Existe uma conta que quase todo mundo já fez e ninguém conferiu depois. A pessoa define um número que resolveria: o salário, o tamanho do apartamento, o valor na reserva. Quando chega lá, o número não resolve, e outro aparece no lugar. A conta se refaz sozinha, sempre um degrau acima de onde a pessoa está, e o alívio prometido é adiado para a próxima versão dela.
Epicuro observou esse mecanismo no século 3 antes de Cristo e localizou o problema em um lugar inesperado. Para ele, a insatisfação não vem da quantidade que se tem. Vem do critério que se usa para avaliar qualquer quantidade. Quem julga insuficiente o que possui carrega esse julgamento junto, e ele se aplica igualmente ao que vier depois.
Nas palavras de Epicuro, nada satisfaz o homem que não se satisfaz com pouco.
A formulação é uma armadilha lógica, e é aí que está a força dela. Se a suficiência dependesse do montante, existiria um ponto em que ela chegaria. Como depende do modo de medir, e o modo de medir não muda quando o montante aumenta, o ponto nunca chega. É por isso que quem ganha mais raramente se sente mais tranquilo, e que a próxima conquista dura menos do que a anterior.
A frase chegou até hoje por caminhos indiretos, o que vale registrar. Epicuro escreveu muito e quase nada sobreviveu inteiro. Esta passagem é conhecida por meio de Eliano, autor romano que a registrou em “Varia História”, no livro 4, e circula em inglês desde uma tradução do século 17. Ela também foi retomada pelo filósofo americano William B. Irvine, que a cita em seu livro sobre estoicismo para explicar por que desejar o que já se tem é mais eficiente do que perseguir o que falta.
A frase não é elogio da pobreza nem defesa de viver com menos, e essa é a leitura que mais circula. Epicuro não pedia renúncia: ele distinguia desejos naturais e necessários, como comida e abrigo, de desejos vazios, que não têm limite porque não correspondem a nenhuma necessidade real. Os primeiros são satisfazíveis e baratos. Os segundos não são satisfazíveis em nenhuma quantidade, e é sobre eles que a frase fala. Também não se aplica a quem não tem o suficiente para viver: dizer a alguém em privação que o problema é a régua seria inverter o argumento.
Vale fazer o teste com a sua própria conta. Escreva o número que resolveria hoje, e depois procure o número que você teria escrito há cinco anos. Se o antigo já foi alcançado e não resolveu, o problema não estava nele.
*Este material foi gerado com ajuda da inteligência artificial e revisado por jornalistas.
