Hoje no centro de uma polêmica por conta do pedido de recuperação judicial e uma dívida bilionária, a Casas Bahia nasceu com o propósito de atender a classe média. Lá atrás, o fundador Samuel Klein enxergou uma oportunidade nesse público. Ele acreditava, como chegou a dizer em entrevistas, que quanto mais pobre, mais honesta era uma pessoa. Assim, todos conseguiam, sem grandes obstáculos, fazer compras na loja e parcelar no carnê.
Ao todo, a Casas Bahia possui uma dívida de cerca de R$ 17,3 bilhões, segundo o documento de recuperação judicial acessado pela Folha de São Paulo. A rede precisou fechar 298 lojas em 2026, com prejuízo de R$ 10 bilhões. Com isso, mais de 1,9 mil colaboradores foram demitidos em todo o Brasil. Somente em Santa Catarina, 18 das 23 lojas foram fechadas.
Entenda em 8 pontos a crise nas Casas Bahia
Os tempos de ouro da Casas Bahia
Antes de toda a crise, porém, houve os tempos de ouro. A Casas Bahia foi fundada pelo imigrante polonês que morava em São Caetano do Sul (SP), onde começou a vida no Brasil vendendo artigos de cama, mesa e banho de porta em porta, pilotando uma charrete. Já naqueles anos de 1950, abriu a própria loja. O nome, “Casa Bahia”, foi uma homenagem aos primeiros clientes.
Seguindo a mesma estratégia antes de ter o ponto fixo, Klein vendia os produtos a prestação e, diante de uma clientela de baixa renda, percebeu que oferecer crédito para a classe C — termo que sequer existia à época — era bastante vantajoso.
Pela minha experiência, posso dizer que quanto mais pobre uma pessoa, mais honesta ela é.
A lojinha de Klein cresceu
A pequena loja em São Caetano do Sul começou a crescer. Da roupa de cama, mesa e banho vieram os móveis, colchões, eletrodomésticos e uma infinidade de outros itens. O negócio prosperou, chegou a São Paulo e Baixada Santista em 1964 e, dali para frente, um verdadeiro império foi erguido no Brasil, com centenas de unidades espalhadas pelos estados.
Klein permaneceu à frente do negócio por meio século, e mesmo depois de transferir a gestão para os filhos Michael e Saul, continuou frequentando a empresa até 2012, dois anos antes da morte deles aos 91 anos.
Sem ensino superior e extremamente simpático, Klein fez fortuna com a venda a prazo no carnê, que todo mês obrigava o freguês a visitar a loja para pagar — o que normalmente rendia novas compras. O imigrante fez sucesso no varejo, mas o legado, agora, enfrenta um capítulo dramático.
Afundada em dívidas
Conforme o relatório com os resultados do segundo trimestre de 2026, o balanço patrimonial consolidado, encerrado em 30 de junho, mostra que o valor da Casas Bahia a receber de clientes no mercado interno brasileiro era de R$ 2,73 bilhões. Desta forma, ao cruzar os valores, a dívida equivale a aproximadamente 30% de todo montante. É válido ressaltar que, essa proporção é uma estimativa e pode variar, já que os dados da Whirlpool refletem os números do período até 30 de junho.
Veja lista dos principais credores da Casas Bahia
Fabricantes de eletrodomésticos, fornecedores e instituições financeiras estão entre os credores da rede varejista. Além da Whirlpool, a Britânia, dona da Philco, está entre eles. Também aparecem marcas como LG, Electrolux, e Samsung.
- Banco Digio S.A. – R$ 3.277.992.595
- Banco do Brasil S.A. – R$ 2.990.270.072
- Zurich Minas Brasil Seguros S.A. – R$ 1.977.313.799
- Banco Bradesco S.A. – R$ 1.504.226.797
- IBCB-AF01 Fundo de Investimento em Direitos Creditórios – R$ 1.085.199.837
- ICMS – R$ 1.049.858.144
- Samsung Eletrônica da Amazônia Ltda. – R$ 937.614.841
- Intra S.A. – R$ 928.064.945
- Parcelamentos estaduais – R$ 880.192.207
- Riza Agronegócio Gestora de Recursos Ltda.- R$ 803.805.363
- Whirlpool S.A. – R$ 800.949.800
- Redasset Gestão de Recursos Ltda. – R$ 708.039.413
- Electrolux do Brasil S/A – R$ 700.087.863
- LG Eletronics do Brasil LTDA – R$ 623.723.530
- Motorola Mobility Comércio de Produtos Eletrônicos – R$ 619.003.677
- MK BR S.A. – R$ 494.524.446
- Mapfre Seguros Gerais S.A. – R$ 388.000.000
- Britânia Eletrodomésticos S.A. – R$ 354.786.056
- Jive Investments Gestão de Recursos e Consultoria S.A. – R$ 354.215.016
O que diz a Casas Bahia sobre a recuperação judicial
O pedido de recuperação judicial foi ajuizado em um contexto de deterioração das condições econômicas e financeiras enfrentadas pela companhia, informou a Casas Bahia em comunicado. “[A empresa] foi impactada, dentre outros fatores, pelo ambiente macroeconômico desafiador, marcado por patamares elevados de taxas de juros, restrição de crédito, aumento do custo financeiro e pressão sobre o consumo e o capital de giro aliados à não concretização de alternativas de liquidez que vinham sendo estruturadas pela companhia”, diz.








