Lauro Bacca: No “planeta dos humanos”, solução da energia verde é apenas paliativa

Em artigo, ambientalista cita o aumento da população mundial nos últimos séculos e as questões que envolvem as “energias verdes”, com menor impacto ao meio ambiente

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Por Lauro Bacca, ambientalista e presidente da Associação Catarinense de Preservação da Natureza

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Depois de milhares de anos com a população humana em relativa estabilidade, entre 200 e 400 milhões de pessoas, algo começou a dar certo para a humanidade e errado para o planeta.

Num mesmo dia, em 12 de fevereiro de 1809 nasciam dois bebês, mais tarde muito famosos, Charles Darwin na Europa e Abraham Lincoln nos EUA (pouco depois, o grande naturalista teuto-catarinense Fritz Müller, em 1822), numa população mundial na casa do primeiro bilhão de habitantes.

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Quase sem ninguém perceber, começava um verdadeiro processo de infestação de humanos na Biosfera.

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Em apenas 200 anos a população humana octuplicou, mas, nosso impacto sobre o planeta ficou 100 vezes maior. Em outras palavras, precisaríamos de 100 bilhões de habitantes com o padrão de vida e de consumo da época em que Darwin, Lincoln e Müller nasciam para causar o mesmo impacto hoje.

Para compensar essa esdrúxula situação em que 8 modernos sujam tanto quanto 100 de antigamente, muitas propostas e ações são colocadas sobre a mesa, fontes de energia “verde” entre elas. Uso da biomassa, energia eólica e placas fotovoltaicas estão entre as inúmeras soluções propostas, muitas delas em plena fase de implantação.

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A tal da energia verde seria de fato a solução para o atual drama planetário? Há quem diga que não. Por exemplo, no caso da energia oriunda da biomassa: se os EUA usarem até a última árvore do seu território para obtenção de energia, esta supriria as necessidades do país por apenas um ano. Mais insustentável que isso, impossível.

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No caso do Proálcool brasileiro, seu grande mérito foi o de evitar o aumento da dependência externa de petróleo, vantagem mais econômica que ecológica, se formos examinar a fundo suas implicações. O álcool anidro é uma fonte de energia “verde”, ok, mas, até que ponto é 100% sustentável?

Onde originalmente havia florestas agora tem cana de açúcar ocupando aquele espaço. Por outro lado, toda a complexa cadeia de produção e insumos envolvidos na produção do álcool é abastecida na sua totalidade pela própria energia do álcool? Duvido.

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A mineração para obtenção de silício e tantos outros minerais para compor a cadeia de produção de células fotovoltaicas e outros produtos e processos da “solução verde” causa impacto ambiental muito significativo, que, no mínimo, desbotam o “verde” dessas pretensas soluções.

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Gigantescos aviões transcontinentais podem voar propelidos por combustível “verde” à base de óleo de cozinha reciclado e misturado ao querosene de aviação. Ora, milhares desses aviões decolam e pousam todos os dias no mundo. Haverá sustentabilidade em todo esse processo?

A solução da energia verde, num mundo onde predomina a forma cancerosa do capitalismo, embora necessária, é apenas paliativa. Cooptada pelo grande capital, não está servindo para salvar o planeta, mas, sim, para manter nosso atual e insustentável estilo de vida. É o que conclui o filme-documentário de Jeff Gibbs e Michel Moore, de onde emprestei o título acima e que recomendo assistir. Dá o que pensar. Acessível neste link.