Perdeu a perna aos 18 anos e passou a correr 42 km por dia: a história de Terry Fox que atravessou gerações

Diagnosticado com câncer ósseo ainda adolescente, canadense transformou uma amputação em uma jornada que mobilizou multidões e segue inspirando corridas beneficentes

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Terry Fox durante a Maratona da Esperança e uma escultura criada posteriormente em sua homenagem. (Foto: Montagem/Wikimedia Commons)

Terry Fox durante a Maratona da Esperança e uma escultura criada posteriormente em sua homenagem. (Foto: Montagem/Wikimedia Commons)

Terry Fox tinha 18 anos quando uma notícia sobre seu estado de saúde mudou por completo os rumos de sua vida. Apaixonado por basquete, estudante de cinesiologia e interessado em seguir carreira como professor de educação física, o canadense descobriu um câncer ósseo na perna direita. Pouco depois, precisou amputá-la até a metade da coxa.

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A cirurgia interrompeu seus planos, mas não encerrou sua relação íntima com o esporte. Durante os 16 meses seguintes, Fox conviveu com outros pacientes, enfrentou sessões de tratamento e aprendeu a lidar com a nova condição física. Ao mesmo tempo, começou a amadurecer a ideia que transformaria sua experiência pessoal em uma causa pública.

Com uma prótese esportiva feita de aço e fibra de vidro, voltou a treinar e decidiu enfrentar algo que, mesmo para um atleta em plena condição física, exigiria resistência extraordinária: atravessar o Canadá correndo, do Atlântico ao Pacífico, para arrecadar dinheiro para pesquisas contra o câncer.

A vida antes do diagnóstico

Nascido em 1958, Terry cresceu cercado pelo esporte. Basquete, atletismo, rugby e luta faziam parte de sua rotina, muitas vezes ao lado do melhor amigo, Doug. Naturalmente, essa afinidade com a atividade física também orientou seus planos profissionais.

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Na universidade, passou a estudar cinesiologia, área dedicada ao movimento humano. Queria trabalhar com educação física e, sobretudo, ajudar outros jovens a encontrar no esporte a mesma disciplina que havia moldado sua própria vida.

Esse caminho mudou em 1977. Fox recebeu o diagnóstico de osteossarcoma, um câncer que atingira sua perna direita. A amputação entrou no tratamento e, aos 18 anos, ele precisou reorganizar a rotina enquanto enfrentava também o impacto emocional da doença.

Da recuperação à Maratona da Esperança

A adaptação à prótese abriu espaço para um objetivo inesperado. Terry retomou os exercícios e, gradualmente, transformou o treinamento em preparação para um projeto muito maior.

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Nascia a Maratona da Esperança.

A ideia parecia simples quando colocada no papel, mas se mostrava extrema na prática. Fox pretendia atravessar o Canadá correndo cerca de 42 quilômetros por dia, distância equivalente a uma maratona. Durante o percurso, arrecadaria doações para pesquisas sobre o câncer e buscaria mobilizar a população em torno da causa.

Finalmente, em 12 de abril de 1980, o plano saiu do papel. Aos 21 anos, Terry iniciou a jornada em St. John’s, na costa leste canadense, depois de mergulhar simbolicamente sua prótese no Oceano Atlântico. A partir dali, seguiria rumo ao Pacífico. A Terry Fox Foundation registra que ele percorreria, ao todo, 5.373 quilômetros em 143 dias.

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Uma maratona praticamente todos os dias

Nas semanas seguintes, as estradas canadenses se transformaram no cenário de uma das histórias esportivas mais marcantes do país. Fox atravessava rodovias e cidades enquanto repetia, quase diariamente, uma distância que costuma representar o limite de uma grande prova de resistência.

Doug acompanhou boa parte da jornada de carro e registrou momentos do percurso. Paralelamente, Terry perseguia uma meta financeira ambiciosa: queria arrecadar ao menos um dólar canadense por habitante do país para financiar pesquisas contra o câncer.

No começo, sua passagem despertava pouca atenção. Com o avanço da jornada, porém, o cenário mudou. A imprensa começou a acompanhar o atleta, o público cresceu e as doações aumentaram. Em várias cidades, moradores aguardavam nas ruas apenas para vê-lo passar.

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Ao longo da Maratona da Esperança, Terry passou por mais de 400 cidades, escolas e comunidades. Quando chegou a Ontário, a corrida já havia deixado de ser apenas uma iniciativa pessoal e ganhara dimensão nacional.

Ainda assim, atravessar o Canadá logo deixaria de depender apenas de resistência física.

A corrida interrompida

Durante a passagem por Thunder Bay, Terry começou a sentir dores intensas no peito. Tentou descansar, mas o incômodo persistiu. Sem condições de prosseguir, pediu ajuda a Doug e seguiu para o hospital.

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Os exames trouxeram a notícia que interromperia a viagem: o câncer havia retornado e alcançado seus pulmões.

Em 1º de setembro de 1980, Fox encerrou a Maratona da Esperança antes de chegar ao Pacífico. Até aquele momento, havia corrido por 143 dias e percorrido mais da metade do território que pretendia atravessar.

Terry morreu em 28 de junho de 1981, aos 22 anos.

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A interrupção precoce da corrida, contudo, não encerrou a mobilização que ele havia criado. Pelo contrário. Sua história continuou associada à arrecadação de recursos para pesquisas contra o câncer, enquanto a Terry Fox Foundation passou a preservar e ampliar o projeto iniciado nas estradas canadenses.

Percurso continuou depois dele

Décadas mais tarde, corridas realizadas em diferentes países ainda carregam o nome de Terry Fox. O evento passou a reunir participantes em torno de um objetivo semelhante ao que motivou a jornada original: transformar quilômetros percorridos em recursos para a pesquisa contra o câncer.

O legado ajuda a explicar por que a história ultrapassou o universo esportivo. Fox não correu em busca de um recorde nem tentou transformar a amputação em espetáculo. Ele usou a própria experiência para chamar atenção para pacientes que conheceu durante o tratamento e para a necessidade de ampliar o financiamento científico.

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Por isso, a força de sua trajetória está menos na ideia isolada de superação e mais na capacidade de transformar uma experiência devastadora em mobilização coletiva. Terry não concluiu a travessia que havia planejado, mas deu à corrida um alcance muito maior do que os quilômetros que conseguiu percorrer.

Seu projeto terminou na estrada. O legado, não.