Valter Hugo Mãe, escritor: “Quem perdeu a mãe perde para sempre e nunca mais para de perder”

O ponto de vista do romance inteiro, a frase mais dura do livro tem resposta escrita algumas páginas adiante, pelo mesmo autor

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FRASE VALTER HUGO MAE

Valter Hugo Mãe nasceu em Angola, em 1971, e publicou "O Filho de Mil Homens" em 2011. (Foto: Reprodução)

Quem perdeu a mãe conhece um detalhe que ninguém avisa. A dor do primeiro mês é esperada, tem nome, e todo mundo ao redor sabe o que dizer. O que ninguém prepara é o que vem depois: o aniversário de casamento em que ela faria a sobremesa, a notícia boa que não tem para quem contar, o gesto que a pessoa se pega repetindo dez anos depois. A perda não fica parada no passado. Ela reaparece.

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Valter Hugo Mãe, escritor português nascido em Angola, registrou essa reaparição em uma frase de “O Filho de Mil Homens”, romance publicado em 2011. A formulação é curta e não oferece consolo nenhum, e talvez seja por isso que ela circula tanto entre quem passou por isso.

Quem perdeu a mãe perde para sempre e nunca mais para de perder.

Vale separar as duas metades, porque elas dizem coisas diferentes. “Perde para sempre” descreve a definitividade: não existe reversão, e a pessoa que morreu não volta. “Nunca mais para de perder” descreve outra coisa, que é a repetição. Não é uma perda que aconteceu, é uma perda que continua acontecendo, em parcelas, ao longo de décadas. É a segunda metade que reconhece o que quase nenhum discurso sobre superação reconhece.

O romance, porém, não termina aí, e é aqui que a citação isolada empobrece o livro. A história acompanha um pescador que chega aos quarenta anos aceitando a tristeza de não ter tido filho, e um menino cuja mãe morreu no parto. Os dois constroem uma família que não veio de nascimento nenhum. Em determinado ponto, o pescador diz ao garoto que todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e que a solidão é, sobretudo, a incapacidade de enxergar alguém como pertencendo à gente. O título do livro é essa frase. Ou seja: a obra que afirma que a perda não termina afirma também, em outra página, que ninguém está sozinho de verdade.

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A pesquisa sobre luto chegou a uma conclusão parecida por outro caminho. O modelo de estágios, com a ideia de aceitação final, foi abandonado há décadas pelos especialistas. O que se trabalha hoje é que o luto não acaba: ele oscila, alterna momentos de enfrentamento e de pausa, e a relação com quem morreu continua existindo em outro registro, por meio de memória, de objetos e de gestos repetidos. Não é falha de elaboração. É o funcionamento normal.

A frase, portanto, descreve corretamente metade do fenômeno, e o restante do romance descreve a outra. A perda permanece e o vínculo também. Quem guarda apenas a primeira parte fica com uma sentença; quem lê o livro fica com um argumento. E vale dizer o óbvio: luto não é doença e não precisa de tratamento por definição. Quando ele incapacita, quando a vida não retoma nenhum curso depois de muito tempo, aí sim o acompanhamento de um profissional de saúde mental faz diferença.

Você pode gostar de ver também que William B. Irvine, filósofo americano, escreveu: “A maneira mais fácil de alcançar a felicidade é aprender a querer as coisas que já temos”.