Existe um assunto que algumas famílias contornam há anos sem nunca ter combinado isso. Todo mundo sabe qual é. Ele aparece de viés no almoço de domingo, alguém muda o rumo da conversa, e a mesa segue. A justificativa é sempre a mesma e sempre soa razoável: não vale a pena remexer. O que quase ninguém repara é o quanto de energia a mesa gasta, todo domingo, para não chegar perto.
Brené Brown, pesquisadora americana que estuda vergonha e vulnerabilidade há mais de duas décadas, trabalha com a hipótese contrária. Para ela, o que é empurrado para baixo não some, apenas troca de posição. Deixa de ser algo que a pessoa carrega e passa a ser algo que a conduz, sem que ela perceba, em decisões que parecem não ter relação nenhuma com aquilo.
Quando negamos nossas histórias, elas nos definem. Quando assumimos nossas histórias, podemos escrever um novo final corajoso.
A formulação encontra terreno reconhecível. Na família que não fala sobre a dependência química de um parente, e na geração seguinte que repete o silêncio sem saber por quê. No profissional que atribui um erro antigo à circunstância e volta a cometê-lo em contexto novo. Na amizade que nunca discutiu o desentendimento de três anos atrás e ficou permanentemente mais fria. O assunto evitado continua trabalhando, e trabalha com mais liberdade justamente porque ninguém olha para ele.
A frase abre um artigo que Brown publicou no site dela em 18 de junho de 2015. Vale registrar que o texto vai bem além da vida privada. Depois de listar três aplicações pessoais, sobre conflitos familiares, histórico de dependência e reconhecimento de erros, ela desloca o argumento para a esfera coletiva e sustenta que sociedades também têm histórias que preferem não encarar, e que o mecanismo é o mesmo. O artigo foi escrito nos Estados Unidos, sobre o passado americano, no dia seguinte a um ataque racista que chocou o país. A leitura individual está no texto, mas não é o motivo dele.
A frase também não promete apagar nada. Assumir uma história não significa que ela deixe de ter acontecido, nem que quem foi ferido precise perdoar, nem que a dor tenha uma função pedagógica embutida. Brown não usa a palavra superar. Ela usa escrever um novo final, o que pressupõe que o começo continua exatamente onde estava. E é justamente por isso que ela chama o final de corajoso, e não de feliz. Quando um assunto do passado produz sofrimento persistente, o apoio de um profissional de saúde mental faz mais diferença do que qualquer decisão de encarar sozinho.
Vale reparar em qual assunto você contorna há mais tempo. Não para resolvê-lo hoje. Só para notar quanta energia vem sendo gasta, todo mês, para manter a conversa longe dele.
