Como será a Blumenau dos próximos 50 anos

No aniversário do Santa, reportagem especial propõe debate sobre desindustrialização, região metropolitana e mobilidade de um município que deve chegar à marca de 500 mil habitantes até 2071

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Região da Prainha, na Ponta Aguda. (Foto: Patrick Rodrigues)

Cinco anos atrás, quando o empresário Ike Ferreira decidiu provocar conhecidos a discutir o futuro da cidade, já era mania no Facebook o grupo Antigamente em Blumenau, reunião de 40 mil pessoas interessadas em lembrar o pretérito e comungar a saudade de tempos já vividos. 

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Fotos em preto e branco, carros antigos, famílias posando diante de casas que já não existem, ruas alagadas por enchentes históricas… O engajamento dos blumenauenses no resgate do passado despertou Ferreira a propor o mesmo, mas no sentido inverso. 

Teria o novo o mesmo potencial agregador?

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Surgia ali, em agosto de 2016, o Futuramente em Blumenau. Com um objetivo ambicioso: “Deixar para nossos filhos uma cidade ou um projeto de vida melhor”. Longe de alcançar a popularidade do coirmão, o novo coletivo expandiu-se devagar. Hoje são 3,8 mil membros, mas com posts que rendem longos debates sobre urbanismo, áreas de lazer, preservação do patrimônio histórico e, o tópico mais frequente, mobilidade.

— Gostaria de viver numa cidade em que você pegasse um ônibus de qualidade, que me levasse para qualquer lugar em pouco tempo, pontual. Uma cidade onde cada bairro tivesse parques e espaços para as pessoas, com ruas mais humanizadas, calçadas largas, velocidade reduzida dos carros, respeitando mais os pedestres. Uma cidade mais feliz — imagina Ferreira.

O Jornal de Santa Catarina registrou os 50 anos passados de Blumenau e região em textos e fotografias. Pode-se acessar instantes da cidade desde 1971 por meio do acervo que acaba de ser doado ao Arquivo Histórico José Fereira da Silva. 

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Vislumbrar o município de daqui 50 anos, no entanto, é um exercício de imaginação. Não existem estudos científicos ou programas governamentais locais com um horizonte tão distante. Mas há tendências perceptíveis de como viverão os filhos e netos dos atuais blumenauenses adultos.

Os jornalistas do Santa de 2071 farão a cobertura de uma cidade com mais de 500 mil habitantes, mas com população estável ou em queda. Será uma comunidade ainda mais diversa, transformada pelas migrações. E que gerará riqueza majoritariamente via setor de serviços, menos dependente da indústria. 

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Haverá mais gente morando longe do Centro e cidades como Pomerode, Gaspar, Indaial e Timbó estarão definitivamente conurbadas ao município. Mas os deslocamentos para o trabalho serão menos frequentes ou encurtados.

— As cidades pagam um preço bastante alto pelo crescimento desordenado, especialmente pela priorização do carro como principal meio de locomoção, somado a outros problemas urbanos. Precisamos reorganizar a cidade, pensando no futuro — almeja o secretário de Planejamento Urbano, Éder Boron.

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A Blumenau de 2071 será moldada pelas decisões que a sociedade tomar desde já

População para de crescer

As estimativas do IBGE indicam que Blumenau tem 366 mil habitantes, 18% a mais que os 309 mil contados no Censo de 2010. Mas o crescimento populacional deve desacelerar nas próximas décadas, seguindo uma tendência nacional dos casais terem menos filhos. 

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Em 2071, o total de habitantes deve estabilizar acima das 500 mil pessoas. Talvez até inicie uma descida. Esse processo já começou, observa o economista Nazareno Schmoeller, coordenador do Sistema de Informações Gerenciais e de Apoio à Decisão (Sigad), mantido pela Furb.

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Pelas informações do Ministério da Saúde, o número de nascidos vivos em Blumenau estabilizou em cerca de 4,4 mil anuais desde 2012. Em 2019, último ano com dados disponíveis, a taxa bruta de natalidade por mil habitantes caiu de 12,9 para 12,3. Em 1995 era de 21.

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A Secretaria Municipal de Educação já percebeu o fenômeno no Ensino Infantil. A pressão por vagas em creches vem diminuindo. Por outro lado, demandas de serviços públicos para a população idosa tendem a crescer.

O tamanho da população também depende da longevidade e dos ciclos migratórios. Nas últimas décadas, Blumenau recebeu novos moradores de cidades do Nordeste, do Sul e estrangeiros, como a comunidade haitiana. As famílias que fincam raízes e geram descendentes tornam a comunidade mais diversa culturalmente, tendência que em 50 anos deve consolidar-se.

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Serviços empregam mais, e perto de casa

A desindustrialização observada no país na última década não poupou Blumenau. Por mais que a economia venha a recuperar-se das sucessivas crises, esse é um processo que seguirá transformando a economia local. 

Segundo a Secretaria da Fazenda de Blumenau, o Imposto Sobre Serviços (ISS) vem progressivamente ocupando parcela mais relevante da arrecadação, aproximando-se do Imposto de Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

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Por um lado, indústrias estão transferindo parte da produção a outros estados, onde a mão de obra é mais barata. Parte do valor agregado a produtos têxteis, por exemplo, já não fica em Blumenau. Esse movimento explica-se também pela localização geográfica e infraestrutura precária do Médio Vale do Itajaí.

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Por outro, novas empresas de tecnologia da informação instaladas na cidade geraram novas receitas em serviços, assim como aquisições de companhias feitas por companhias fundadas aqui.

— Essa transição não está sendo tão dolorosa quanto se imaginava 20 anos atrás — constata o economista Nazareno Schmoeller.

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Para ele, a distribuição dos empregos em empresas pequenas e médias é uma fortaleza do Médio Vale do Itajaí, característica que deve ser preservada no futuro. Christian Krambeck, arquiteto e urbanista e diretor do Instituto Furb, braço da universidade que interage com o mercado, alerta para o que considera um risco: criar uma nova dependência de um único segmento econômico.

— Se a gente cair na armadilha de só pensar em TI e inovação, nós estamos mortos. Precisamos revitalizar e reimpulsionar a nossa indústria — analisa.

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“Cidade mais compacta”

A pandemia acentuou tendências do mercado de trabalho que devem trazer consequências para a cidade no longo prazo. O secretário de Planejamento Urbano, Éder Boron, acredita que o trabalho remoto veio para ficar. E, mesmo quem continuará — ou voltará — a trabalhar fora de casa, terá opções de emprego no bairro onde mora, sem precisar ir diariamente ao Centro.

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— O nosso zoneamento já prevê a convivência de áreas residenciais com comerciais e de serviços. A gente trabalha por uma cidade mais compacta, com os centros dos bairros mais desenvolvidos — analisa.

Para Nazareno Schmoeller, a pandemia também indicou a importância de se manter uma cadeia de suprimentos regionalizada, reduzindo a dependência externa de produtos básicos, como alimentos. Se essa tendência concretizar-se, os bairros blumenauenses de 2071 terão hortas comunitárias e mercados locais que os tornem autossuficientes.

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Uma cidade chamada Médio Vale

A região metropolitana do Médio Vale do Itajaí, oficializada em lei ou não, estará consolidada em 50 anos. Trabalhadores continuarão a se deslocar entre as cidades, seja para trabalho, estudo ou lazer. Os limites entre os municípios ficarão gradativamente menos perceptíveis, com áreas ociosas sendo ocupadas até que o último bairro de um agregue-se ao primeiro do outro.

— A expansão de Blumenau para o Norte já são favas contadas, a cidade vai se expandir para além dos limites dela — prevê o economista Nazareno Schmoeller.

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Questões urbanas sensíveis, como mobilidade, coleta de lixo, tratamento de esgoto, preservação ambiental e atendimento em saúde terão de ser tratados em conjunto pelos municípios da região, prevê o secretário de Planejamento Urbano, Éder Boron. Ele acredita que a Associação dos Municípios do Vale Europeu (Amve) tem e terá papel decisivo nesse processo.

O arquiteto e urbanista Christian Krambeck está menos seguro de que a região tem dado os passos necessários para integrar-se.

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— O corpo técnico está tão focado em apagar incêndios do dia a dia que não tem capacidade de pensar o futuro — avalia.

Ele sugere que a região mantenha uma equipe responsável por monitorar indicadores e estudar saídas para problemas complexos. Todos os ouvidos pela reportagem apontam a regionalização como uma oportunidade de revisar o sistema de transporte público de Blumenau, tornando-o sustentável economicamente.

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Faz duas décadas que o Vale do Itajaí aguarda a duplicação da BR-470 até Indaial. As obras devem ficar prontas em cerca de dois anos. O acesso ao Norte pela Via Expressa está em andamento. Com investimentos da prefeitura e do Estado já projetados, o Médio Vale deve ter uma ligação com Guaramim duplicada nos próximos 10 ou 15 anos.

São melhorias de infraestrutura com potencial de transformar grandes áreas ociosas ou ocupadas por pastagens. E atrair indústrias, que hoje procuram outras regiões devido à precariedade das rodovias.

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Menos deslocamentos, mais mobilidade

Os desafios de mobilidade, os mais citados pelos cidadãos em debates sobre o planejamento urbano, não serão solucionados de maneira isolada. O município imagina a Blumenau do futuro sob três pilares: redução dos deslocamentos, promoção do uso misto das edificações, com residências e locais de trabalho, e adensamento de vazios urbanos. Uma cidade mais compacta faria as pessoas passarem menos tempo no trânsito, analisa o secretário de Planejamento Urbano, Éder Boron.

Noutra ponta, especialistas e servidores públicos concordam que o transporte coletivo, pedestres e ciclistas precisam ter prioridade sobre os carros nos investimentos em mobilidade.

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— Tem que tirar energia e grana desse uso individual do carro para outros modais. Mas é preciso fazer uma transição, tem que evoluir com o tempo. Não dá para ser irresponsável numa coisa séria como essa. Se o sistema de transporte entrar em colapso, a cidade entra em colapso — alerta o arquiteto e urbanista Christian Krambeck.

Boron valoriza investimentos em calçadas e ciclovias nos bairros, já em linha com o futuro planejado. O objetivo é convencer o blumenauense a não usar o carro em trajetos curtos, próximos de casa. Não parece tarefa fácil, mas do grupo Futuramente em Blumenau vêm bons presságios.

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— Embora tenha a turma do “tudo vai dar errado”, a gente sente que o grupo aos poucos vem mudando algumas ideias. No início, quando a gente falava em reduzir os carros, era xingado o tempo todo. Hoje, não — compara o criador do grupo, Ike Ferreira.

Se no passado um novo corredor de ônibus gerava protestos de motoristas e comerciantes, agora investimentos do tipo são bem recebidos. O mesmo ocorreu na Rua Curt Hering, no Centro, em que empresários e proprietários de imóveis apoiaram a recente remoção de 50 vagas de estacionamento para privilegiar pedestres, mesas e cadeiras de restaurantes.

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Como seria a cidade do futuro em que você gostaria de viver?

“Menos carros! Mais mobilidade. Isso seria um bom futuro”

Hans Nicolai

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“Muitas áreas verdes, árvores de sombra e menos coqueiros, ciclovias contínuas entre ruas e entre bairros, menos brita e mais jardins, mais folhas de árvores no chão. Cada bairro com serviços públicos essenciais, centros culturais, esportivos e profissionalizantes”.

Marion Rupp

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“Gostaria que o transporte público fosse de excelente qualidade, que o incentivo aos ciclistas e pedestres fosse levado a sério. Ruas extremamente arborizadas, a rede elétrica é subterrânea, as ciclovias interligam os bairros. Os prédios históricos são conservados, teríamos muitos parques e praças. Os grandes bairros seriam autossuficientes, teríamos anéis rodoviários para se locomover de um bairro ao outro. A cidade “turística” não viraria um deserto nos finais de semana. Muita arte, cultura e respeito à nossa história.

Lu Poffo

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Que também se desse mais ênfase à redução da poluição sonora.

Guenter Georg

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“Comecemos nós mesmos andando mais de ônibus, parando de tirar as árvores da Rua 7 de Setembro, priorizando os casarões da Alameda. Que sejamos menos hipócritas ao nos compararmos à Europa e vamos valorizar o que temos hoje aqui. Só com o hoje bem estabelecido podemos concretizar os próximos anos!”

Caroline Kowalski

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“Mobilidade urbana, buscar alternativas que evitem passar pelo Centro da cidade, abertura de estradas ligando os bairros e nossas cidades vizinhas”.

Roseli Kaestner

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“Blumenau precisa voltar a ter um foco, uma prioridade e deixar os profissionais contratados pela prefeitura trabalhar sem influência político-partidária. O planejamento precisa ser constantemente verificado e atualizado, mas precisa ter uma base sólida que seja o seu foco.”

Alfredo Lindner Jr.