Mãe vendendo bala no semáforo reflete aumento da informalidade em SC

Trabalho sem carteira assinada atingiu 27,3% da população ocupada no Estado no quarto trimestre de 2021, segundo dados divulgados nesta quinta-feira

Compartilhe:

Patrícia vende doce no sinal em Brusque enquanto filho brinca na pracinha (Foto: Patrick Rodrigues)

O número de trabalhadores informais em Santa Catarina cresceu no quarto trimestre de 2021 e alcançou 27,3% das pessoas ocupadas no estado. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua), divulgados pelo IBGE nesta quinta-feira (24). Conforme o levantamento, cerca de um milhão de pessoas trabalham no Estado sem carteira assinada. 

Continua após a publicidade

Patrícia Vieira Costa Pereira, vendedora de balas em um semáforo de Brusque, é a face desse aumento. Quando ficou sem trabalho registrado, a alternativa para colocar comida na mesa foi comercializar doces na sinaleira. E o filho, que antes ficava com uma cuidadora, se tornou companheiro da mãe na beira da estrada. Enquanto ela vai em cada carro o oferecendo o doce, o filho brinca na pracinha.

> Receba as principais notícias de Santa Catarina pelo Whatsapp

Continua após a publicidade

A chefe de família perdeu o emprego formal em uma cafeteria da cidade do Vale do Itajaí há um ano. O salário de R$ 1,2 mil já não era o suficiente para fechar as contas no fim do mês e ela precisava recorrer à mãe. Mas, ainda assim, conseguia pagar uma pessoa para cuidar do menino de sete anos enquanto ia para o serviço. Hoje eles acordam e vão para o sinal juntos.  

Ao meio-dia, em uma sorveteria, o pequeno veste o uniforme e vai para a escola. 

— Esse é meu ganhão pão e com muita dor. Porque às vezes a gente sofre humilhação. Já chorei aqui, mas não tenho escolha. Aqui [em Santa Catarina] o custo de vida é alto, mas com muito esforço e suor você consegue se virar. Porque eu não quero voltar a Bahia, é mais complicado lá. Trabalhava uma semana inteira para receber apenas R$ 50 — desabafa. 

Santa Catarina é referência em geração de emprego no Brasil, mesmo no cenário de crise, e tem o menor índice de informalidade do país, inclusive com um percentual expressivamente abaixo da média nacional – que é de 40,1%. Mas isso não significa que a população do Estado tenha passado ilesa pela situação econômica imposta pela Covid-19. O percentual de informalidade está em ascensão em SC.

Continua após a publicidade

Do terceiro para o quarto semestre de 2021, são 44 mil trabalhadores a mais atuando sem registro em relação ao período anterior. Considerando que de outubro a dezembro do ano passado mais 98 mil pessoas entraram para as estatísticas como ocupadas, isso quer dizer que a metade está na informalidade. É uma saída para muitos, porém há um preço a ser pago por isso, explica o professor de economia da Furb, Jamis Piazza: 

— Quanto mais baixa a informalidade, melhor para o sistema econômico. Porque na informalidade esse trabalhador deixa de contribuir para o INSS e se prejudica no futuro, em razão da aposentadoria, além de não ter salário fixo, férias, décimo terceiro e auxílio em caso de doença. É preciso cuidado também porque nesse cenário muitas vezes o próprio mercado se aproveita para não pagar os tributos, que é de onde vem o dinheiro para investimentos públicos em saúde, educação e infraestrutura, por exemplo.

Continua após a publicidade

O especialista ressalta que a informalidade sempre existiu, mas é acentuada em cenários de crise econômica, quando o desemprego aumenta e as pessoas buscam alternativas para sobreviver. Quando novos postos de trabalho voltam a ser gerados, a tendência é esse indicador cair, porque as pessoas são reabsorvidas para essas vagas antes fechadas. 

Leia também > Pobreza cresce e mercado de Brusque doa frutas e verduras aos necessitados

Continua após a publicidade

Veja ainda > Famílias desocupam área invadida em Blumenau, mas vivem entre angústia e improviso

Porém, ele alerta que quem tem pouca qualificação sofre mais nesse cenário. Apesar de ter feito o curso de Magistério, Patrícia não encontra um trabalho que a remunere de forma suficiente para custear as despesas de casa, com aluguel, água, luz, comida. A inflação também atinge em cheio quem já tem pouco. A chefe de família não ganha muito e paga tudo cada vez mais caro. 

Continua após a publicidade

Queda no rendimento médio do catarinense

Dados da PNAD apontam queda de R$ 273 no rendimento médio habitual de todos os trabalhadores em Santa Catarina entre o 4º semestre de 2020 e o 4º semestre de 2021. Na data em que conversou com o Santa, em 17 de fevereiro, a baiana havia conseguido vender R$ 30 em balas até as 14h50min. E entre um carro e outro, ainda precisava lidar com a preocupação de não ser flagrada por um fiscal da prefeitura. 

— Muitas dessas pessoas que foram demitidas durante a pandemia não serão admitidas, porque o mercado está cada vez mais exigente. E se essas pessoas não têm a possibilidade de entrar novamente no mercado de trabalho, automaticamente vão permanecer na informalidade. Ou se especializam, ou será essa realidade — constata Piazza.

Continua após a publicidade

A baiana veio para SC há noves anos e tem mais uma filha, além do garoto. A adolescente de 17 anos chegou há um mês no estado, pois até então vivia com a avó na região Nordeste do Brasil. A expectativa de Patrícia, apesar das dificuldades enfrentadas, é que a jovem consiga um emprego ou então fique em casa com o menor para a mãe poder trabalhar tranquila. Por enquanto, recebe ajuda da assistência social. 

— Eu fico angustiada. Coloco a cabeça no travesseiro e fico pensando no amanhã. Eu gostaria de dormir para sempre, mas aí lembro que tenho duas pessoas que precisam de mim. É pedir força a Deus para me sustentar e eu ir trabalhar — conta. 

Continua após a publicidade

Para Piazza, é preciso política pública para reverter a situação de pessoas como a vendedora de balas. Patrícia conta não ter condições de voltar aos estudos, mas se esforça ao máximo para garantir que os filhos permaneçam nos bancos escolares. A menina, assim que chegou a Brusque, foi matriculada no colégio. E o pequeno, mesmo com três meses de mensalidade atrasada, mantém num curso de idiomas. 

— Tudo num país é educação, e mão de obra qualificada passar por isso. Muitas famílias hoje, em função do próprio poder aquisitivo, não têm condições de buscar qualificação. Teria de ter incentivo do governo para ter profissionais aptos a atender a demanda do mercado — frisa o economista. 

Continua após a publicidade

Os números do mercado de trabalho em SC no 4º trimestre de 2021

População ocupada – chegou a 3,81 milhões. É um aumento de 2,6%, em relação trimestre anterior, o que representa 98 mil pessoas a mais.

População desocupada – caiu para 172 mil. É uma redução de 17% se comparado ao 3º trimestre, com 35 mil pessoas a menos nessa classificação. 

Continua após a publicidade

Nível da ocupação – entre 5,94 milhões pessoas em idade de trabalhar, 64,2% estavam ocupadas. Crescimento de 1,6 ponto percentual em relação ao período anterior.

Rendimento médio – a queda no rendimento médio habitual de todos os trabalhos em SC entre o 4º semestre de 2020 e o 4º semestre de 2021, que foi de R$ 273.