A saudade dos sabores da Venezuela e o talento com penteados afro abriram novos caminhos para duas imigrantes em Criciúma, no Sul de Santa Catarina. Daniela Rivas, de 32 anos, e Jaira Simões deixaram os países onde nasceram e encontraram no empreendedorismo uma forma de gerar renda e construir novas trajetórias no Brasil.
Daniela transformou a dificuldade de encontrar produtos venezuelanos em uma loja no Centro da cidade. Já Jaira, que chegou de Angola aos 17 anos, fez das tranças que aprendeu ainda na infância um negócio que atualmente emprega outras três profissionais.
As histórias acompanham o crescimento do empreendedorismo entre estrangeiros no país. Segundo levantamento do Sebrae, o Brasil alcançou 106 mil microempreendedores individuais estrangeiros em junho de 2026. O número representa uma alta de 24% em relação ao ano anterior.
Em 2019, eram 42,9 mil. Santa Catarina concentra aproximadamente 14 mil desses empreendedores.
Saudade da Venezuela vira negócio em Criciúma
Daniela chegou ao Sul de Santa Catarina em 2019. Antes de abrir o próprio estabelecimento, ela e o marido trabalharam em outras atividades. A ideia de empreender surgiu após o casal perceber uma dificuldade enfrentada por outros venezuelanos que viviam em Criciúma.
Nos supermercados da cidade, eles não encontravam alimentos e outros produtos comuns na Venezuela.
“Pensamos, então, em trazer para cá esses produtos e vender. Era algo pequeno, mas as pessoas foram conhecendo, indicando para outras e fomos crescendo aos poucos”, contou Daniela.
As primeiras vendas deram origem a uma loja física no Centro de Criciúma. No local, os clientes encontram arepas, farinha de milho pré-cozida, pães, maionese, biscoitos, chocolates, chás, temperos, doces e salgadinhos consumidos na Venezuela.

O estabelecimento passou a receber venezuelanos, imigrantes de outras nacionalidades e também brasileiros interessados em conhecer os produtos. “Quando eles entram aqui, já se sentem na Venezuela. Tem pessoas que chegam e ficam felizes porque encontram uma coisa que lembra a casa, a família, a comida de lá”, relatou.
Com o crescimento das vendas, Daniela precisou ampliar o estoque e reforçar o capital de giro. Por indicação de amigos venezuelanos, ela procurou a Credisol e teve acesso ao microcrédito. “Esse recurso veio na hora certa e nos deu condições de manter o negócio. A gente consegue investir, comprar os produtos e continuar crescendo”, afirmou.
Tranças aprendidas na infância se tornam fonte de renda
Jaira deixou Angola e veio para o Brasil aos 17 anos com o objetivo inicial de cursar Administração de Empresas. A abertura do próprio negócio ainda não fazia parte dos planos, mas a influência dos pais comerciantes e uma habilidade desenvolvida desde a infância mudaram essa trajetória.
Ela começou fazendo tranças e penteados afro em pessoas próximas. Aos poucos, o trabalho chamou a atenção e novos clientes passaram a procurar pelo serviço.
“Eu sempre fiz tranças. Desde pequena isso faz parte da minha vida. Quando cheguei ao Brasil, percebi que as pessoas procuravam e não tinham muitos profissionais especializados. Então, comecei a pensar que poderia transformar isso em trabalho”, contou.
O que começou como um hobby se transformou em um salão no Centro de Criciúma. Atualmente, o espaço reúne Jaira e outras três profissionais.
Para estruturar o negócio, ela também recorreu ao microcrédito.
“Quando consegui o financiamento, ainda estava começando e tinha poucos recursos. Foi um dinheiro que chegou em um momento em que eu precisava comprar equipamentos”, disse.
O segmento escolhido por Jaira está entre os mais procurados pelos estrangeiros que empreendem no Brasil. Conforme o Sebrae, 6.663 MEIs estrangeiros trabalham como cabeleireiros ou em outras atividades de tratamento de beleza. Eles correspondem a 6,3% do total.
Maioria dos negócios atendidos tem até dois funcionários
A Credisol realizou cerca de 30 operações de microcrédito com estrangeiros ao longo de 2026. A instituição, que tem sede em Criciúma, atua há quase 27 anos oferecendo crédito produtivo e orientado para investimentos em estoque, equipamentos e capital de giro.
Somente em 2025, foram realizadas 25 mil operações, que movimentaram mais de R$ 200 milhões. O valor médio liberado em cada contratação ficou próximo de R$ 8 mil.
Os números ajudam a dimensionar o perfil dos pequenos negócios atendidos. Segundo a instituição, 65% dos clientes faturam menos de R$ 15 mil por mês e 71% trabalham sem funcionários. Outros 95,5% possuem, no máximo, dois empregados. As mulheres representam 58% da carteira.
Entre as atividades atendidas, 44,7% pertencem ao comércio, 33,9% ao setor de serviços, 15,8% a pequenas indústrias e 5,6% ao meio rural. Os percentuais consideram toda a carteira da instituição e não apenas os empreendedores estrangeiros.
Crédito acompanha desenvolvimento dos empreendimentos
Daniela e Jaira utilizaram linhas de crédito diferentes. O Juro Zero é uma iniciativa do Governo de Santa Catarina que subsidia os juros para microempreendedores individuais. Já o Microcrédito Delas foi criado pela própria Credisol e oferece condições específicas para mulheres empreendedoras.
Antes da liberação dos recursos, um agente visita o empreendimento, faz um diagnóstico da atividade e orienta o responsável sobre a aplicação do dinheiro.
“Cada empreendedor chega com uma realidade diferente. No caso dos imigrantes, muitas vezes o negócio começa a partir de algo que eles já sabem fazer ou de uma necessidade que percebem ao redor. Quando a atividade começa a crescer, o crédito pode entrar como uma ferramenta para acompanhar esse desenvolvimento”, explicou a agente de crédito Schaiane Mafioletti.
A Credisol funciona como uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, conhecida pela sigla OSCIP. Diferentemente dos bancos e das cooperativas, não exige que o empreendedor abra uma conta para contratar o crédito. O pagamento dos empréstimos é realizado por boletos.
Para o coordenador Financeiro e ESG da instituição, Stéfano Mattei, ampliar o acesso dos imigrantes aos recursos contribui para a geração de renda e a inclusão produtiva.
“As OSCIPs cumprem um papel de permitir o acesso aos recursos necessários à estruturação e ao desenvolvimento dos negócios das pessoas com iniciativa e capacidade para empreender. Nosso olhar é para ampliar esse acesso e contribuir para que mais empreendedores possam gerar renda, conquistar autonomia e construir uma atividade sustentável ao longo do tempo”, destacou.







