Frase do dia da Psicologia: “Os melhores momentos da nossa vida não são os passivos, receptivos, relaxantes” – a reflexão de Csikszentmihalyi sobre o estado de fluxo

O psicólogo que criou o conceito de fluxo passou décadas perguntando às pessoas quando elas se sentiram melhor, e a resposta contrariou o que ele esperava ouvir

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Mihaly Csikszentmihalyi criou o conceito de fluxo e publicou o livro que o apresenta em 1990. (Foto: Reprodução)

Pergunte a alguém como seria o dia perfeito e a resposta costuma ser parecida. Dormir até tarde, não ter compromisso, praia ou sofá, nada para resolver. A ideia de felicidade que circula é feita de ausência: ausência de pressão, de prazo, de esforço. É também a ideia que a maior parte das pessoas usa para organizar as próprias férias, e que explica por que tanta gente volta delas sem a sensação de ter vivido alguma coisa.

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Mihaly Csikszentmihalyi, psicólogo húngaro-americano, passou décadas investigando exatamente isso. Em vez de perguntar o que as pessoas achavam que as faria felizes, pediu que registrassem como estavam se sentindo em momentos aleatórios do dia, ao longo de semanas. O resultado não bateu com a expectativa, nem com a dele.

“Os melhores momentos da nossa vida não são os passivos, receptivos, relaxantes.”

A frase continua, e a continuação é onde está o conteúdo. Ele escreve que os melhores momentos costumam ocorrer quando o corpo ou a mente de alguém é levado ao limite em um esforço voluntário para realizar algo difícil e que valha a pena. E observa, no mesmo trecho, que essas experiências nem sempre são agradáveis enquanto acontecem: os músculos do nadador podem ter doído na prova mais memorável da vida dele, os pulmões podem ter parecido explodir, e ainda assim aquele pode ter sido o melhor momento.

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A esse estado ele deu o nome de fluxo: aquele em que a pessoa está tão envolvida na atividade que nada mais parece importar, o tempo deixa de ser percebido, e a experiência é tão absorvente que se faz por ela mesma. Quem cozinha, toca um instrumento, corre, escreve ou conserta alguma coisa já esteve ali.

Vale reparar nas duas palavras que impedem a leitura torta. A primeira é voluntário. Esforço imposto por chefe, por dívida ou por emergência não produz fluxo, produz desgaste, e Csikszentmihalyi não está elogiando sobrecarga. A segunda é que valha a pena: a atividade precisa ter sentido para quem a faz, não para quem assiste. Sem essas duas condições, o que resta é exaustão, e a pesquisa dele não a recomenda em nenhuma hipótese.

A frase também não condena o descanso, e ele é explícito quanto a isso: experiências relaxantes podem ser muito boas, especialmente quando foram conquistadas. O que ele contesta é tratá-las como o ponto mais alto. Se a sua ideia de dia perfeito não tem nada difícil dentro, talvez valha incluir uma coisa só, escolhida por você, que exija mais do que o automático.

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