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Lauro Bacca: Cães e gatos soltos na natureza representam riscos à fauna nativa de SC

Em artigo, ambientalista fala sobre animais que vivem soltos e os impactos disso ao meio ambiente

15/11/2021 - 10h26

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Redação
Por Redação Santa
Grupo de cachorros soltos em Navegantes. Registro feito em 2015 pelo fotógrafo Marcos Porto.
Grupo de cachorros soltos em Navegantes. Registro feito em 2015 pelo fotógrafo Marcos Porto.
(Foto: )

Por Lauro Bacca, ambientalista e presidente da Associação Catarinense de Preservação da Natureza (Acaprena)

A fauna nativa na América do Sul, como em qualquer lugar do mundo, vivia num equilíbrio dinâmico que resultou de muitos milhares, melhor, milhões de anos de adaptação entre suas diversas e inúmeras espécies e entre estas e seu meio. A relação entre presas e predadores faz parte desse equilíbrio.

A quase totalidade dos predadores terrestres nativos do Brasil não forma matilhas e caça de forma isolada utilizando da estratégia da surpresa. É o caso dos felinos, família de carnívoros que engloba desde a onça pintada até o gato-do-mato-pequeno, que tentam agarrar suas presas de tocaia, sem persegui-las por longas distâncias.

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Se a presa perceber a tempo ela foge rápido e o felino logo desiste e tenta outro ataque ou outra presa mais tarde. Sendo assim, os cervídeos (família dos cervos e veados) de nossa fauna nunca precisaram evoluir para escapar do predador com uma corrida mais longa e demorada.

Junto com os europeus que aqui chegaram há pouco mais de 500 anos, vieram os primeiros cães e gatos, além de outros animais domésticos. E com eles um novo fator de desequilíbrio, entre tantos outros que prejudicam nossos ecossistemas.

Cães livres, muitos deles treinados para caça e adaptados para correr por longo tempo perseguem bichos da fauna nativa que não têm essa adaptação para corrida de longa distância. Os cervídeos que aqui servem de exemplo, acabam morrendo de exaustão, de ataque cardíaco ou até de rompimento do coração. Vi um lindo exemplar desses caiu morto entre prateleiras de uma loja agropecuária, onde entrou, tentando se refugiar dos cães perseguidores, perto de minha casa em Blumenau, numa área de floresta e preservação.

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Recentemente, publicou-se um estudo relatando casos de antas seriamente feridas por cães domésticos que as perseguem, numa fazenda próxima ao Parque Estadual Carlos Botelho em São Paulo. Se o estrago num bicho que pode chegar a 300 quilos de peso já é grande, se for um filhote a morte é certa.

Cães e gatos podem ser amigos do homem, mas não são amigos da natureza, infelizmente. O lugar desses animais domésticos é dentro do cercado de cada casa ou no apartamento, de onde só podem sair para passear conduzidos por guias bem seguradas pelos seus donos.

Soltos por aí, nem pensar.

O impacto que eles causam à fauna nativa é gigantesco, seja perseguindo e afugentando, seja matando diretamente ou transmitindo doenças. Na Austrália, nos ensina uma bela cartilha editada pelo Instituto do Meio Ambiente de SC, os gatos matam 1,3 milhões de aves e nos Estados Unidos, os cães soltos matam 33,6 milhões de mamíferos silvestres ... Por dia! Os dados constam em um artigo publicado pela revista Nature.

Então, amigo leitor, amiga leitora, respeito seu amor por gatos e cães que eu também tenho, mas, jamais com eles soltos livremente por aí. Mesmo bem alimentados, eles perseguem e matam fauna nativa. Basta de tanta matança. Nossa fauna já sofre demais com inúmeros outros danos causados pelos humanos.

Portanto, temos o desafio e a responsabilidade de evitar que o bem-estar do animal doméstico não implique mal-estar ou até morte do animal silvestre só porque este último, ao contrário dos bichos domésticos, está longe dos nossos olhos e... De nossos corações.

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