Um registro autobiográfico deixado por Juscelino Kubitschek confirma que a criação da Capital Federal teve como uma de suas inspirações uma viagem ao Egito, realizada ainda na juventude do político mineiro. Durante a passagem pelo país africano, o então estudante de medicina percorreu o sítio arqueológico de Tell el-Amarna, onde ficavam as ruínas de Akhetaton, cidade planejada no século XIV a.C. pelo faraó Akhenaton. O relato, documentado no livro Meu Caminho para Brasília, serve de ponto de partida para estudos de historiadores e egiptólogos sobre semelhanças estruturais, geográficas e temporais entre as duas capitais.
FOTOS: O enigma que une a arquitetura de Brasília a uma antiga capital do Egito
No texto, JK detalhou que a admiração pela figura histórica de Akhenaton começou em leituras durante a juventude em Diamantina e culminou na visita de campo às ruínas da antiga sede política egípcia. Décadas depois, ele registrou que a experiência no deserto permaneceu como uma referência direta para o projeto de transferir o centro político nacional para o interior do país.
Traçado urbano de Akhetaton e a nova capital
Os paralelos entre os dois projetos aparecem na geometria e na orientação espacial de Brasília. A planta original de Akhetaton foi desenhada na forma de uma ave voltada para o Leste, em alusão ao Íbis, pássaro sagrado da mitologia egípcia. O Plano Piloto desenhado por Lúcio Costa repete a orientação ao Leste e a mesma forma arqueada, frequentemente associada a um pássaro ou a um avião em voo.
As soluções de engenharia adotadas para enfrentar a aridez climática também coincidem. Ambas as capitais foram erguidas no interior de regiões secas e dependeram da criação de lagos artificiais para regular a umidade e garantir o abastecimento de água. No Egito antigo, a obra foi viabilizada pelo Lago Moeris, construído a partir do Rio Nilo. No Planalto Central, a retenção de cursos resultou no Lago Paranoá.
Além dos dados físicos, os cronogramas de execução e marcos biográficos registram coincidências. Tanto Akhetaton quanto a capital brasileira foram construídas em cerca de quatro anos. No campo biográfico, o faraó Akhenaton e o presidente Juscelino Kubitschek morreram exatamente 16 anos após a inauguração de suas respectivas cidades.
Arquitetura de Oscar Niemeyer e monumentos piramidais
Pesquisadores e egiptólogos identificam elementos da volumetria egípcia nos principais prédios públicos do Eixo Monumental. O Memorial JK, projetado no ponto mais elevado da avenida para receber a cripta do ex-presidente, adota o modelo das mastabas, túmulos do Egito Antigo caracterizados por bases largas e topos planos, sem o topo pontiagudo das pirâmides convencionais.
O conceito de iluminação da Catedral Metropolitana também reflete o modelo dos templos solares construídos por Akhenaton. O acesso dos fiéis ocorre por meio de uma galeria subterrânea sem iluminação que desemboca diretamente em uma nave circular exposta à luz natural contínua. Na parte externa, quatro esculturas monumentais de evangelistas ladeiam a entrada, de forma correspondente às estátuas de sentinelas instaladas nos portais dos templos egípcios.
A geometria de pirâmides aparece ainda no Teatro Nacional, projetado como uma estrutura escalonada de faces inclinadas sem ápice. Em área próxima, o Templo da Boa Vontade ergueu uma pirâmide de sete faces, mantendo em seu interior uma sala decorada com painéis e símbolos visuais da estética do Egito Antigo.
História oficial e registros da fundação
Apesar das citações do memorial JK e das correspondências visuais, instituições técnicas tratam as correlações formais como coincidências de projeto. A Fundação Oscar Niemeyer ressalta que o arquiteto não visitou o Egito antes de conceber os edifícios de Brasília e que suas linhas tiveram como base o modernismo europeu e a produção teórica de Le Corbusier.
Da mesma forma, os relatórios do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a memória de cálculo de Lúcio Costa atestam que o traçado do Plano Piloto seguiu os preceitos de zoneamento funcional da Carta de Atenas, adaptando o formato clássico de cruz à topografia e às bacias hidrográficas locais. Para a historiografia, os paralelos permanecem restritos ao campo do imaginário social e aos registros biográficos do próprio fundador.
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*Com edição de Luiz Daudt Junior.


















