Mayara da Rosa cresceu no meio de caminhões e na estrada. Foi uma decisão natural, portanto, querer seguir esse caminho quando a adultice chegou. Catarinense de Imbituba, Sul do Estado, ela escolheu a profissão, mas uma estrada diferente: junto com o marido, Carlos Alberto Jr, ela roda pela Europa de caminhão e compartilha a jornada nas redes sociais.
A ida para a Europa tem cerca de nove anos. Decidiram largar os empregos — ele, na construção civil, e ela, em uma fábrica de roupa de cama — e atravessaram o Atlântico rumo à Espanha em busca de uma vida melhor.
A escolha do país não foi por acaso: quando criança, Mayara morou com os pais (também caminhoneiros) na Espanha. Chegaram primeiro lá, no entanto, sem conseguir trabalho no país, decidiram ir para Portugal, onde fixaram residência no Algarve, região famosa mundialmente por suas extensas praias de águas cristalinas e mais de 300 dias de sol por ano.
O casal nem vê todos esses dias ensolarados, no entanto, já que passam a maior parte do tempo na estrada. Segundo Mayara, são cerca de 20 dias trabalhando direto e três ou quatro dias em casa, descansando.
Vida na estrada é coisa de família
Ao chegarem na Europa, Carlos começou primeiro na profissão, e um ano depois Mayara se juntou a ele. “A estrada sempre fez parte da nossa história, muito antes de nós dois imaginarmos que um dia estaríamos trabalhando juntos nela”, conta.
É que além dos pais de Mayara, o pai do Carlos também é caminhoneiro. A catarinense viveu uma infância nas estradas da Europa, um caminho parecido ao que ela e o marido traçam hoje em dia.
“Eu também viajava com eles no caminhão. Passei uma parte da minha infância acompanhando meus pais pelas estradas da Europa, até chegar a idade de começar a ir para a escola. Então posso dizer que realmente cresci no meio dos caminhões e da estrada”, relata a caminhoneira.
As coinciências não param por aí: a empresa que ela e o marido prestam serviço atualmente é a mesma para qual os pais de Mayara trabalhavam na infância dela. “Parece que a história acabou se repetindo, só que agora sou eu que estou vivendo aquilo que um dia vi meus pais viverem”, afirma.
Nascida em Imbituba, a catarinense foi para a Espanha com os pais com cerca de 2 anos. Depois, na adolescência, a família voltou para a cidade catarinense. Foi lá que namorou, casou e começou uma vida ao lado do marido, Carlos.
A vontade de largar tudo no Brasil e tentar uma vida melhor na Europa esteve sempre presente. Até que decidiram tentar.
Casal levou quatro anos para conseguir trabalhar com caminhão
Foi cerca de uma semana depois de chegarem a Portugal que conseguiram trabalho. Mas ainda demoraria até conseguirem trabalhar no caminhões. É que o processo para pilotar os veículos profissionalmente é longo e exige todo um processo.
“O Carlos começou a organizar a documentação e tirou a carteira de caminhão em Portugal. Depois eu fui para a Espanha e tirei a minha. Para trabalhar profissionalmente com caminhão, existe todo um processo: primeiro é preciso tirar a categoria C, depois a C+E, além do CAM e de toda a documentação necessária”, conta a motorista.
Entre trabalho, documentos, cartas, cursos e todo esse processo, levamos cerca de 4 anos até finalmente conseguirmos começar nos caminhões.
Brasileiros passam cerca de 20 dias na estrada com jornadas de até 21 horas
Hoje, morando em Portugal, eles trabalham juntos fazendo transporte internacional pela Europa. O dia a dia nas estradas, segundo Mayara, é bem diferente do Brasil. Começa pela qualidade das rodovias, que segundo ela geralmente são muito boas. Mas a neve, o trânsito, e lugares apertados para entrar com o caminhão são alguns dos perrengues passados pelo casal.
“Inclusive em Portugal existem empresas em lugares tão apertados que a gente olha e pensa, ‘não é possível que querem que eu entre com um caminhão aqui’. Mas, no final, sempre damos um jeito”, reflete.
A barreira linguística é, às vezes, uma dificuldade. Ambos falam português e espanhol, além do básico do inglês. “Quando chegamos a algum lugar onde não conseguimos nos comunicar, recorremos ao famoso Google Tradutor. E quando nem isso resolve, vai na mímica mesmo”, brinca Mayara.
Além das dificuldades de acessar, os cerca de 20 dias seguidos na estrada exigem que o casal durma dentro do caminhão. Por sorte, conforto não falta na boléia. Cama, ar-condicionado e comodidades ajudam a não passar sufoco com o calor do verão europeu ou o frio que vem no inverno. O mais complicado são os horários, segundo ela.
“Como trabalhamos em dupla, conseguimos rodar por muito mais tempo. Em condições normais, cada um pode conduzir por até nove horas e a nossa jornada pode chegar a cerca de 21 horas. Por isso, acabamos trabalhando praticamente todas as noites”, narra a caminhoneira. “Muitas vezes o nosso descanso acontece durante o dia, e aí vem outra dificuldade , conseguir dormir direito de dia… Tem dias em que o corpo simplesmente sente”.
Não é uma vida fácil. Trabalhar em dupla significa passar praticamente 24 horas juntos dentro de um espaço pequeno, trabalhar de madrugada, dormir durante o dia e estar constantemente longe de casa.
De caminhão (e bike) pela Europa
Apesar das dificuldades, a vida no caminhão proporciona também experiências incríveis, segundo Mayara. Graças à profissão, eles podem rodar por países da Europa que a maioria dos brasileiros nunca conheceu. Em uma das viagens mais longas, eles foram para a Letônia, a mais de 3 mil quilômetros de Portugal. Também já foram para a Suécia e outros países nórdicos.
Mesmo a trabalho, Mayara e Carlos sempre tentam aproveitar um pouco de cada lugar. Sabendo que têm alguns dias a mais em alguns lugares, eles levam bicicletas no caminhão. Nas pausas, estacionam o veículo, tiram as bikes e saem para explorar.
Foi assim que conseguimos conhecer muitos lugares incríveis pela Europa enquanto trabalhamos. Às vezes estamos fazendo uma entrega em outro país e, algumas horas depois, estamos de bicicleta conhecendo uma cidade que nunca imaginávamos visitar. Essa é uma das coisas mais legais da nossa profissão, ao mesmo tempo em que trabalhamos, também temos a oportunidade de conhecer países, culturas e lugares diferentes. O caminhão acabou nos levando muito além do que imaginávamos.
Um dos momentos mais recentes, que viralizou, foi o eclipse solar da última quarta-feira (12), que o casal conseguiu acompanhar na Espanha.
Cinco anos sem voltar pelo Brasil
Desde que o casal foi para a Europa, há cerca de nove anos, eles só conseguiram voltar para o Brasil em duas ocasiões. A primeira temporada europeia durou cerca de cinco anos sem voltar para casa. As primeiras “férias” com a família duraram cerca de dois meses. Depois, foram mais quatro anos antes de conseguirem retornar a Imbituba, em março deste ano. Eles voltaram para Portugal em maio.
“Agora queremos nos organizar para não passar tantos anos longe e conseguir voltar com mais frequência. Sempre precisamos nos planejar muito bem para essas viagens”, afirma Mayara.
E, sem dúvida, a maior dificuldade de morar fora é a saudade.
Nossos pais estão no Brasil e essa é a parte que mais pesa para nós. Sentimos falta da nossa família, de estar todo mundo reunido, das comidas aí do Sul, claro, de Imbituba, que para nós é um lugar encantador e sempre vai ser a nossa casa. São coisas simples que, quando estamos longe, passam a ter um valor completamente diferente.
O que não aparece nas redes sociais
Foi justamente pela vida tão diferente que Mayara decidiu compartilhar a rotina no Instagram. No começo, postava para os amigos que tinham curiosidade. Foi mostrando um pouco das viagens, das estradas e da rotina da profissão.
“Com o tempo, fui compartilhando cada vez mais, os países por onde passamos, os perrengues, as noites trabalhando, os lugares que conhecemos, nossas aventuras de bicicleta e também muitas outras coisas boas”, conta.
Mas existe uma parte que nem sempre aparece nas redes sociais. “A vida de imigrante não é fácil”, afirma a caminhoneira. “Quem vê de fora muitas vezes enxerga os países, as viagens, o caminhão e as conquistas. Mas existe muita coisa por trás disso. Foram anos correndo atrás de documentos, trabalhando, estudando para conseguir as cartas, passando noites sem dormir, sentindo saudade da família e tentando construir uma vida longe de tudo aquilo que conhecíamos. Várias vezes já pensamos em desistir“, revela.
O casal segue, no entanto. A fé tem balizado a vida de ambos, e quando bate a saudade, é em Deus que eles se apoiam. “Porque temos certeza de que Deus tem nos sustentado e nos guardado durante todos esses anos, em cada viagem, em cada estrada, em cada dificuldade e em cada momento em que pensamos que não conseguiríamos continuar”, afirma.
A estrada, que sempre fez parte da vida de Mayara, segue fazendo e deve continuar por muitos anos. “Seguimos por ela trabalhando, conhecendo lugares, enfrentando os perrengues, realizando nossos sonhos e, acima de tudo, confiando que Deus continuará guiando e protegendo cada quilômetro da nossa caminhada”, conclui.







