Eles passam despercebidos, mas estão na sua refeição: pequenas partículas de plástico podem se infiltrar até em um pedaço de carne. Durante o preparo, se derretem e se misturam aos alimentos, solidificando de novo depois que esfriam.
Esses fragmentos quase invisíveis são classificados como microplásticos e nanoplásticos, com dimensões inferiores a 5 mm ou entre 1 e 1 mil nanômetros. Presentes em praticamente todo o ambiente, já chegam ao corpo humano por meio da comida e da água.
Pesquisadores já identificaram esses materiais em órgãos como placenta, artérias e até no cérebro.
“Plásticos baseados em materiais fósseis, nas suas formas micro e nanoparticuladas, foram encontrados em virtualmente todos os órgãos do corpo que foram estudados”, afirmou o professor Paul Anastas à BBC.
Da produção ao consumo
Microplásticos podem estar em frutas, verduras, ovos, carnes e até no sal. Isso ocorre tanto pelo contato com solos contaminados quanto pelo uso de plásticos nas etapas de processamento dos alimentos.
Segundo a pesquisadora Sheela Sathyanarayana, da Universidade de Washington, em entrevista à BBC, “as fábricas usam uma enorme quantidade de plástico para aumentar a eficiência e o rendimento dos produtos”.
Alguns cuidados podem ajudar a diminuir a ingestão dessas partículas. Lavar o arroz antes de cozinhar reduz até 40% da contaminação. Carnes e peixes também podem ser limpos, embora não se consiga remover tudo.
O sal marinho é um dos itens mais contaminados, reflexo direto da poluição dos mares. Já os produtos ultraprocessados costumam concentrar ainda mais microplásticos no processo de fabricação.
A influência da água e das embalagens
A água que consumimos também é uma fonte relevante, seja de garrafas ou da torneira. Um estudo mostrou que só o ato de abrir e fechar garrafas plásticas libera centenas de partículas por vez.
“Estão surgindo estudos que demonstram que existem muito mais micro e nanoplásticos na água engarrafada do que se pensava anteriormente”, disse Annelise Adrian, da ONG World Wide Found for Nature (WWF), à BBC.
Filtros de carvão podem reter até 90% dos fragmentos, tornando a água da torneira tratada uma escolha mais confiável. Mas até mesmo saquinhos de chá de plástico liberam bilhões de partículas quando em contato com água quente.
As embalagens são outra via de contaminação. Romper sacos, abrir pacotes ou usar potes plásticos antigos pode liberar milhares de fragmentos.
Além disso, aquecer recipientes de plástico no micro-ondas pode soltar bilhões de micro e nanoplásticos em questão de minutos.
Utensílios do dia a dia e substituições seguras
Tábuas de corte, talheres de plástico e panelas antiaderentes também estão entre os vilões. Testes revelam que cortar legumes ou carne em tábuas de polietileno libera centenas de partículas em cada uso.
Para a bióloga Vilde Snekkevik, pesquisadora do Instituto Norueguês de Água, “o problema é que, simplesmente, nós o usamos demais. Ele está em toda parte”.
Alternativas como vidro, aço inox ou até silicone podem ser opções melhores, embora nenhum material esteja completamente livre de riscos. No caso do silicone, a liberação de fragmentos é menor, mas ainda ocorre em altas temperaturas.
Diante das incertezas, especialistas recomendam trocar utensílios quando apresentarem danos visíveis e priorizar materiais mais resistentes.
Ainda não está totalmente claro o impacto da presença de microplásticos no organismo. Parte pode ser eliminada naturalmente, mas os efeitos cumulativos a longo prazo continuam sendo estudados.
Para Sathyanarayana, o importante é agir no cotidiano. “Existem muitas soluções simples em casa, realmente fáceis de adotar”, afirmou à BBC.
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