Benedito Novo vira maior reduto bolsonarista em SC e moradores citam de religião a bons costumes

Benedito Novo, no Vale do Itajaí, foi a cidade catarinense que deu a maior votação ao presidente Jair Bolsonaro (PL) no 1º turno

Compartilhe:

Benedito Novo, no Médio Vale do Itajaí (Foto: Patrick Rodrigues/Santa)

É começo de tarde de segunda-feira e Benedito Novo está silenciosa. O vento fraco balança as bandeiras do Brasil exibidas diante das casas e ajuda a refrescar um dia abafado, de sol entre nuvens. O rio que corta a cidade está cheio e há risco de enchente em outros pontos da região, mas não é esse o assunto do momento. Nas últimas semanas, a preocupação com o futuro do país tem sido tema mais corriqueiro entre vizinhos, colegas de trabalho e conversas de família. Uma pergunta tem ocupado a mente dos moradores e gerado discussões em busca de uma explicação: 

Continua após a publicidade

– Onde estão essas pessoas que votaram no Lula?

A dúvida de Elisabete Fernandes, 49 anos, resume o título que Benedito Novo obteve no 1º turno das eleições deste ano. O município no Médio Vale do Itajaí foi quem teve a maior votação proporcional para o atual presidente Jair Bolsonaro (PL) em SC no dia 2 de outubro. Na cidade onde 78,41% se mostraram bolsonaristas nas urnas, ninguém esconde a preferência pelo candidato, e as pessoas têm dificuldade em acreditar que exista quem pense diferente.

Continua após a publicidade

> Receba notícias de Blumenau e do Vale pelo WhatsApp

– O povo está revoltado de ter tido mais de mil votos para o PT. Você não ouve ninguém falar que vota no Lula. Como é que ganhou isso tudo? – diz Elisabete. 

Benedito Novo fica entre morros e tem a tranquilidade típica de um município de quase 12 mil habitantes. São 8.245 eleitores aptos a votar, conforme o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No 1º turno, de acordo com o TSE, dos 6.811 que compareceram às urnas, 5.129 escolheram Bolsonaro para ocupar o Palácio do Planalto, enquanto 1.009 optaram por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o que representou 15,43%. O número do petista surpreendeu boa parte dos moradores. E não é difícil entender o porquê.

Nos comércios do Centro, pequenas e grandes bandeiras do Brasil enfeitam as vitrines. Também é comum observar o símbolo nacional pendurado na frente das casas ou hasteado nos quintais. Adesivos com o número do candidato do Partido Liberal (PL) ocupam espaços nos vidros dos carros e até em cones nas ruas de Benedito Novo. 

Continua após a publicidade

David Neitzke trabalha na borracharia do pai com um boné que leva o nome de Bolsonaro. Ele conta que comprou o item pela internet para ajudar na campanha. Para ele, só não vota no atual presidente quem tem inveja dos patrões, que ganharam mais dinheiro nos últimos anos e também quem é desinformado ou malandro.

– Por que o lado de cima (do mapa do Brasil) é vermelho? Porque lá precisam de mais assistencialismo. Aqui, não trabalha quem não quer – opina Neitzke.

Continua após a publicidade

Conforme levantamento feito pela prefeitura a pedido da reportagem, 391 famílias de Benedito Novo precisam de algum tipo de ajuda governamental. Dessas, 134 sacam o Auxílio Brasil, que beneficia pessoas em situação de pobreza, ou seja, que sobrevivem com renda familiar mensal per capita de até R$ 210. Outras 141 famílias participam do Benefício de Prestação Continuada, que garante um salário mínimo ao idoso com mais de 65 anos e a pessoas com deficiência de qualquer idade.

Cidade onde tudo é muito pacífico

– Aqui, não tem necessitados, dificilmente vem alguém pedir comida (na pastelaria em que ela é dona). Os preços dos alimentos estão caros, mas dá para levar – comenta a comerciante Elisabete Fernandes. 

Continua após a publicidade

Enquanto Elisabete responde sentada perto do balcão, a funcionária Sônia de Fátima Ribeiro, 45 anos, que lava a louça atrás dela, discorda com um franzir de testa, um aperto nos lábios e uma frase que diz firme: 

– É verdade, tem bastante emprego, mas nem todo mundo tem as mesmas condições. Tem quem não consiga mais comprar feijão. Não acho que a vida tenha melhorado. 

Continua após a publicidade

Sônia é uma dos 143 benedito-novenses que anulou o voto para presidente no dia 2 de outubro. Ela diz não se sentir representada pelos dois candidatos e ali, discordando de algumas falas da chefe, exemplifica a pacificidade da cidade, mesmo politicamente. 

Para a prefeita Arrabel Lenzi Murara (MDB), 56 anos, essa é uma das virtudes do município que lidera. Apesar de nas redes sociais alguns debates ficarem mais acalorados, na vida real não há bate-boca por divergências políticas, garante ela:

Continua após a publicidade

– Até porque o outro lado (esquerda) fica mais quieto, não se manifesta no dia a dia. Mas merece o nosso respeito. Aqui, tudo é muito pacífico. Acho que a cidade escolheu Bolsonaro por ser mais conservadora, por conta desse sentimento que tomou conta da nossa região – avalia.

Arrabel foi a primeira mulher eleita prefeita na história da cidade. Compactua com pensamentos mais conservadores e é do MDB, partido que alterna o poder do Executivo municipal com o PP. Não à toa, MDB e PP são maioria também na Câmara de Vereadores. Dos nove parlamentares, sete são de uma das duas siglas. Na hora de escolher o presidente, no entanto, as bases partidárias não são determinantes.

Continua após a publicidade

Prova disso foi a eleição de 2018, quando Bolsonaro, então no PSL, um partido desconhecido, fez 88,54% no 2º turno. Em 2014, Aécio Neves, do PSDB, fez 77,27% no 1º turno da disputa, conforme dados do TSE. Na hora de escolher quem deve governar o país, a decisão dos eleitores de Benedito Novo é geralmente pautada em outros aspectos, observa o ex-prefeito Jean Michel Grundmann (PP):

– O perfil do eleitor é votar na pessoa, não na sigla. Os escândalos do PT fizeram com que outro candidato fosse escolhido. Outro fator é que as pessoas são de origem europeia, a qual a disciplina é fundamental. E o candidato que representa esses critérios de disciplina, da pauta da família e etc é melhor recebido – analisa ele, que foi prefeito por oito anos, até 2020.

Continua após a publicidade

“As maiores arrecadações vêm das indústrias”, diz secretário de Finanças

Zaqueu Ferreira de Paula, 35 anos, mora em Benedito Novo há 15 anos e trabalha com artesanato. Trocou Blumenau por uma vida mais calma e vive com a esposa e filhas em uma casa de madeira, de muros baixos, no Centro. Na varanda, pendurou uma toalha com a foto do presidente e a frase “Fechado com Bolsonaro”. Ao lado dela está a bandeira do Brasil, que o artesão não pretende mais tirar, por se sentir patriota.

Ele acredita que Bolsonaro trouxe esse sentimento de patriotismo, como existe nos Estados Unidos, e ensinou sobre a valorização da família, liberdade e conservadorismo. Acha que a mídia “tomou um lado pelo mal do país” e opta por se informar principalmente pelas redes sociais. Em uma cidade com expressiva quantidade de áreas rurais (são 700 quilômetros de estrada de chão no município), a facilidade na compra de agrotóxicos e maquinário no governo Bolsonaro também é um ponto positivo, na visão de Zaqueu.

Continua após a publicidade

É o arroz o alimento que predomina nas plantações que movimentam a economia local, explica o secretário municipal de Administração e Finanças, Ronalf Schmidt. Porém, expõe que diferente do que diz o último censo do IBGE, de 2010, a agricultura já não tem o mesmo peso para Benedito Novo como tinha no começo do século 21.

– As maiores arrecadações de impostos vêm das indústrias e energia elétrica (a cidade tem a Cooperativa Geradora de Energia Elétrica, a Ceesam). 

Continua após a publicidade

São três indústrias de papel e duas de madeiras, que exportam. Neste ano, dos 110 empregos criados no município até agosto, 66 deles foram no setor industrial, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Não há um polo industrial na cidade, já que os poucos espaços planos são cercados por morros ou rios. A colonização alemã, seguida da italiana e polonesa ditam a arquitetura de muitos imóveis, mas não só isso. A cidade carrega em si a valorização das tradições e do trabalho, destaca David Neitzke. 

Na borracharia que administra com o pai, a vida laboral é intensa, e viu o lucro aumentar nos últimos anos, a ponto de expandir o galpão. Espera que Bolsonaro seja reeleito para que ele pague menos impostos e que, com isso, haja o que ele classifica como “diminuição do Estado”.

Continua após a publicidade

– Tudo que é estatal é horrível, a privatização é melhor – defende. 

Neitzke tem 27 anos e trancou a faculdade de Comércio Exterior, mas pretende voltar a estudar. Nascido e criado em Benedito Novo, sempre estudou em escola pública, já que nenhuma das oito creches e sete escolas da cidade são privadas. Na Saúde, o único hospital e os quatro postinhos também atendem somente pelo SUS. E sobre eles só saíram elogios entre todos os entrevistados ouvidos pela reportagem. 

Continua após a publicidade

– A saúde é ótima aqui. O povo é consciente, não vai para o posto por qualquer coisa, então nunca tem fila. Tenho plano de saúde, mas aí para usar preciso ir a Blumenau ou outra cidade aqui perto. Então, para coisas menores, acabo usando o posto – conta o jovem empreendedor. 

Foi no posto que ele recebeu a vacina contra o coronavírus e levou o pai, que não acreditava na eficácia, a também se imunizar. Segundo dados do governo federal, 7.821 moradores tomaram a 1ª dose do imunizante ou dose única, o que significa 66% da população, número inferior à média estadual, de 85%. Apenas 5.715 (48%) voltaram para tomar a 2ª dose, também abaixo dos 81% do Estado e 79% da taxa brasileira de totalmente imunizados.

Continua após a publicidade

“Tudo tem dois lados”, diz eleitora de Lula

Rose Mengarda é contadora do município há 17 anos. Mora na vizinha Timbó, mas gosta da rotina na prefeitura de Benedito Novo. Nestas eleições, votou e pretende votar no 2º turno em Lula. Mesmo minoria no ambiente de trabalho quando o assunto é política, diz que as provocações em tom de brincadeira “entram por um ouvido e saem por outro”. 

– A democracia tem que ser pautada em respeito. Não tem como entrar em embate, tudo tem dois lados – avalia Rose. 

Continua após a publicidade

Para ela, a população rejeita o PT por conta dos casos de corrupção que vieram à tona durante o governo petista. E a predileção por Bolsonaro surge, entre outros, na cultura mais conservadora que a região carrega. David e Zaqueu ressaltam que o presidente não é um político de estimação. Ele representa a ideologia que a maioria da população de Benedito Novo acredita, que engloba valores como a religião, o trabalho, a família, o conservadorismo e os bons costumes.

Em SC, dos 295 municípios, 263 deram a maioria dos votos a Bolsonaro. Apenas em 32 Lula ganhou do adversário. Benedito Novo é, então, uma pequena amostra do que ocorre em outras cidades do país.

Continua após a publicidade

Vídeo mostra cidade mais bolsonarista e a mais lulista de SC

Leia também

Tudo que você precisa saber sobre as eleições 2022

Pico de mortes na pandemia em SC ficou abaixo da média nacional, diz pesquisa