Ficar de pé era um sonho antigo de José Luis e José Armando Cevallos Herrera. Aos 27 anos, os irmãos equatorianos finalmente começavam a apresentar resultados na fisioterapia quando tiveram complicações de saúde. Os gêmeos siameses morreram na quinta-feira (15), na Colômbia, país onde estavam desde abril para tentar aprender a caminhar.
Naturais de Milagro, no Equador, os jovens nasceram unidos pela região do abdômen e compartilhavam órgãos internos e um único par de pernas. Como não conseguiam andar, utilizavam uma espécie de prancha com rodas para se locomover. A condição, porém, não os impediu de estudar, viajar e fazer planos para o futuro.
Poucos dias antes da morte, os irmãos haviam compartilhado nas redes sociais imagens dos exercícios de reabilitação. Pela primeira vez, conseguiam ficar de pé e manter o equilíbrio durante parte das sessões, resultado de um tratamento que alimentava a esperança de conquistar mais independência.
Irmãos superaram expectativa de vida dada pelos médicos
José Luis e José Armando nasceram em 8 de setembro de 1999, na província de Guayas, no Equador. Os dois compartilhavam o fígado, parte do intestino e estruturas da região pélvica, mas cada um possuía o próprio coração.
Ainda pequenos, passaram por avaliações médicas para verificar a possibilidade de uma cirurgia de separação. Os riscos eram elevados, principalmente por causa dos órgãos compartilhados, e a família decidiu não realizar o procedimento.
Na infância, os médicos também deram aos pais uma previsão pouco animadora. Segundo Marcos Cevallos, pai dos irmãos, a expectativa era de que os filhos vivessem aproximadamente dez anos.
A declaração veio a público em 2014, durante a comemoração dos 15 anos dos jovens. Naquela época, José Luis e José Armando já haviam superado em cinco anos a estimativa recebida pela família.
Ao longo da adolescência, aprenderam a adaptar diferentes atividades à condição física. Para sair de casa e circular por outros ambientes, contavam com o auxílio do equipamento com rodas, que utilizavam desde pequenos.
Viagem à Colômbia tinha um objetivo: aprender a caminhar
Durante anos, os irmãos precisaram se deslocar próximos ao chão, apoiados sobre uma pequena prancha com rodas. Mesmo assim, mantinham o desejo de conseguir ficar de pé e dar os primeiros passos.
Em abril de 2026, viajaram para a Colômbia em busca de um tratamento que os ajudasse a caminhar. A rotina incluía sessões de fisioterapia e exercícios para melhorar a força muscular, a postura e o equilíbrio.
Os resultados começaram a aparecer nos meses seguintes. Em vídeos publicados nas redes sociais, José Luis e José Armando mostraram que conseguiam permanecer de pé durante os exercícios, algo que antes não faziam.
A evolução animou os irmãos, que continuaram registrando as sessões e conversando com seguidores sobre os avanços. Familiares também chegaram a mencionar a possibilidade de uma cirurgia, embora não tenham divulgado detalhes sobre o procedimento.
O tratamento seguia em andamento quando os dois passaram mal.
O que provocou a morte dos gêmeos siameses?
Na quarta-feira (14), José Luis começou a sentir mal-estar e apresentou episódios de vômito. A família suspeitou inicialmente de uma infecção viral, mas decidiu procurar atendimento médico quando o quadro piorou.
José Armando também passou a sentir dores na perna e no abdômen. No hospital, os profissionais administraram medicamentos e acompanharam os sintomas apresentados pelos irmãos.
Durante o atendimento, José Luis sofreu uma parada cardíaca e precisou ser reanimado. Cerca de duas horas depois, José Armando também apresentou uma emergência cardíaca.
O estado de saúde dos dois se agravou, e José Luis sofreu uma nova parada. Ambos morreram na quinta-feira (15), aos 27 anos.
As primeiras reportagens sobre o caso apresentaram informações diferentes sobre a cidade onde ocorreu o atendimento. Embora a viagem dos irmãos tenha incluído tratamentos em Cali, outros relatos apontaram uma unidade hospitalar em Zipaquirá, nas proximidades de Bogotá.
Até a divulgação inicial da notícia, não havia confirmação pública de um laudo definitivo sobre a causa das mortes.
Irmãos estudavam Serviço Social e queriam criar uma fundação
Além do tratamento para caminhar, José Luis e José Armando tinham projetos ligados à educação e à assistência social.
Em 2021, ingressaram no curso de Serviço Social da Universidade Estatal de Milagro. A escolha da graduação estava relacionada ao interesse em ajudar outras pessoas que enfrentavam dificuldades de acesso a serviços e oportunidades.
Os irmãos pretendiam criar uma fundação para oferecer apoio a pessoas com deficiência. Também chegaram a falar sobre continuar os estudos em outras áreas depois da formação universitária.
A defesa da inclusão ganhou espaço nas entrevistas e nos vídeos que publicavam na internet. Por meio desses registros, mostravam como estudavam, se locomoviam e realizavam tarefas cotidianas.
A história dos jovens também chamava atenção para a importância da acessibilidade para pessoas com deficiência, tema que fazia parte dos objetivos profissionais dos dois.
Declaração feita um mês antes voltou a repercutir
Em setembro, José Luis e José Armando participaram de uma entrevista no programa espanhol Y Ahora Sonsoles. Durante a conversa, falaram sobre a convivência desde o nascimento e sobre a possibilidade de uma cirurgia de separação.
Na ocasião, os irmãos disseram: “Nascemos juntos, morremos juntos“.
A declaração voltou a circular nas redes sociais após a confirmação das mortes. Muitos seguidores conheciam os dois pelos vídeos em que mostravam a rotina de exercícios, os estudos e os momentos em família.
Com a notícia, parentes começaram a organizar o traslado dos corpos para o Equador. A cidade de Milagro, onde nasceram, concentrava boa parte das lembranças e das atividades que compartilhavam antes da viagem.
Os irmãos morreram sem conseguir caminhar de forma independente, mas chegaram a apresentar avanços durante os últimos meses de tratamento.
Também ficaram interrompidos os planos de seguir os estudos e desenvolver projetos voltados às pessoas com deficiência. O interesse pelo tema acompanhou os jovens desde a entrada na universidade e estava presente nas atividades de inclusão de pessoas com deficiência que defendiam publicamente.
Jean Lindemute







