Quem perdeu a mãe conhece um detalhe que ninguém avisa. A dor do primeiro mês é esperada, tem nome, e todo mundo ao redor sabe o que dizer. O que ninguém prepara é o que vem depois: o aniversário de casamento em que ela faria a sobremesa, a notícia boa que não tem para quem contar, o gesto que a pessoa se pega repetindo dez anos depois. A perda não fica parada no passado. Ela reaparece.
Valter Hugo Mãe, escritor português nascido em Angola, registrou essa reaparição em uma frase de “O Filho de Mil Homens”, romance publicado em 2011. A formulação é curta e não oferece consolo nenhum, e talvez seja por isso que ela circula tanto entre quem passou por isso.
Quem perdeu a mãe perde para sempre e nunca mais para de perder.
Vale separar as duas metades, porque elas dizem coisas diferentes. “Perde para sempre” descreve a definitividade: não existe reversão, e a pessoa que morreu não volta. “Nunca mais para de perder” descreve outra coisa, que é a repetição. Não é uma perda que aconteceu, é uma perda que continua acontecendo, em parcelas, ao longo de décadas. É a segunda metade que reconhece o que quase nenhum discurso sobre superação reconhece.
O romance, porém, não termina aí, e é aqui que a citação isolada empobrece o livro. A história acompanha um pescador que chega aos quarenta anos aceitando a tristeza de não ter tido filho, e um menino cuja mãe morreu no parto. Os dois constroem uma família que não veio de nascimento nenhum. Em determinado ponto, o pescador diz ao garoto que todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e que a solidão é, sobretudo, a incapacidade de enxergar alguém como pertencendo à gente. O título do livro é essa frase. Ou seja: a obra que afirma que a perda não termina afirma também, em outra página, que ninguém está sozinho de verdade.
A pesquisa sobre luto chegou a uma conclusão parecida por outro caminho. O modelo de estágios, com a ideia de aceitação final, foi abandonado há décadas pelos especialistas. O que se trabalha hoje é que o luto não acaba: ele oscila, alterna momentos de enfrentamento e de pausa, e a relação com quem morreu continua existindo em outro registro, por meio de memória, de objetos e de gestos repetidos. Não é falha de elaboração. É o funcionamento normal.
A frase, portanto, descreve corretamente metade do fenômeno, e o restante do romance descreve a outra. A perda permanece e o vínculo também. Quem guarda apenas a primeira parte fica com uma sentença; quem lê o livro fica com um argumento. E vale dizer o óbvio: luto não é doença e não precisa de tratamento por definição. Quando ele incapacita, quando a vida não retoma nenhum curso depois de muito tempo, aí sim o acompanhamento de um profissional de saúde mental faz diferença.
Você pode gostar de ver também que William B. Irvine, filósofo americano, escreveu: “A maneira mais fácil de alcançar a felicidade é aprender a querer as coisas que já temos”.
