1961 reunindo textos escritos ao longo de mais de uma década de trabalho clínico.

Rogers é o criador da abordagem centrada na pessoa, e a formulação não veio de teoria prévia. Veio da observação repetida de um mesmo fenômeno em consultório: pacientes que chegavam determinados a mudar não mudavam, e pacientes que em algum momento paravam de lutar contra o que eram começavam a se mover.

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Ele registra isso como paradoxo justamente porque contraria o que ele mesmo esperava encontrar.

Por que o paradoxo funciona

A citação costuma parar na primeira linha, o que a reduz a um conselho de gentileza consigo mesmo. A explicação de Rogers é mais mecânica.

Ele observa que a energia gasta em negar um traço é energia indisponível para qualquer outra coisa. Enquanto a pessoa está ocupada em não ser o que é, ela precisa manter a negação de pé, e isso consome exatamente o recurso que a mudança exigiria.

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Há um segundo elemento, mais preciso. Rogers nota que não se pode alterar aquilo que não se examina de perto, e que ninguém examina de perto o que está tentando esconder de si mesmo. A aceitação, nesse desenho, não é o objetivo terapêutico. É a condição de visibilidade sem a qual não há o que trabalhar.

Daí a formulação que ele usa em outro momento: o que somos precisa ser plenamente reconhecido antes de poder ser modificado, porque o reconhecimento é o que torna o traço acessível.

O que Rogers não está dizendo

Duas leituras equivocadas circulam com a frase.

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A primeira a converte em conformismo, no estilo “sou assim mesmo, aceite ou saia”. Rogers está descrevendo o ponto de partida de um processo de mudança, e o livro inteiro trata de transformação pessoal. Aceitar, na descrição dele, é parar de negar, não parar de querer.

A segunda a transforma em autoestima como técnica, do tipo repita elogios a si mesmo. Não é isso. O que Rogers descreve é reconhecimento honesto, incluindo do que a pessoa não gosta em si, e a maior parte do trabalho clínico que ele relata consiste em pacientes admitindo coisas que preferiam não admitir.

Por que continua circulando

Sessenta anos depois, a frase é citada em consultórios, formações em terapia e textos sobre autocrítica.

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O que ela propõe não é abandonar a mudança. É notar que a cobrança e a mudança competem pelo mesmo espaço, e que a maioria das pessoas gasta o espaço inteiro na primeira.

Fonte primária: ROGERS, Carl R. Tornar-se Pessoa. Publicado originalmente em inglês em 1961 como “On Becoming a Person”. Edição brasileira: Martins Fontes.

Você pode gostar de ver também que Carl Jung disse: “Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a um entendimento de nós mesmos” – a frase do psiquiatra sobre irritação e autoconhecimento.